A bruxa intrujona

Entre as notícias de maior destaque na edição deste dia do ano 1900 contava-se das burlas levadas a cabo por Maria Joanna, que se fazia passar por bruxa e enganara dezenas de pessoas até ser presa.

"Uma mulher de virtude: o que é a crendice popular." Era sob este título que se relatava a história da "bruxa ou mulher de virtude" Maria Joanna, "moradora na Rua das Barracas", presa desde alguns dias antes no governo civil por burlas a "pessoas que ainda acreditam nestas intrujonas, procurando encontrar nas suas rezas e nigromancias o pronto alívio para os seus males ou o remédio infalível contra malquerenças".

Relatava o DN que não era caso único - antes os havia em quantidade e com vítimas de sobra, não sendo poupadas quando caíam nas mãos da polícia e que os tribunais não hesitavam em castigar severamente. O problema, porém, eram as pessoas, que continuavam demasiado crentes nas artes que estas mulheres professavam.

Identificando as vítimas com nome e morada e razão de consulta, além do valor em que tinham sido burladas, o jornal tentava dar uma lição a outras que pudessem ser levadas pela conversa das ditas "intrujonas", relatando os métodos e os argumentos utilizados em forma de aviso.

E rematava com algumas notas da acusação: "A bruxa já tem uma prisão por burla. Foi-lhe apreendido em casa um grande prego, algumas maçãs, bolos, etc. Quando conversámos com ela, perguntámos-lhe se era capaz de nos tirar também um mal de inveja, Ao que nos respondeu: Oh, meu senhor, dê cá 5 réis que se lhe arranja isso tudo."

A burlona, "uma mulher de 40 e tantos anos e pertencente a uma muito antiga e conhecida família de ciganos de Lisboa" e que também usava o nome de Delfina de Jesus, conforme se especificava no longo artigo, seria levada ao Tribunal da Boa Hora nesse mesmo dia.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.