A bruxa intrujona

Entre as notícias de maior destaque na edição deste dia do ano 1900 contava-se das burlas levadas a cabo por Maria Joanna, que se fazia passar por bruxa e enganara dezenas de pessoas até ser presa.

"Uma mulher de virtude: o que é a crendice popular." Era sob este título que se relatava a história da "bruxa ou mulher de virtude" Maria Joanna, "moradora na Rua das Barracas", presa desde alguns dias antes no governo civil por burlas a "pessoas que ainda acreditam nestas intrujonas, procurando encontrar nas suas rezas e nigromancias o pronto alívio para os seus males ou o remédio infalível contra malquerenças".

Relatava o DN que não era caso único - antes os havia em quantidade e com vítimas de sobra, não sendo poupadas quando caíam nas mãos da polícia e que os tribunais não hesitavam em castigar severamente. O problema, porém, eram as pessoas, que continuavam demasiado crentes nas artes que estas mulheres professavam.

Identificando as vítimas com nome e morada e razão de consulta, além do valor em que tinham sido burladas, o jornal tentava dar uma lição a outras que pudessem ser levadas pela conversa das ditas "intrujonas", relatando os métodos e os argumentos utilizados em forma de aviso.

E rematava com algumas notas da acusação: "A bruxa já tem uma prisão por burla. Foi-lhe apreendido em casa um grande prego, algumas maçãs, bolos, etc. Quando conversámos com ela, perguntámos-lhe se era capaz de nos tirar também um mal de inveja, Ao que nos respondeu: Oh, meu senhor, dê cá 5 réis que se lhe arranja isso tudo."

A burlona, "uma mulher de 40 e tantos anos e pertencente a uma muito antiga e conhecida família de ciganos de Lisboa" e que também usava o nome de Delfina de Jesus, conforme se especificava no longo artigo, seria levada ao Tribunal da Boa Hora nesse mesmo dia.

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