"Às vezes levo uns sopapos valentes e vou ao chão, mas tendo a sacudir o pó"

De guia-intérprete no Algarve a diretor artístico do Teatro da Trindade, Diogo Infante agradece às mulheres que o criaram, mas também ao pai que conheceu aos 34 anos. Recorda que quando se casou com Rui Calapez queria "proteger juridicamente o filho" e que celebrou quando a lei da adoção por casais do mesmo sexo foi promulgada.

Susete Henriques
Ator, encenador, apresentador e diretor artístico do Teatro da Trindade, Diogo Infante aposta na realização. | foto Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens
Diogo Infante no Teatro da Trindade, onde desempenha o cargo de diretor artístico. | foto Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens
O ator quando tinha 2 anos. | foto Instagram Diogo Infante
A paixão pelos cavalos. | foto Instagram Diogo Infante

Diogo Infante recorda ao DN o percurso que o levou a diretor artístico do Teatro da Trindade, mas o que está para vir é o que o move. Aos 51 anos, o ator, encenador e apresentador abraça agora o desafio da realização. Depois de uma "curta" tem agora nas mãos o guião de uma longa-metragem. Fora de cena, fala também das ambições e dos sonhos de quando era guia-intérprete, do amor às mulheres que o criaram, a mãe e a avó, ao filho e da relação com o pai que só conheceu aos 34 anos.

Há muitas diferenças entre o Diogo guia-intérprete do Algarve e o Diogo diretor artístico do Teatro da Trindade?

Penso que não, curiosamente. É evidente que hoje sou um homem mais experiente, com mais conhecimentos, com mais vivências. Tudo isso ajuda a estar nesta posição de forma mais, enfim, serena. Mas penso que não perdi nem o entusiasmo nem a capacidade de sonhar, de arriscar, de me indignar, nem a capacidade de me entregar. Penso que essas são algumas das características que me definem. Diria que sou um lutador, às vezes levo uns sopapos valentes e vou ao chão, mas tendo a sacudir o pó e pôr-me de pé outra vez, sobretudo por duas grandes razões. Por um lado porque acredito naquilo que faço, acredito em mim, e porque tenho uma profunda paixão por aquilo que faço.

Não há então uma grande distância...

Do ponto de vista da personalidade, não há. Esses são traços comuns. Claro que nos separam 30 e tal anos. Eu comecei a ser guia-intérprete aos 17, 18 anos e muito cedo já tinha um sentido de grande responsabilidade. De resto, guardo dessa altura uma enorme pontualidade, porque as excursões eram feitas ao minuto, tinha de dar o número de minutos que os turistas tinham para estar numa paragem para visitar um monumento, tudo era cronometrado. Essa quase fobia, patologia, obsessão [com o tempo] mantém-se porque a gestão do tempo é algo, para mim, muito precioso porque faço muitas coisas ao mesmo tempo. São traços que se mantêm até hoje, e ainda bem.

"A componente social e política está indissociada daquilo que faço. Às vezes até involuntariamente."

Então porquê o teatro?

Foi o espaço que encontrei onde podia exercer-me, no fundo, desafiar-me, descobrir-me, ir mais longe e, sobretudo, ser muitas coisas numa só vida, numa só existência. E depois não é só na relação connosco, mas na relação com os outros. O teatro é um palco, um espaço de visibilidade, onde conseguimos ou não chamar a atenção sobre nós, sobre o que estamos a dizer, sobre um texto.

É nesse sentido que enquanto ator se deve ser um agente social e político?

Penso que os artistas em geral são isso tudo. Pelo menos é assim que eu entendo a arte, um processo transformador, refletor da própria vida, algo que nos leva necessariamente a questionar. Mas essa componente social e política está indissociada daquilo que faço. As vezes até involuntariamente. Não subscrevo tudo o que digo nas personagens, não tenho de me rever naquilo. Aliás, faço muitas personagens que não têm nada que ver comigo, e isso é muito interessante porque me obriga a pôr-me no lugar do outro.

O guia-intérprete sabia que não era aquilo que queria fazer para o resto da vida.

O rapaz guia-intérprete sabia que tinha de ganhar dinheiro e trabalhar. Penso que tinha algum jeito como guia. Se pensarmos bem há parecenças: tinha de falar para um público, ter o texto bem sabido, projetar a voz, captar a atenção do público, ter um determinado ritmo, manter uma determinada gestão do tempo, tudo coisas que um ator faz. Tem de entreter, no fundo. Mas havia um apelo. Até porque eu comecei a fazer teatro amador muito cedo, com 17 anos. Foi mais ou menos a altura em que entrei para Escola de Turismo. Aí percebi rapidamente que aquilo tinha um impacto muito grande em mim. Claro que fazendo teatro amador em Faro, no Teatro Lethes, num ambiente mais pequeno, as probabilidades de seguir uma carreira profissional eram muito escassas e sabia que não era fácil. Eu tinha limitações financeiras de vária natureza, mas ainda assim nunca deixei de acreditar e sonhar e, mais tarde, aos 21 anos, foi quando decidi vir para Lisboa para o Conservatório.

Lembra-se da estreia no Teatro Lethes em Faro?

Perfeitamente. Foi na estreia de uma peça que se chamava Os Cães, de Tone Brulin, um autor belga. Era uma peça sobre racismo na África do Sul, sobre o apartheid. Fazia de um jovem rebelde que se revoltava contra um pai que era muito conservador. Lembro-me de essa estreia ter tido um impacto grande nos outros e em mim. Nos outros pela reação de tão generosa e tão positiva, que me fez acreditar que tinha algum jeito. E em mim porque senti intrinsecamente que aquilo tinha um eco em mim.

Mas antes do teatro é o turismo que chega pela sua mãe...

Sim, a minha mãe já tinha sido correio de turismo quando foi mais nova, tinha trabalhado na American Express, na TAP. Ela acabou por trabalhar em hotelaria durante muitos anos e, portanto, esse contacto foi uma espécie de prolongamento muito natural de uma realidade que já conhecia.

Como foi a reação ao Diogo ator?

Sempre com muito entusiasmo. A minha mãe nunca me pôs qualquer tipo de entrave, barreira ou obstáculo. Deu-me sempre total liberdade para seguir o que entendesse. Eu de resto comecei a trabalhar muito cedo, comecei a contribuir muito cedo.

"A estreia como ator profissional foi no Teatro Nacional D. Maria II. Fazia uma figuração especial. Recebi 70 contos, na altura era muito dinheiro. Pensei: 'Uau.'"

Aos 13 anos, como empregado de mesa.

Sim. A minha mãe sabia que não ia ser fácil mas também nada era fácil, portanto ela limitou-se a dar-me apoio e disse-me "não te preocupes connosco". Foi a coisa mais importante que me podia dizer porque eu efetivamente preocupava-me muito com elas. Esse incentivo foi fundamental para acreditar em mim e, claro, a minha mãe e a minha avó acompanharam-me sempre.

Como foi a estreia como ator profissional?

Foi no Teatro Nacional D. Maria II. Ainda estava no Conservatório, fazia uma figuração especial. Era um trabalho pago, profissional, recebi 70 contos. Na altura era muito dinheiro. Pensei: "Uau." Não tinha texto, mas tinha muita ação. A peça era As Sabichonas, de Molière. Era um dos muitos empregados que andava lá a sirigaitar. Lembro-me claramente de estar em cena e de ver as luzinhas da plateia e de ser uma excitação. Essa foi a primeira sensação. Mas depois o primeiro espetáculo profissional em que falei tinha texto, foi no Teatro Experimental de Cascais, na Morte de Danton, de Georg Büchner, com encenação de Carlos Avilez. Se bem me lembro fazia cinco ou seis personagens diferentes, todos muito pequeninos, cada um dizia duas ou três falas, era um frenesim. Mas já tinha bastante confiança.

Por causa do teatro amador?

O facto de ter estado três anos no teatro amador deu-me alguma estaleca, nada daquilo era completamente novo, ao que acresce toda a experiência que estava a adquirir no Conservatório. Fui consolidando esse conhecimento, o que me permitiu abraçar estes desafios com entusiasmo, e tanto assim foi que logo na primeira peça o Carlos Avilez deu-me uma oportunidade fantástica e eu fiz uma personagem que adorei e que me marcou imenso: o Edmundo do Rei Lear, e aí, sim, já uma personagem grande, com imenso texto e responsabilidade. Foi maravilhoso.

Foi um ponto de viragem?

Do ponto de vista da responsabilidade, mas também creio que terá sido um ponto de viragem para o próprio meio porque passei a existir. Tive a sensação de que o meio teatral me reconheceu. Senti que na altura se começou a falar de um novo miúdo. Foi por essa altura que me estreei na encenação, muito cedo, foi aqui no Teatro da Trindade. Foi para aí há 25, 26 anos. À noite fazia o Rei Lear e à tarde fazia outro espetáculo que encenei. Tinha 24 anos.

Muito novo e já ator e encenador.

Sim, porque tinha opiniões, tinha coisas para dizer, nem sempre concordava como as coisas eram feitas.

E como era dirigido?

Não era só como era dirigido. Tinha que ver com todo o contexto e sentia que tinha uma necessidade de me expressar, ir além da mera contribuição como ator. O facto de me ter tornado encenador foi uma espécie de prolongamento natural dessa vontade de ter um espaço onde eu pudesse ter mais responsabilidade

E de ser mais interventivo?

Também. E foi o que fiz.

"Numa fase muito precoce ainda tentei ir para uma escola em Inglaterra estudar. Fui imediatamente rejeitado."

Seguiram-se dezenas de peças, novelas, filmes, prémios. Mas nunca apostou numa carreira internacional?

Do ponto de vista de ir lá para fora, de emigrar e de me instalar noutro país, não. Há 25 anos era muito mais difícil do que é hoje. Ainda fiz algumas tentativas para arranjar agentes no estrangeiro. Fiz alguns filmes estrangeiros, algumas coproduções.

A nível europeu?

Sim. Nós temos esta mentalidade um bocadinho tacanha. Pensamos que a internacionalização só passa nos EUA. Efetivamente, os EUA são a maior indústria cinematográfica. Eu tentava trabalhar para sobreviver, quanto mais emigrar. O que aconteceu foi que, felizmente, o meu país começou a dar-me trabalho, a reconhecer o meu espaço e deixei de ter efetivamente tempo para pensar em grandes sonhos. E, sinceramente, não me arrependo nada de não ter arriscado, porque passei a dar muito mais valor a Portugal, passei a dar muito mais valor ao papel que eu posso desempenhar ou o contributo que posso dar no meu próprio país.

Mas quando estava a começar em Faro imaginava-se a ganhar um Óscar?

As minhas referências culturais na altura, no Algarve, eram as que me chegavam pela televisão e pelo cinema. Via muito pouco teatro, era muito ignorante em relação ao panorama cultural português. E, por isso, os meus sonhos eram dessa natureza, mas também é o que se equipara a ganhar o Euromilhões, andava lá perto. Se eu ganhar um dia um Óscar? Se eu ganhar o Euromilhões? Tudo sonhos pouco reais. Numa fase muito precoce ainda tentei ir para uma escola em Inglaterra estudar. Fui imediatamente rejeitado.

Porquê?

Porque me preparei mal. O universo competitivo em Londres é de tal forma violento, e na altura nós não fazíamos parte da Comunidade Europeia, portanto, a escola era uma fortuna. Teria de trabalhar simultaneamente para pagar a escola caso tivesse entrado. Para ter uma noção naquela escola a que eu me candidatei, havia cerca de mil candidatos para 25 vagas. Quando entrei para o conservatório eram cem para as mesmas 25. Está a ver a proporção. Percebi que lá ninguém se candidata a uma escola, mas a, pelo menos, dez. Nós cá só tínhamos uma. Era outro campeonato e percebi: não tenho capacidade para isto, nem tempo nem dinheiro para investir em mim só para ir à audição e depois, mesmo que fique, não sei se conseguirei sobreviver aqui e serei sempre um estrangeiro. Hoje a coisa está mais diluída, é mais fácil encontrar um espaço, um nicho onde nos possamos exercer, mas, na altura, os ingleses eram um bocadinho snobes. Seria sempre um latino aos olhos deles.

"Eu já não me deixo deslumbrar com a ideia de trabalhar com A, B ou C, porque acho que isto é de facto muito ténue e efémero."

Decidiu então apostar no seu país?

Aqui acabei por encontrar rapidamente um espaço que me reconheceu e que me deu a possibilidade de crescer. Estou muito agradecido e reconhecido por isso.

Recentemente recusou uma série estrangeira.

Foi falta de disponibilidade. Já tinha outros compromissos, não dava para conciliar. Tinha um espetáculo de teatro.

Era com o Dustin Hoffman?

Sim, isso era uma curiosidade. Fui sondado para entrar na série, mas já tinha compromissos assumidos e, por mais apelativo que esse cenário pudesse ser, eu não podia deixar de honrar os meus compromissos. Mas já não me deixo deslumbrar com a ideia de trabalhar com A, B ou C, porque acho que isto é de facto muito ténue e efémero. E se queremos chegar longe temos de nos manter sólidos e estruturados. E, como disse, tenho uma vida aqui, uma família aqui, tenho responsabilidades aqui. Uma coisa é poder ausentar-me para uma participação num filme estrangeiro, mas tenciono voltar sempre para aqui, não estou disponível para viver noutro país neste momento.

Fala com carinho de Portugal.

Porque aprendi. Pertenço a uma geração em que quando era miúdo nós comprávamos sempre o que não era português, a tudo o que era português dizíamos "que horror, nem pensar". E hoje, felizmente, esse paradigma mudou. Penso que hoje temos uma autoestima muito mais elevada, que resulta de muitos fatores, mas tive de fazer essa aprendizagem à minha custa, por isso é natural que fale com muito orgulho e carinho, sim.

"Se conseguirmos que os nossos filhos tenham mais referências culturais, sejam mais estimulados do ponto de vista da criatividade, da imaginação, eles serão necessariamente melhores médicos, melhores economistas, melhores professores."

Antes de ser diretor artístico no Trindade, desempenhou as mesmas funções no Teatro Nacional D. Maria II e no Maria Matos. Nas duas situações saiu do cargo por causa da falta de verbas.

Muito recentemente, ouvi o primeiro-ministro dizer que para o ano haverá um reforço significativo da dotação orçamental para a cultura. Espero que, desta vez, cumpra o seu compromisso em valorizar-nos. Há demasiado tempo que somos sempre uma espécie de parente pobre, tolerável. É pena porque acho que é mesmo uma questão cultural de base, não só dos políticos mas da sociedade em geral. Há muito que se percebeu que o estado evolutivo de um povo se define pela cultura, curiosamente, e não pelos parâmetros económicos apenas. Se conseguirmos que os nossos filhos tenham mais referências culturais, sejam mais estimulados do ponto de vista da criatividade, da imaginação, eles serão necessariamente melhores médicos, melhores economistas, melhores professores. Os nossos programas curriculares não valorizam suficientemente esse aspeto que é fundamental. Sim, o dinheiro tem estado muitas vezes nas minhas tomadas de posição mais duras porque acredito verdadeiramente que temos uma missão. É uma missão importante.

E qual é essa missão?

É a missão de, por um lado, democratizar o acesso à cultura, por outro lado de formar novos públicos, dar-lhes os instrumentos necessários para que possam fruir da oferta cultural, com sentido mais pleno, mais crítico, mais interventivo, mais exigente. Temos de crescer em conjunto.

Porque a cultura deve ser para todos...

A cultura é para todos. Há uma intelectualidade na cultura que me enerva. Há um pretensiosismo cultural com o qual eu não me revejo.

"Acredito que é possível fazer teatro de qualidade e para o grande público, e é isso que estou a tentar fazer."

Qual é a marca que quer deixar no Trindade?

Aquilo que eu estou a tentar fazer é aplicar uma lógica que apliquei nos teatros nacionais e municipais, onde havia dinheiro, onde havia efetivamente um investimento para a atividade, e estou a tentar aplicar isso aqui numa lógica de retorno. Ou seja, quanto mais conseguir gerar receita, mais dinheiro eu tenho para investir, portanto essa lógica de responsabilização, não só minha mas dos criativos, compromete-nos e pressupõe o sucesso, pressupõe um grau de retorno alto. Acredito que é possível fazer teatro de qualidade e para o grande público, e é isso que estou a tentar fazer.

Fala com paixão do seu ofício. É o que transmite ao seu filho Filipe, de 15 anos?

Ele sente isso em mim em tudo o que faço, não imponho nada. Claro que o exponho naturalmente a muitos espetáculos e ele tem visto praticamente tudo o que faço e não só. Ainda agora vamos viajar e já tenho agendadas várias peças, e ele às vezes diz: "Vamos outra vez ao teatro?" Como quem diz: "Podias levar-me a ver outras coisas." Mas pronto. Penso que isto é o género de coisa que mesmo que o possa desconfortar um pouco fica para a vida. Ele não se vai esquecer daqui a dez, 15 anos que foi ao teatro, que viu aquela atriz, aquele ator. Faz parte da formação dele.

Mas poderá ser este o caminho dele?

Não faço ideia. Penso que é muito cedo. Ele tem 15 anos, tem é de aproveitar a sua adolescência e desenvolver a sua personalidade estruturadamente com os valores certos, com as referências que o tornem mais rico, e é isso que eu como pai tento fazer.

Em 2012 disse: "Quero que seja público e com dignidade. Adotei uma criança. Tive um filho. Tenho um filho." Porque sentiu necessidade de partilhar esse momento?

Sou uma figura pública, o que decorre do meu trabalho, e havia uma parte de mim que era tão importante e sobre a qual nunca tinha falado. Sempre fui muito discreto em relação à minha vida pessoal, mas não se pode esconder um filho. Que eu saiba não há fotografias dele, não ando com ele em estreias, não o exponho. Não é porque não tenha vontade, tenho tanto orgulho dele que adoraria andar a pôr sempre fotografias dele, mas quero protegê-lo. Não quero que pelo facto de ser meu filho se torne de alguma forma um peso ou uma responsabilidade. Quero que ele tenha o seu próprio percurso. Não quero nada que isso seja um encargo, mas tinha de legitimá-lo publicamente e senti essa necessidade.

"Celebrámos, comovemo-nos, festejámos e rapidamente encetámos o processo de coadoção que permitiu ao meu filho hoje estar juridicamente protegido, tem dois pais."

Um ano mais tarde, assumiu o casamento com Rui Calapez. "Casei-me porque felizmente vivo num país que o permite fazer", escreveu nas redes sociais. Voltou a sentir a necessidade de intervir na sociedade.

Penso que intervenho sempre, política e socialmente só pelo simples facto de estar na sociedade. Como tenho um grau de visibilidade, aquilo que faço pode ter um impacto. Nunca quis ser nem uma voz nem um porta-estandarte de uma causa. A minha causa principal é o teatro, a humanidade no seu todo. Não quero ser percecionado apenas com uma coisa ou apenas de um ponto de vista. Eu não quero que quando se pensa em mim se pense na minha sexualidade imediatamente, quero que se pense em mim como ator, homem de teatro, alguém cujo contributo é importante. Depois sou muitas outras coisas também.

"Quando me casei, casei-me porque sentia na altura que precisava de proteger juridicamente o meu filho."

Mas é uma voz que se faz ouvir.

Eu não ajo a pensar no impacto que vou ter, ajo por necessidade. Quando me casei, casei-me porque sentia na altura que precisava de proteger juridicamente o meu filho, porque a lei ainda não permitia a coadoção e eu pensava que se me acontecer alguma coisa o meu filho não pode voltar para uma instituição. Portanto, pelo menos eu quero ter um vínculo com o meu parceiro que o permita ser preferencialmente a pessoa com quem ele vai ficar, porque a lei nessa altura não o reconhecia como segundo pai. Depois a lei mudou. O Rui pode coadotá-lo, felizmente.

Na altura insurgiu-se com o Presidente da República, Cavaco Silva, que tinha vetado o diploma.

Naturalmente. Hoje com as redes sociais é relativamente fácil expressarmos uma opinião, e foi o que fiz porque fiquei mesmo incomodado enquanto cidadão. Fiquei incomodado porque estava a afetar-me. Ele estava a dizer que a minha realidade não era válida. Estava a dizer-me que eu não podia continuar um processo que é legítimo. E, portanto, sim, tomei uma posição e, felizmente, o ato dele foi inconsequente.

Como reagiu com a promulgação da lei da adoção por casais do mesmo sexo?

Celebrámos, comovemo-nos, festejámos e rapidamente encetámos o processo de coadoção que permitiu ao meu filho hoje estar juridicamente protegido, tem dois pais.

Ainda há um longo caminho a percorrer na mudança de mentalidades em Portugal?

Acho que socialmente temos dados passos muito importantes para o nosso país, que tem sido pioneiro em alguns casos do ponto de vista até de luta contra um determinado conservadorismo e de mentalidades mais retrógradas, e isso é muito importante. Orgulho-me disso, mas não quero ser o rosto disso. Penso que há um longo caminho a percorrer em relação a várias questões.

Agora expressa-se também como realizador. Fez a curta-metragem Olga Drummont. Quando vai ser possível ver este trabalho?

Já está feita. Está em fase de finalização. Agora vai seguir o seu caminho natural. Tratando-se de uma curta vamos tentar que vá a alguns festivais de cinema. A RTP foi nossa financiadora, tem os direitos televisivos e está garantida a sua exibição, provavelmente mais para o final de 2019. Estou muito orgulhoso do filme.

E para quando uma longa-metragem?

Entretanto já escrevi uma longa-metragem, com a qual me candidatei às primeiras obras. É curioso, com 51 anos concorrer às primeiras obras, mas porque não? É a primeira vez que me proponho realizar uma longa-metragem. Não faço ideia se terei subsídio, mas não deixei de ir à luta, mais uma vez, e de sonhar.

O que pode adiantar sobre o argumento?

Coescrevi com o argumentista João Matos e é baseado em factos reais. É algo que mais uma vez tem uma componente social muito forte, são coisas que acontecem na sociedade e que misturam, curiosamente, a sexualidade, a religião, e são coisas com as quais ainda nos estamos a debater na sociedade de contemporânea. São temas sobre os quais me interessa falar e, mais uma vez, intervir, de preferência com uma história sólida, estruturada e com personagens fortes.

Disse recentemente que quer fazer mais e quer fazer diferente.

Gosto de desafios, de sentir que estou a sair da minha zona de conforto. Estou numa altura da vida em que me sinto suficientemente confiante para arriscar mais do que já tinha arriscado até agora.

"Quando nós conhecemos o progenitor aos 34 anos não conhecemos propriamente um pai, conhecemos uma pessoa com quem temos laços de sangue e, depois, com quem decidimos ou não desenvolver uma relação. Foi o que fiz. Hoje o meu pai é um amigo."

Essa determinação e esse entusiasmo que imprime nas coisas em que se envolve vêm da educação que teve da sua mãe e da sua avó, que o criaram?

Talvez me tenha tornado assim tão determinado, há quem diga obsessivo, para lhes agradecer, para lhes devolver tudo aquilo que fizeram por mim. Elas nunca me impuseram nada, nunca insistiram para que eu fosse assim ou assado. Curiosamente, a liberdade que me deram foi muito mais responsabilizadora do que qualquer restrição. Portanto, eu tinha de ser o melhor que pudesse para validar o esforço delas. Desse ponto de vista, sim. Muito daquilo que faço, do sucesso que alcanço, das coisas que consigo, é para elas.

Tem também que ver com o facto de não ter tido uma figura paterna ao longo da sua vida?

Rigorosamente nada.

Mas foi muito tarde, aos 34 anos, que conheceu o seu pai.

Quando nós conhecemos o progenitor aos 34 anos não conhecemos propriamente um pai, conhecemos uma pessoa com quem temos laços de sangue e, depois, com quem decidimos ou não desenvolver uma relação. Foi o que fiz. Hoje o meu pai é um amigo, faz parte do meu círculo próximo de pessoas com quem me dou, mas durante 34 anos da minha vida ele não esteve lá. Portanto, ele não tem qualquer espécie de ascendente que um pai tem, como eu tenho sobre o meu filho, mas tem outro, da mesma forma que eu tenho sobre ele. Criámos uma amizade. E é muito agradável ter esta postura, esta experiência, porque é diferente, porque é nova. Agora eu acho que sou mais pai dele do que ele meu. Dou-lhe mais conselhos do que ele a mim, portanto somos cúmplices. Não há recriminações, não há mal-estares. Nunca houve esse tipo de desconforto. Eu quando muito só lhe pude agradecer o facto de não ter estado cá porque me permitiu ter mais da minha mãe, mais da minha avó.

Ainda anda a cavalo?

Ando a cavalo e compito, em saltos. É um dos meus hobbies. Ando a cavalo todas as semanas. Tenho um cavalo, o IpsoV. É um sela belga e é um cavalo fantástico, que me vai certamente ensinar ainda mais e levar para outros patamares porque eu não deixo de continuar a querer ir mais longe e às vezes caio.

"No ténis não ganhei nada, a não ser umas entorses e umas tendinites."

Participa em competições nacionais?

E internacionais. São provas de saltos e andamos um bocadinho pelo país todo. Já fui a Espanha algumas vezes, mas faço isto a nível amador, obviamente. Não sou profissional. É um escape, um hobby. Comecei regularmente a andar a cavalo aos 38 anos. Comprei o meu primeiro cavalo aos 40. Tive vários cavalos ao longo dos anos. É outro universo completamente diferente deste [teatro], que também me valida, preenche e que me deixa muito feliz.

Já ganhou competições?

Já ganhei alguns prémios, sim.

E no ténis, também já ganhou prémios?

No ténis menos. No ténis não ganhei nada, a não ser umas entorses e umas tendinites. Tenho aulas também, agora menos. Jogo todas as semanas, pelo menos uma ou duas vezes.

"Penso que tem de haver meio-termo na questão do turismo e, sobretudo, é preciso salvaguardar os interesses dos locais. As pessoas não podem ser penalizadas. Qualquer dia ninguém vive em Lisboa."

Terminamos como começámos. O que acha do aumento do turismo nas nossas cidades, sobretudo em Lisboa e no Porto?

Penso que tardou. Lembro-me de ir a Barcelona ou a Praga ou de ir aqui ou acolá e pensar: "Mas porque não temos isto?" Acho que não se pode confundir o típico com uma coisa decadente e degradada, que era o que acontecia muitas vezes. O que aconteceu com este boom turístico é que houve um refresh na própria urbanização. O Porto está lindo. Lembro-me de ir ao Porto há 15 anos e estava tudo degradado, as casas a cair. Foi a melhor maneira de reabilitar o edificado.

Mas há problemas, como a especulação imobiliária.

É preciso que haja bom senso, um compromisso, que as câmaras estejam atentas. Não estou a par das leis nem das restrições, mesmo as que saíram agora sobre o alojamento local. Penso que tem de haver meio-termo e, sobretudo, é preciso salvaguardar os interesses dos locais. As pessoas não podem ser penalizadas, quer dizer, qualquer dia ninguém vive em Lisboa. Há claramente aqui um mercado de especulação e, portanto, acho que tem de haver aqui um bom senso. Mas essa responsabilidade não é minha, enquanto cidadão é evidente que me canso ter de ir para o Chiado e deparar-me com o trânsito, a loucura, mas percebo a importância que isso tem para a economia local. Nunca vi esta cidade com tanta gente, já não é só no verão, é em qualquer momento. No Porto e em todo o lado. Agora isso naturalmente terá de ser monitorizado, balizado pelas autoridades competentes, pelo governo, pelas autarquias.