"O mais poderoso que cada um de nós pode fazer é não ter medo"

Edward Snowden, ex-consultor da NSA exilado na Rússia, tem-se multiplicado em entrevistas nos últimos dias, a propósito do lançamento da sua autobiografia, Vigilância Massiva, Registo Permanente, nesta terça-feira.

A primeira vez que Edward Snowden pirateou alguma coisa tinha 6 anos. Foram os relógios de casa. Atrasava os ponteiros para que, assim, os pais o deixassem ver televisão até mais tarde. Nesse Natal, ganhou uma Nintendo, apaixonando-se por jogos como The Legend of Zelda ou Super Mario. "A Nintendo foi a minha educação", confessa o hacker, na sua autobiografia, Permanent Record, que é lançada nesta terça-feira em mais de 20 países, incluindo Portugal, onde tem o título Vigilância Massiva, Registo Permanente.

Edward Joseph Snowden nasceu a 21 de junho de 1983 na Carolina do Norte. Oriundo de uma família de militares e espiões, um dos seus avós era do FBI, o pai era oficial na Guarda Costeira, a mãe trabalhava para a National Security Agency. A NSA tem sede no Maryland - junto a Fort Meade - e foi para aí que ele e a família se mudaram quando ele tinha 8 anos. O pai trouxe então para casa um Compaq Presario 425. "Desde o momento em que apareceu, eu e o computador tornámo-nos inseparáveis", conta na obra, citada pela revista New Yorker.

O computador, confessa, dava-lhe aquilo que parecia não encontrar em mais lado nenhum. "Nenhum professor alguma vez teve tanta paciência, foi tão disponível, em nenhum outro lado me sentia tão no controlo", escreve, contando que foi nesse Compaq que entrou, pela primeira vez, na internet. "O acesso à internet, a emergência da web, foi o big bang da minha geração. Aos 12 anos eu tentava passar todo o tempo em que estava acordado online. A internet era o meu santuário, a web era o meu ginásio, a minha casa da árvore, a minha fortaleza, a minha sala de aula sem paredes", recorda Snowden, enquanto no mundo offline a realidade era de que o casamentos dos pais estava a ir pela água abaixo.

Enquanto adolescente, passava horas em sites de jogos, gostava de animes japoneses, era revoltado. "Crescer é dar-se conta do ponto a que a nossa existência é governada por um sistema de regras, linhas orientadoras vagas e normas insuportáveis que nos foram impostas sem o nosso consentimento", constata no livro, o norte-americano de 36 anos. Snowden desistiu do liceu e ainda frequentou uma faculdade comunitária antes de se alistar no Exército, em 2004.

O funcionário das secretas que se revoltou contra o sistema

Snowden, que como todos os norte-americanos sentira o chamamento para fazer algo depois dos atentados terroristas do 11 de Setembro, não durou muito no Exército. Sofreu uma fratura nas pernas e foi desmobilizado. Em seguida, tornou-se segurança privado e, mais tarde, conseguiu trabalhar para a CIA. Quando foi colocado em Genebra, em 2009, Snowden começou a procurar provas que o levassem ao programa de vigilância maciça que ele desconfiava que existia desde que teve acesso ao programa que os chineses usavam para controlar os seus cidadãos. "Quando eu olhava para o material da China parecia que estava a olhar ao espelho e a ver um reflexo da América", escreve o hacker.

Em 2012, como consultor ao serviço da NSA, mudou-se para Oahu, no Hawai, onde trabalhou em instalações do tempo da Guerra Fria, disfarçadas num campo de ananases. No ano seguinte, aceitou um emprego a ganhar menos na Booz Allen Hamilton, para dessa forma conseguir ter acesso a informação com maior grau de confidencialidade. "Estava decidido a trazer à luz do dia um facto muito simples: o meu governo desenvolveu e pôs em marcha um sistema global de vigilância maciça sem o conhecimento prévio ou autorização dos seus cidadãos."

O que se passou a seguir é do conhecimento geral. No verão de 2013, num hotel de Hong Kong, Snowden passou milhares de documentos classificados aos jornalistas Glenn Greenwald e Ewen MacAskill do Guardian, Barton Gellman do Washington Post e à realizadora Laura Poitras, que realizou o documentário Citizenfour (Greenwald esteve agora recentemente envolvido na divulgação de mensagens privadas do ministro Sergio Moro sobre a Operação Lava-Jata no Brasil). A NSA diz que ele roubou 1,7 milhões de documentos. Ele diz que esse número é discutível. Gerou um mal-estar diplomático, ao saber-se que entre os cidadãos que tinham tido as suas comunicações vigiadas pela NSA estavam até líderes mundiais, como a chanceler alemã Angela Merkel por exemplo.

No livro, refere a revista Wired, o especialista informático conta que copiou os dados da NSA em mini e microcartões SD. Alguns cartões poderiam levar até um dia a copiar com informação encriptada. Os cartões, esses, guardava-os em cubos de Rubik, nas meias e, "na fase mais paranoica, [na parte de dentro do] queixo, para que pudesse engoli-lo se fosse necessário". A revista especializada em tecnologia recorda a cena do filme Snowden, de Oliver Stone, em que Joseph Gordon-Levitt, que faz o papel do hacker, usa um cubo de Rubik para retirar do edifício da NSA os documentos copiados. A cena foi sugerida pelo próprio Snowden, por ter efetivamente acontecido assim, refere a Wire. Em cima da sua secretária de trabalho, hoje em dia, conta Jill Lepore da New Yorker, Snowden tem uma versão de bolso da Constituição dos EUA e, precisamente, um cubo de Rubik.

Antes das revelações feitas por Snowden com a ajuda dos jornalistas (ele explica que preferiu os jornalistas à WikiLeaks de Julian Assange), o chefe do departamento tecnológico da CIA, Ira 'Gus' Hunt, deu um discurso, em maio de 2013, numa conferência sobre tecnologia em Nova Iorque - à qual se podia ter acesso por 40 dólares (36 euros) - na qual falou sobre os programas da CIA para recolher todo o tipo de informação e mantê-la para sempre. Snowden nota que a palestra de Hunt mal teve cobertura por parte dos media na altura e um vídeo, em que ele diz aos presentes que é possível localizar os seus smartphones e todas as comunicações que eles captaram mesmo quando estão desligados, foi visto umas poucas vezes no YouTube. O vídeo, em que Hunt afirma "lembrem-se de que o que é móvel não é seguro" ainda hoje continua com apenas 22,7 mil visualizações.

Depois de Snowden ter feito as revelações explosivas, o então presidente dos EUA Barack Obama classificou-o como traidor, acusou-o à luz do Espionage Act e cancelou-lhe o passaporte. E foi isso que o deixou retido na Rússia. Até hoje. "Se não tivesse sido eu, teria sido outra pessoa qualquer. O momento Edward Snowden era inevitável, porque só é possível jogar o jogo da consciência até que alguém se oponha", declarou o hacker, em entrevista a Andy Greenberg da revista Wired, publicada nesta segunda-feira.

O exílio e o casamento em Moscovo

O livro autobiográfico de Snowden centra-se muito na infância e na adolescência do especialista informático e não tanto na forma como fez para extrair milhões de documentos classificados que provavam que os EUA vigiavam toda a sua população e mais de três dezenas de líderes mundiais. Ou sobre os últimos seis anos da sua vida, os quais foram passados no exílio, em Moscovo, na Rússia, onde vive, incógnito, num T2.

A única coisa que revela é que, há dois anos, casou na Rússia com a sua namorada de longa data, Lindsay Mills. Conheceram-se em 2004, pouco depois de ele ter entrado na reserva do Exército norte-americano, no HotOrNot, um site de encontros amorosos fundado no início deste milénio e uma espécie de antepassado do Tinder e afins. Ela trabalhava como fotógrafa e pole dancer. Ele deu-lhe classificação 10. A nota máxima possível nesse site. Ela deu-lhe oito. Em 2013, quando ele decidiu partir para Hong Kong para entregar os documentos classificados da National Security Agency a um grupo de jornalistas estrangeiros, Mills não sabia de nada.

No livro de Snowden foram incluídas partes do diário da namorada, dessa altura, que mostram como ela ficou irritada com o seu súbito desaparecimento ou até com a possibilidade de ele estar a ter um caso amoroso com outra pessoa. Quando o FBI apareceu na casa dela, à procura do namorado, ela teve de enfrentar o olhar suspeito do polícia: "Ele estava a olhar para mim como se eu tivesse morto o Ed e andava ali, às voltas, pela casa, à procura do seu cadáver." Muito mais tarde, quando ela apareceu em Moscovo, à sua porta, Snowden pensou que ia levar um estalo na cara. Em vez disso, contou ele ao Guardian, ela disse-lhe que o amava e que o apoiava na sua decisão de ser um whistle-blower (delator).

Na Rússia, onde tem autorização para ficar apenas até ao início de 2020, Snowden vive de palestras que dá através de videoconferências para estudantes e organizações em todo o mundo. Em maio de 2017, foi dessa maneira que interveio nas Conferências do Estoril, em Portugal. Costuma passar muito tempo em casa e estar no computador até altas horas da madrugada. Na noite antes de se ter encontrado com o jornalista Ewen MacAskill do Guardian tinha estado acordado até às seis da manhã. Costuma dormir até tarde. É esse o seu padrão de sono.

O frio de Moscovo, esse, considera-o uma bênção. Pelo menos para os seus disfarces. Sempre que sai à rua, conta, muda o seu aspecto, usando, por exemplo, óculos diferentes. Usa um chapéu e um lenço e altera sempre a cadência e o ritmo do andar. Isto, refere, porque é possível identificar uma pessoa apenas com base no seu padrão de movimentos. No livro, Snowden admite que toma cuidados, mas que, "de qualquer forma, toda a gente está também tão absorvida pelos seus telemóveis que ninguém olha [para ele] uma segunda vez".

O que esperar em relação ao futuro


Numa entrevista que deu nesta segunda-feira à rádio France Inter, Snowden admitiu voltar a solicitar asilo a França, tendo dirigido um pedido nesse sentido ao presidente Emmanuel Macron. No passado, Snowden fizera o mesmo pedido a François Hollande, mas não teve grande sucesso. O Eliseu ainda não comentou, até ao momento, as declarações de Snowden.

Noutra entrevista ao Die Welt, publicada pelo jornal espanhol El País, o hacker, questionado sobre um cenário em que a Alemanha lhe concede asilo e sobre a possibilidade de ser extraditado para os EUA através da base aérea de Ramstein, respondeu: "São coisas que não posso controlar. Só posso afirmar que não revelei o sistema de vigilância maciça mundial da NSA para depois ir para um lugar seguro e negociar com quem quer que seja. O que fiz é muito perigoso. Durante muito tempo aceitei os riscos que isso significava. Não tenho medo de correr perigo para fazer algo em que acredito. Se um governo europeu como, por exemplo, o alemão, me permitir entrar em seu território, estarei preparado para fazê-lo."

"Agora sei que nunca mais voltarei a ter controlo sobre o que acontece comigo."

Sobre o que poderá acontecer na sua vida no próximo ano quando acabar o visto russo comentou: "Agora sei que nunca mais voltarei a ter controlo sobre o que acontece comigo. Talvez eu seja atropelado por um autocarro ou um prédio caia em cima de mim; ou possa ser devolvido aos Estados Unidos. Pode ser que agentes da CIA me matem a tiros aqui enquanto ando pela rua, e que um país europeu me aceite e possa viver uma vida feliz até que, em algum momento, os Estado Unidos exijam a minha presença. Conheço bem o jogo: sempre que estávamos prestes a receber asilo político de um país, o telefone tocava. Eram, à época, o secretário de Estado John Kerry e o vice-presidente Joe Biden para dizer ao ministro dos Negócios Estrangeiros do país em questão que entendiam que tinha o direito de agir segundo a legalidade e eu o de solicitar asilo em virtude da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Entendiam, mas não importava, porque era um assunto de importância política aos Estados Unidos, e que se me recebessem isso teria consequências. Algo assim aconteceu com o Equador."

Este era o país latino-americano que Snowden tinha como objetivo final quando foi para Hong Kong. Daí, iria para a Rússia e posteriormente conseguiria, através de Cuba, chegar a território equatoriano. "O presidente do Equador contou que recebeu uma ligação de Biden e o governo norte-americano ameaçou cancelar os acordos comerciais entre os dois países, o que significaria perdas de milhões de dólares aos agricultores. Veja que isso não ocorreu com [Donald] Trump na presidência, e sim com o governo de Obama. O Equador decidiu não me dar asilo. Ironicamente, fico feliz por isso, porque se tivesse ido para lá provavelmente estaria morto ou na cadeia, como acabou por acontecer com Julian Assange [cofundador da WikiLeaks]."

Os avisos em relação aos perigos que estão para vir

Negando ser um espião russo, algo de que muitos o acusam, na entrevista publicada no El País Snowden alerta para um ponto de não retorno em relação aos dados que as grandes empresas tecnológicas detêm de todas as pessoas. "A vigilância tem que ver com o poder, com o controlo. Se não acabarmos com esse uso incorreto do poder feito pelos governos, não só perderemos a nossa influência sobre eles mas também a nossa sociedade e a nossa democracia. Não são decisões que podemos tomar. Ninguém nos perguntou, não demos o nosso consentimento para que os nossos dados sejam transmitidos aos serviços secretos. Mas se penso onde estávamos em 2013 e onde estamos agora, também vejo que algumas coisas mudaram. O Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) da União Europeia não é mais do que um exemplo de uma sensibilização cada vez maior em relação a esse tema."

"Muita gente pergunta se não é tarde de mais. A resposta é que nunca é. Pensemos no que conseguimos com o tabaco, e é um vício físico."

Confrontado com o facto de, apesar de tudo, as pessoas estarem sempre ávidas para consumir as novidades tecnológicas, Snowden constata que talvez as pessoas não estejam a conseguir passar da indignação à ação. "É verdade que muitos jovens não percebem que empresas como a Google, a Amazon e o Facebook recebem algo quando eles consomem pela internet, e não se importam que isso ocorra, e esse algo são os seus dados. Sobre se eu tenho a sensação de que a janela de tempo para debater como queremos viver no futuro e qual será a nossa atitude em relação a essas tecnologias está pouco a pouco a fechar-se, sim, tenho. Não porque as pessoas continuem a comportar-se da mesma maneira. Hoje em dia as pessoas são mais conscientes do que nunca da vigilância, e estão mais indignadas do que nunca por isso, mas também se sentem impotentes diante dessa transformação." Não obstante, pensa que nunca é tarde. "Muita gente pergunta se não é tarde de mais. A resposta é que nunca é. Pensemos no que conseguimos com o tabaco, e é um vício físico."

Sobre a aplicação Signal, através da qual combinou a entrevista publicada no El País, também ser permeável, diz: "Sim, podem rastrear as comunicações. [Não estou preocupado com isso porque] em 2013 aprendi uma coisa: o mais poderoso que cada um de nós pode fazer é não ter medo. Essa teria sido a resposta correta ao 11 de Setembro [de 2001] que o meu país não aproveitou, o que arruinou as duas décadas seguintes de nossa história. Naquele momento tínhamos a simpatia do mundo, a oportunidade de reorganizar completamente o mundo internacional. Teríamos conseguido mudar o sistema judicial e criar estruturas multilaterais para lutar contra o terrorismo como o crime que é em vez de aumentar o número de terroristas com nossa reação."

Como sublinha a Wired, a propósito da publicação do seu livro, Snowden afirma que o maior perigo ainda está por vir e reside no refinamento da inteligência artificial. Preocupa-o, em particular, os sistemas da Google de reconhecimento facial através das tecnologias. Câmaras de videovigilância podem, no futuro, ser simplesmente transformadas em "polícias automáticos", refere. "É difícil de imaginar a inteligência artificial a identificar uma pessoa a violar a lei e não punir. Nenhum algoritmo policial será alguma vez programado, se é que vai chegar a ser, no sentido da leniência e do perdão."

"Fotos de nus intercetadas eram uma espécie de moeda de troca informal no escritório."

Sobre as clouds, as nuvens, o especialista informático e ex-consultor da NSA alerta que, apesar de serem bastante convenientes para o utilizador que quer aceder aos seus materiais a partir de qualquer parte do mundo, elas escondem grandes perigos. Pense-se na Google Drive, no Dropbox, no OneDrive da Microsoft, diz a Wire, a título de exemplo. "Quando escolhemos armazenar os nossos dados online, estamos a ceder o direito de reclamar", alerta Snowden, contando que os agentes da NSA intercetavam fotos de pessoas nuas. "Fotos de nus intercetadas eram uma espécie de moeda de troca informal no escritório", escreve, no livro.

Na entrevista à Wire, publicada nesta segunda-feira, Snowden deixa um lamento, pelos jovens de hoje em dia: "É isto que está ser negado à geração em ascensão. Eles estão tão implacavelmente identificados em todas as redes com as quais interagem e com as quais vivem. São-lhes negadas as oportunidades que nós tivemos de ser esquecidos e de ver os nossos erros esquecidos."

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