Da informação à realização de diagnósticos. Portugal apoia África no combate ao covid-19

O vírus está a fazer a sua viagem. De oriente para ocidente, de norte para sul, mas até agora parece estar a chegar lentamente a África. O grande receio da comunidade científica mundial é que já lá esteja instalado sem ser diagnosticado. E na luta contra o covid-19, ninguém pode ficar sozinho, senão não nos livramos "da ameaça de uma segunda vaga".

O secretário-geral das Nações Unidas lançou mais um alerta nesta semana. "É preciso uma cooperação global para aquela que poderá ser a pior crise desde que a organização foi fundada." António Guterres, em nome da "responsabilidade compartilhada e da solidariedade global", pediu aos países mais desenvolvidos que dessem especial atenção às necessidades do hemisfério sul e do continente africano. Portugal já o está a fazer através da cooperação existente entre autoridades de saúde, associações representativas de classes profissionais, instituições de ensino e de investigação científica com os cinco países que lhe estão mais próximos - Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.

A grande preocupação da comunidade científica é a de que o vírus já esteja instalado nestes países, mas que não esteja a ser diagnosticado. A falta de recursos para a realização de testes, tal como tem acontecido noutros países em desenvolvimento, ali pode tornar-se "uma situação humanitária dramática".

De acordo com a evolução da doença - identificada pela primeira vez na cidade de Wuhan, na China, no final de dezembro, e que se alastrou para o resto do mundo, tornando-se pandémica, com mais de 2,2 milhões de infetados e quase 150 mil mortes -, o vírus está a fazer uma viagem de oriente para ocidente e do hemisfério norte para o sul.

Até agora, os dados disponibilizados pelos cinco países africanos com quem Portugal está já a trabalhar, indicam a existência de 156 casos de infetados e seis mortes. Cabo Verde é o que tem mais situações diagnosticadas, 56, e uma morte, segue-se a Guiné-Bissau, com 43 infetados e sem mortes, Moçambique, com 34 e três mortes, Angola com 19 e duas mortes, e São Tomé e Príncipe apenas com quatro casos de infeção.

Isto pode querer dizer alguma coisa. "A doença parece estar a chegar lentamente, mas as preocupações que nos são passadas pelos nossos colegas, sobretudo das autoridades da saúde e farmacêuticas, têm que ver com as limitações sentidas na realização de diagnósticos e no próprio tratamento", explica ao DN Hélder Mota Filipe, presidente da Associação de Farmacêuticos de Países de Língua Portuguesa (AFPLP), cuja direção nos próximos dois anos pertence a Portugal.

"São sistemas mais frágeis e em que é mais difícil seguir os protocolos estabelecidos para contenção e tratamento da doença, como diagnóstico, quarentena, isolamento e tratamento adequado." E é nesta perspetiva que a AFPLP e o departamento de microbiologia e de imunologia da Faculdade de Farmácia de Lisboa, que faz parte da rede de laboratórios que neste momento está a fazer as análises para diagnóstico ao covid-19, estão a apoiar várias entidades destes cinco países na montagem das técnicas para a realização de testes. "Uma das nossas prioridades foi começar a ajudar estes países na montagem das técnicas que estamos a usar em Portugal e que aqui foram montadas pelas instituições académicas. São técnicas relativamente baratas, com alguma complexidade, mas que podem perfeitamente ser montadas nestes países. O importante agora é dar-lhes capacitação para realizarem testes, diagnósticos, para saberem onde estão os casos de infeção para os poderem controlar", argumenta o presidente da AFPLP.

E acrescenta: "A segunda prioridade é poder começar a ajudá-los, na medida das nossas capacidades também, na realização das análises laboratoriais. É nosso objetivo, ainda em parceria com a Faculdade de Farmácia, poder analisar as amostras que nos possam ser enviadas por esses países. Temos de aproveitar ao máximo o facto de doença estar a chegar mais tarde a estes países para os ajudarmos a preparem-se para a combaterem também".

Mas a experiência que o resto do mundo já tem ao observar a evolução da doença é que "nenhum dos países vai ficar pela dezena de casos. A pandemia estar a iniciar-se lá neste momento é o que justifica o número de casos que ainda têm", argumentou o ex-presidente do Infarmed e professor universitário, que afirma que as instituições portuguesas envolvidas neste apoio "estão em linha com o secretário-geral da ONU". E justifica: "Temos de ajudar estes países por duas razões, uma é o problema humanitário que a doença pode criar, outra é uma obrigação científica por quem está mais bem preparado tecnicamente."

Hélder Mota Filipe defende mesmo que Portugal tem ainda uma outra razão para apoiar estes países. "Se não os ajudarmos a quebrar a cadeia da pandemia, esta pode desenvolver-se e fortalecer-se de tal maneira que poderá contribuir para uma possível segunda vaga noutro momento." Por isso, reforça: "Temos a obrigação de ajudar por razões de solidariedade nacional e internacional, mas também pelas questões de saúde pública."

A esperança deste farmacêutico é que "a pandemia comece a aliviar no hemisfério norte e que possamos partilhar com estes cinco países o equipamento e material que não chegámos a utilizar". Todo o processo de ajuda que envolve esta a AFPLP, a Faculdade de Farmácia e também a Ordem dos Farmacêuticos está a ser dado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.

IGC e IMM em parceria no apoio a África

Do lado da investigação, o Instituto de Ciência da Gulbenkian (IGC) e o Instituto de Medicina Molecular (IMM) também estão a trabalhar em parceria para apoiarem os institutos de investigação em saúde de cada um destes países. De acordo com o que explicou ao DN Leonor Ruivo, coordenadora do Programa para a Ciência e Desenvolvimento do IGC, o apoio está a ser dado no âmbito dos projetos de cooperação já encetados com os Palop, quer através do IGC quer da própria Fundação Calouste Gulbenkian.

A cientista Leonor Ruivo explicou que o seu primeiro objetivo foi fazer um levantamento das necessidades que cada um destes países tinha para poder investigar a doença. "As necessidades são diferentes. Temos estado em contacto com vários institutos de investigação e faculdades, enquanto uns têm laboratórios já bem equipados, outros ainda não."

Neste momento, o que está a ser feito é "tentar simplificar os protocolos que já existem para a doença, que estão a ser utilizados por nós, e partilhar toda a informação produzida pela comunidade científica mundial e que pode não estar ao alcance de alguns destes países".

Por isso, no IGC há vários grupos de trabalho a funcionar no âmbito desta parceria para "simplificar os protocolos e assegurar que um protocolo simplificado é tão eficaz e seguro como um standard. Depois estamos a tentar explorar outra vertente que é a da formação técnica a quem for trabalhar com este protocolo. O ideal seria trazer as pessoas a Portugal para os formar e depois voltarem, mas com o encerramento de fronteiras é muito complicado", explica. Mas "urge que esta informação/formação seja passada a estes países".

Segundo Leonor Ruivo, outro apoio que está a ser dado, e que é muito importante, tem que ver com a tradução da informação científica de inglês para as línguas portuguesa e nacionais destes cinco países. "Há um grupo de cientistas destes países que estão em Portugal a fazer doutoramento no âmbito do Programa para a Ciência e Desenvolvimento que estão só a trabalhar neste sentido."

Leonor Ruivo sublinha que "como cientistas temos a responsabilidade de partilhar todo o conhecimento possível especialmente com quem não tem acesso à informação", não considerando que seja necessária esta ajuda no sentido de se evitar um segundo surto. "Estando as fronteiras fechadas não me parece que haja essa possibilidade."

"Acho muito difícil que a doença ainda não tenha chegado a África. Se são reportados 30 casos, devem existir muito mais. Acho é que não tendo estes países capacidade para testar não sabem que a doença já está instalada na comunidade."

Vanessa Luís, a coordenadora do Programa de Diagnóstico para o covid-19 no Instituto de Medicina Molecular (IMM) e que integra também esta parceria, concorda que, a haver um segundo surto, "será a nível interno, um problema de cada país". "Não lhe chamaria um segundo surto, porque ainda não sabemos qual é o efeito do surto que estamos a viver." Mas sublinha também ser necessário ajudar estes países no diagnóstico da doença para a poderem tratar. "Acho muito difícil que a doença ainda não tenha chegado a África. Se são reportados 30 casos, devem existir muito mais. Acho é que não tendo estes países capacidade para testar não sabem que a doença já está instalada na comunidade." Por isso, defende, é urgente apoiá-los nesta situação para que os números que vierem a registar não cheguem aos níveis da Europa ou da China.

A cientista explica que o papel do IMM está relacionado precisamente com "a otimização e simplificação do protocolo de forma a que possa ser igualmente sensível mas acessível a estes países. Ou seja, que não requeira tantos equipamentos e material para fazerem os testes de diagnóstico uma vez que não os têm".

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