Premium Série A italiana: arranca o ano 1 d.C. na história do 'calcio'

A tão ansiada entrada em campo de Cristiano Ronaldo na Série A faz-se em Verona. O melhor do mundo veste a camisola da Juventus, mas todo o universo do futebol italiano esfrega as mãos com a chegada do craque português.

Em Verona, neste sábado, Romeu e Julieta arriscam não ser o principal tema de atração turística. A cidade que serviu de palco à trágica história de Montecchios e Capuletos, contada por William Shakespeare, assinala o início de uma nova era que promete resgatar o glamour perdido por uma das principais indústrias da sociedade italiana: o seu futebol. No Estádio Marcantonio Bentegodi arranca o ano 1 d.C. do calcio. A primeira edição da Serie A depois de Cristiano Ronaldo ter escolhido vestir a camisola da Juventus.

O português, melhor jogador do mundo da atualidade (tem o último prémio FIFA para o atestar), estreia-se curiosamente no mesmo palco onde há 34 anos se estreava outra figura que iria revolucionar a paisagem do futebol italiano. A 16 de setembro de 1984, o Bentegodi de Verona recebia Diego Armando Maradona, que chegava à Serie A vindo também de um dos grandes clubes espanhóis, o Barcelona, para liderar uma era histórica no Nápoles, que disputou o domínio do futebol italiano aos poderosos ricos industriais do norte (Milan, Juventus, Inter...).

Esses eram os inícios do período dourado do calcio, uma época de dinheiro e glamour que atraía ao campeonato italiano as principais estrelas do futebol internacional - Maradona, Careca, Falcão, Zico, Sócrates, Platini, Boniek, Gullit, Rijkaard, Van Basten, Matthäus, Klinsmann, Brehme... o desfile conseguiu prolongar-se até ao final do século XX (Zidane, Ronaldo, Batistuta, Crespo, Weah, Veron, Davids, Nedved, Simeone, Rui Costa...) com os clubes italianos a dominar a Europa e a bater sucessivamente os recordes de transferências.

Após nove temporadas a bater recordes no Real Madrid, Cristiano Ronaldo mudou-se para a Juventus. "Um sonho de criança", disse.

Tempos pelos quais os tiffosi suspiram com nostalgia. Ou suspiravam. Com a confirmação da contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus, no passado dia 10 de julho, a nostalgia romântica voltou a dar lugar ao entusiasmo. A transferência do século, gritaram logo aos quatro ventos os media italianos. Na verdade, desde a viragem de século que a Serie A não tinha um motivo tão forte para se entusiasmar. A perder glamour e importância no panorama europeu, ultrapassada pelas pujantes ligas inglesa, espanhola e até alemã, a Itália já não parecia capaz de atrair as principais estrelas do futebol mundial. Até que... chega Cristiano Ronaldo, The Best.


O internacional português escolheu a Velha Senhora (como é conhecida a Juve) do futebol italiano para dar seguimento a uma carreira que, aos seus 33 anos, ainda projeta manter no topo mundial mais um par de temporadas. E os efeitos, não só para a Juventus como para toda a Serie A por arrasto, não se fizeram esperar. A atestá-lo está, desde logo, a lotação há muito esgotada no Estádio Bentegodi, que vai permitir ao Chievo Verona um encaixe mínimo de um milhão de euros, num jogo que já pôs a cidade de Romeu e Julieta em estado de alerta total, até com a unidade de terrorismo chamada à ação para vigiar a estreia de Ronaldo.

O efeito Ronaldo

Mas isso é uma ínfima parte do que o craque português pode provocar num universo do calcio que há dez anos não tinha o melhor do mundo a jogar nos seus relvados (o último foi Kaká, em 2007, então no Milan). Se não vejamos: desde que começaram a ser públicos os primeiros sinais de que Cristiano Ronaldo poderia mudar-se para a Juventus, as ações do clube italiano em bolsa dispararam mais de um terço do seu valor, aumentando o valor da sociedade em cerca de 200 milhões de euros - o dobro do que o clube pagou ao Real Madrid pelo jogador português.

Mas há mais. Muito mais. A renovação de lugares anuais no estádio da Juventus (Allianz Stadium) esgotou num ápice os 29 mil lugares disponíveis, apesar do aumento de 30% no preço. As camisolas com o nome de Ronaldo por cima do número 7 começaram a sair como pãezinhos quentes pela manhã (levando à propagação de números surreais como o de mais de meio milhão vendidas em apenas uma semana, sem confirmação oficial por parte do clube ou da Adidas). Os números de seguidores da vecchia signora nas diversas redes sociais dispararam em flecha - mais de 6,2 milhões de novos seguidores no conjunto das diversas plataformas durante o mês de julho, passando a ser o clube mais seguido no Instagram e aquele com mais visualizações no YouTube nesse mês, onde praticamente dobrou os números conseguidos no total da primeira metade do ano.

E não é só a Juventus a beneficiar. Cristiano Ronaldo é a tábua de relançamento de uma liga que estava em decadência, um farol de esperança para um futebol que neste ano ficou de fora do Mundial pela primeira vez em seis décadas. Neste ano, pela primeira vez, a Série A italiana ultrapassou a barreira dos mil milhões de euros em contratações, ficando apenas atrás da Premier League no investimento feito, com a chegada do capitão da seleção portuguesa a contribuir decisivamente para uma maior vontade de associar capital à indústria do calcio. "Há muito anos que a Serie A não conseguia atrair os melhores jogadores e a vinda do Cristiano Ronaldo contribui para abrir de novo essa "estrada", comentava ao DN o lendário Dino Zoff, antigo internacional italiano e também referência histórica da Juventus, após o anúncio da contratação.

Mais exemplos? A TIM, operadora de telecomunicações que dá o nome ao campeonato e que estava a preparar uma retirada estratégica, renovou o contrato até 2021, no valor de 15 milhões de euros por época. Além disso, pela primeira vez, haverá uma sponsorização exclusiva para o mercado exterior no valor de 25 milhões de euros por temporada. E a ESPN norte-americana rendeu-se aos encantos de uma Série A com CR7 e comprou os direitos de transmissão para os próximos três anos, com todos os jogos transmitidos e um por semana em canal aberto para 90 milhões de lares americanos.

Cristiano Ronaldo tem este dom de transformar em ouro aquilo em que toca. Analistas do Banco IMI estimaram que o efeito CR7 em Itália deverá levar a um aumento de cinco a sete milhões de euros na venda de bilhetes e ao incremento das receitas televisivas no futuro em 30%. Outro estudo, da consultora KPMG, prevê que a Juventus possa aumentar as receitas entre cem a 130 milhões de euros por ano graças a um cocktail financeiro composto por receitas de bilheteira, merchandising, sponsorização e verbas de TV, levando o clube gerido pela família Agnelli (dona da Fiat e de um vasto império que não se limita já ao mundo automóvel) a ultrapassar a barreira dos 500 milhões de euros anuais em receitas e fazendo-o aproximar do topo dos clubes mais ricos, onde imperam ingleses e espanhóis - a Juventus é atualmente a única equipa italiana no top 10 elaborado pela revista Forbes.

Estudo de uma consultora estima que a contratação de Cristiano Ronaldo pode fazer aumentar os valores futuros de direitos televisivos da Série A em 30%.

Se assim for, os cerca de 60 milhões de euros anuais que a Juventus gastará no salário (30 milhões líquidos) do mais bem pago (de longe - o segundo ganha apenas dez milhões) jogador da Série A serão amplamente compensados.

Fora de campo, Ronaldo parece já uma aposta ganha. Em campo, a dúvida começa a ser desfeita neste sábado, em Verona. A chegada do avançado português a uma Juventus heptacampeã em título deu-se sobretudo a pensar na Liga dos Campeões, onde a equipa italiana procura voltar aos títulos (o último foi nos dourados anos 1990) tendo acumulado duas finais perdidas nas últimas quatro temporadas. Mas seria difícil de engolir a perda da hegemonia interna no ano em que Cristiano chega à Juve.

A Juventus parte naturalmente como a grande favorita ao oitavo scudetto consecutivo, reforçada pelo alien Ronaldo que tentará em Itália provar que a sua eficácia goleadora não tem fronteiras nem (ainda, pelo menos) idade. Além de CR7, o técnico Massimiliano Allegri (responsável por uma tetra dobradinha - campeonato e taça - nos últimos quatro anos) conta ainda com outro português, João Cancelo, como reforço. E também o médio Emre Can, ex-Liverpool, e o regresso de Bonucci, após uma época no Milan, que fez sair em sentido contrário o avançado Higuain e o defesa Caldara.

Os rivais

À parte do mundo Juve, a Série A conta também com o regresso de um nome histórico, Carlo Ancelotti, que toma os comandos de um Nápoles que nas últimas épocas, sob a direção técnica de Maurizio Sarri (agora no Chelsea), se assumiu como principal rival da Juventus na luta pelo título. Ancelotti, que ganhou uma Liga dos Campeões com Ronaldo no Real Madrid, tem uma missão complicada no regresso a Itália, onde não treinava desde que abandonou o Milan em 2008-09. Além de Sarri, o Nápoles perdeu a sua pérola Jorginho (que seguiu o técnico para Londres) e reforçou-se apenas pontualmente (o extremo Verdi, o médio espanhol Ruiz, o lateral francês Malcuit...).

O papel de anti-Juve parece, à partida, entregue ao Inter de Milão de Luciano Spalletti, que, esse sim, investiu abundantemente no mercado, com as chegadas de jogadores feitos como o médio belga Nainggolan, o lateral croata Vrsaljko, o central holandês de Vrij ou o médio ganês Asamoah (ex-Juventus) e a aposta em jovens promessas de grande potencial, como o atacante argentino Lautaro Martínez ou o senegalês Keita Baldé, cedido pelo Mónaco. Faltou "apenas" Luka Modric, que tentou acompanhar Cristiano Ronaldo na saída do Real Madrid para ser rival do português em Itália, mas sem êxito.

Carlo Ancelotti, que ganhou uma Champions com Ronaldo no Real Madrid, regressou a Itália para treinar o Nápoles, rival da Juventus.

Quem também se reforçou muito foi a Roma, do guru de mercado Monchi (o espanhol que é o diretor de futebol), que na época passada foi terceiro classificado e chegou às meias-finais da Liga dos Campeões e agora investiu mais de 130 milhões de euros em novos jogadores, com os médios Nzonzi (ex-Sevilha) e Pastore (ex-PSG) como figuras de um cartaz que inclui ainda Justin Kluivert (ex-Ajax e filho do antigo internacional Patrick Kluivert), Defrel, Santon, Schick e os nossos conhecidos Bryan Cristante (ex-Benfica) e Ivan Marcano (ex-FC Porto).

Milan, agora nas mãos de um fundo americano (Elliott) depois do flop chinês - e com os regressos de históricos como Paolo Maldini e Leonardo para lugares de gestão -, Lazio, que conseguiu resistir a todas as investidas por Milinkovic-Savic, e a jovem Fiorentina de Stefano Pioli estarão um degrau abaixo na luta pelo topo, num campeonato que conta com o regresso do Parma, quatro anos depois de ter declarado bancarrota e ter sido refundado na quarta divisão com o nome de S.S.D. Parma Calcio 1913. O clube parmigiano, reforçado com o veterano defesa português Bruno Alves, conseguiu ver anulada uma penalização de cinco pontos (por alegada tentativa de influenciar resultados por parte de um jogador do clube). Também promovidos foram Empoli e Frosinone.

Portugueses e fecho do mercado

Além de Cristiano Ronaldo, esta edição da Série A italiana vai contar com mais nove futebolistas portugueses. Na Juventus, Ronaldo tem a companhia de João Cancelo. No Nápoles, está o lateral esquerdo Mário Rui. No Inter, está ainda João Mário (à espera de uma saída). No Parma, há Bruno Alves. No Génova, Iuri Medeiros, Pedro Pereira e Vasco Oliveira. Por fim, na Lazio, os jovens Bruno Jordão e Pedro Neto.

Tal como aconteceu em Inglaterra, o mercado fechou antes do arranque do campeonato, com o deadline nesta sexta-feira, às 20.00 locais. Fechou sem Modric (o grande desejo do Inter, o que motivou até queixa do Real Madrid à FIFA), mas com Gervinho (Parma) e Zaza (Torino) como principais novidades do último dia.

Primeira jornada

A ronda inaugural começa coxa, com dois jogos adiados devido à tragédia da queda da Ponte Morandi, em Génova, que levou a liga a remarcar para mais tarde os jogos Sampdoria-Fiorentina (19 setembro) e Milan-Génova (31 de outubro).

Assim, os jogos deste fim de semana serão os seguintes:

Chievo-Juventus, sábado, 17.00
Lazio-Nápoles, sábado, 19.30
Torino-Roma, domingo, 17.00
Sassuolo-Inter, domingo, 19.30
Parma-Udinese, domingo, 19.30
Empoli-Cagliari, domingo, 19.30
Bolonha-SPAL, domingo, 19.30
Atalanta-Frosinone, segunda-feira, 19.30

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