"O Brasil tem um problema crónico na maneira de fazer política"

São 25 anos de carreira na frente do hip hop brasileiro e sempre perto de Portugal. Na Batalha, Gabriel o Pensador falou com o DN, sobre a vida, a carreira e a política brasileira. Sobre Temer? Já refez um dos seus clássicos, Tô Feliz - Matei 2.

Com o Mosteiro da Batalha em pano de fundo, o rapper brasileiro deu um verdadeiro show para milhares de pessoas. Numa curta digressão por Portugal (que passou por Gaia e Cascais e em Lagoa, Algarve, na Fatacil), Gabriel percorreu os êxitos de 25 anos de carreira, juntando um público que atravessa várias gerações. No concerto da Batalha, na quarta-feira, 15 de agosto, o artista chamou ao palco crianças e jovens que com ele cantaram temas como Solitário Surfista ou o hit2345meia7e8, para além de insistir na mensagem antirracismo. Depois, já no encore, desceu do palco e fez diretos para o Instagram junto do público. No final, em entrevista ao DN, Gabriel o Pensador explicou como é que se alimenta dessa comunicação com a assistência e com os seguidores. Cauteloso, prefere mudar de assunto no que toca às eleições no Brasil, optando por colocar no mesmo saco governos diversos, presidentes e deputados. E, afinal, ficámos a saber que foi numa viagem entre Portugal e o Brasil que nasceu a versão de Tô Feliz - Matei 2, desta vez concentrada em Michel Temer. Quando escreveu a primeira versão, há 25 anos, era dirigida a Fernando Collor de Melo.

O que é que leva do concerto da Batalha? O que lhe fica desta noite?
Levo uma lembrança muito boa, uma noite linda de verdade. Temos sido muito bem recebidos nos shows em Portugal. O que mais estou a gostar de observar é o encontro de gerações: crianças que estão agora a chegar ao público, a conhecer o meu trabalho, adolescentes, e depois senhores, pessoas mais velhas, que aos poucos se aproximam do palco, curiosas, e também aqueles que acompanham a carreira toda. Então fica uma mistura muito boa. Para nós é muito estimulante.

São quantos anos de carreira, exatamente?
25 anos.


Foi precisamente há 25 anos que fez a primeira versão do tema Tô Feliz - Matei o Presidente, na altura dedicado a Collor de Melo. Agora fez uma segunda versão, dedicada a Temer. Alguma vez imaginou que viria a ter de fazer esse tema de novo?
Foi isso, sim. Eu não tinha planos de fazer Matei o Presidente 2, embora alguns fãs, ao longo da carreira, tivessem sugerido isso, para vários presidentes, já depois do Collor. Isto aconteceu quando eu voltava de Portugal para o Brasil, depois de saber que o presidente Michel Temer tinha resolvido, por decreto, liberar uma área gigantesca da Amazónia para exploração de petróleo, sem se importar com a opinião pública, com nada. Fê-lo por decreto, de maneira autoritária.


Foi uma espécie de gota de água, para si.
Sim, depois de tantas denúncias, de vários governos - e não só o governo federal mas também os estaduais, municipais, muitos deles envolvidos em escândalos, através de deputados, senadores e outros - já depois de muita podridão vinda à tona, veio essa notícia de uma atitude muito arbitrária e autoritária. Então eu aproveitei o mote para falar dos políticos, não só do presidente.


Tudo isso numa viagem de Portugal para o Brasil?
Sim, foi no avião. Tem uma letra curiosa... é como se fosse um sonho que eu tive e que eu não quero realizar. Eu não quero ir lá matar ninguém! E a letra vai falando sobre isso, como se o povo e a própria polícia me incentivassem a matar. E, no final, eu digo que nunca matei (nem seria capaz de matar) mas falo de como tudo podia ser diferente. E lá no Brasil emocionamo-nos muito nessa hora, nessa parte da música.


Porquê?
Porque nós sabemos como somos um povo com capacidade, recursos, força de trabalho, e o Brasil podia ser bem melhor.

E agora está de novo a atravessar um momento complicado...

O problema é que não é só o momento. É uma maneira de se fazer política que já está enraizada no país e que gera tanto sofrimento, para tanta gente. Mas o Brasil tem um problema crónico na maneira de se fazer política. E de gerir esses recursos que tem, e que são muitos. Na música Tô Feliz - Matei o Presidente, quem quiser conferir esse desabafo, está lá. Como tudo poderia ser muito diferente. E é uma frustração muito grande ver como certas coisas absurdas acabam parecendo normais. Por isso o que a gente espera é que comece a diminuir essa impunidade, mesmo que seja lentamente. Que a imprensa continue a fazer o seu papel. Hoje temos a internet e é uma forma mais livre de divulgar e discutir as coisas. Por outro lado, sinto muita pena da polarização que divide as pessoas, com uma visão muito limitada da questão política. O povo acaba se desunindo mais em época de eleições, tendo uma visão muito rasa de um problema que é bem profundo.


A sua forma de contribuir para mudar esse estado de coisas é esta, a de cantar? É essa a sua intervenção?
Eu acho que a música serve para dar ânimo, para continuarmos a acreditar. É uma das expressões da voz da opinião pública, que é importante ser ouvida, mesmo quando eles fingem não escutar [os políticos]. Porque os políticos vivem de votos e às vezes as manifestações conseguem gerar resultados concretos.


Por exemplo?
O decreto anunciado pelo presidente Temer, para liberar essa área gigantesca da Amazónia de que falei, e que deu origem à música, motivou também manifestações. A população reagiu com força contra esse decreto. E o governo voltou atrás.


Ou seja, acredita que teve a sua intervenção nesse ponto?
Nós todos. Por isso é que eu sinto pena quando o povo se desune, um defende um político e outro defende outro. E quando eles lá em cima querem ajudar-se e proteger-se mutuamente, todas aquelas rivalidades aparentes são esquecidas, e eles abraçam-se e dão as mãos. E cá em baixo os eleitores - alguns amigos - brigam por causa de diferenças de opinião políticas.

O que é que espera que aconteça no Brasil nas próximas eleições?
Tudo aquilo que eu já resumi. O que o povo quiser.

Por cá, em Portugal, tivemos dias agitados à conta de um convite à líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen. Sendo que o racismo é um dos temas que mais denuncia nas suas músicas, como é que encarava a vinda de uma personalidade como ela à Web Summit?
Eu acho que todas as figuras públicas - não só os políticos - deveriam pensar mil vezes antes de fazer qualquer declaração racista. Infelizmente o mundo ainda está contaminado por esse mal. Faço muitas palestras para crianças e jovens, nas escolas, e falo sempre sobre isso.

Há uma música que se chama Lavagem Cerebral em que fala disso mesmo...
Sim, por isso falo também sobre isso nos shows. Agora tenho uma segunda versão chamada Racismo É Burrice. Sabemos que existem alguns avanços, no Brasil passou a ser crime. Por isso é impressionante como é que o ser humano às vezes parece que não evolui. Pelo contrário. Em momentos de crise económica, por exemplo, os preconceitos são exacerbados. E os políticos aproveitam-se disso, propositadamente.


Desagrada-lhe que essas pessoas tenham palco?
Sim, porque o político manipulador consegue usar o ódio e o medo para agregar um exército de seguidores, como fez Hitler.

A pessoa que é hoje é diferente daquela que começou a cantar nos palcos há 25 anos?
Claro.

Em quê, exatamente?
Várias coisas. Há um disco que eu batizei com o nome "seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo". Nós estamos sempre nos transformando. Há uma música até que eu coloquei na introdução, como uma pessoa a perguntar: "hei Gabriel, você tá mudando suas músicas? " E eu respondi: "não, estou musicando as minhas mudanças"... A transformação é importante e inevitável e estimulante. Por outro lado, ainda me sinto como no princípio, continuo a arrepiar-me e a emocionar-me com os olhares das pessoas, com as viagens, com as amizades que vou fazendo ao longo da carreira. Tenho muita gratidão por isso tudo.

O que é que mudou mais em si: a sua forma de ver o mundo ou foi o mundo que mudou?
Não sei bem. De lá para cá tornei-me pai, tenho dois filhos (16 e 13 anos) e a gente muda. Também quando voltamos a um lugar temos um novo olhar sobre o mesmo local. Ou as histórias que nos vêm contar. De como as nossas músicas conseguem mudar a vida de algumas pessoas, às vezes coisas muito profundas. Como uma menina que desistiu de cometer suicídio inspirada na música Fé na Luta, que escutou no dia em que tinha tomado a decisão de se suicidar.

São vitórias para si? É por isso que tudo continua a valer a pena?
Isso não tem preço, essas histórias que nos vêm contar de como uma letra pode mudar tudo na vida de uma pessoa. Há uma que se chama Até Quando? fala de atitude, formação, cidadania. Já nos vieram contar sobre o rompimento de um relacionamento abusivo, por exemplo. Outra vez, em Paris, eu participei do show da banda Stereo Maracanã, e um deles, um rapper negro, brasileiro, veio ter comigo e contar-me que estava na prisão quando eu lancei o meu primeiro disco. Ouviu a música Lavagem Cerebral (que fala de racismo) e contou-me como aquilo mexeu com ele, e escreveu-me uma carta. Contou-me que duas semanas depois recebeu na sela uma resposta minha, com a letra da música, como tinha pedido. Ele na carta dizia que nunca tinha ouvido rap antes, mas gostaria de fazê-lo quando saísse da cadeia. E veja bem, naquele dia em Paris eu estava a participar do show dele. O nome dele é "Jovem Cerebral", por causa da música... e hoje educa os jovens na favela, contando a sua própria história. São histórias assim que realmente me motivam.

O que é que procura no público, passado este tempo?
Acho que é a comunicação, mesmo. Aquilo que eu falo na música Tás a Ver.

Está a preparar algum trabalho novo?
Agora eu lanço singles e já não lanço álbuns. Há três semanas lancei uma música nova chamada Passaporte para a Fé, com o Gustavo Macaco. Está o clip no YouTube para todos verem e, entretanto, vem coisa nova por aí. É lá, no nosso canal, que agora lançamos as músicas novas, e conversas com convidados também.

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