A falta que um McCain faz

Uma das imagens mais repetidas quando John McCain morreu foi aquela em que, num comício, uma apoiante sua diz que tem medo do candidato Obama porque ele é árabe e McCain abana a cabeça, tira-lhe o microfone da mão e afirma, perante uma plateia que queria ouvir tudo menos isso, que não, que Obama não é árabe, que é "um homem decente (...) de quem discordo em muitas coisas". Antes disso, a outro apoiante que tinha dito que tinha medo de um presidente Obama, o então candidato republicano já tinha explicado o mesmo. O momento é importante porque diz tanto de McCain como do que nos habituámos a aceitar em política. E das virtudes que fazem falta. Decência é uma delas, mas a coragem de fazer o que se deve e perder, se for preciso, também. Mas dando a cara.

Ao contrário de McCain, e poucos dias depois da sua morte, um alto responsável da Casa Branca escreveu um editorial não assinado, no The New York Times, em que diz que entre a equipa de Trump, e nas costas do presidente (que os nomeou, presume-se), há gente a sabotar a presidência porque o homem é instável, irresponsável e se não for assim será o desastre.

É provável (notório, até) que Trump seja todas essas coisas. Mas foi eleito, ao contrário do autor do artigo e dos seus parceiros. E em democracia, é em público que se faz o combate, e nas eleições que se se ganha ou perde. Quem não vai a jogo não merece consideração, quanto mais elogios (pior, só mesmo ter ousado invocar o velho senador no artigo).

McCain foi descoberto há pouco tempo por muita gente que só gostou dele agora, quando foi um republicano que desabridamente respondeu a Trump, se opôs a Trump e o excluiu do seu funeral. Mas já podiam ter encontrado estas e outras qualidades no senador do Arizona quando ele concorreu contra Bush, nas primárias republicanas de 2000, e contra Obama, nas presidenciais de 2008. Só para falar de dois momentos que foram bem visíveis internacionalmente.

A coragem, não só física - essa foi brutalmente comprovada -, de McCain fê-lo ganhar e perder, ser tão admirado por muitos democratas como detestado por tantos republicanos da ala mais radical (e cada vez maior) do seu partido, fê-lo ser considerado um maverick (dissidente, marginal, inconformado, rebelde) mas fez, sobretudo, que fosse reconhecido como um homem de convicções, não de fações, e tanto capaz de compromissos possíveis como de uma enorme e radical frontalidade. Que é o que distingue um político sério de um populista excitado.

A direita americana, e alguma europeia, precisa de ler mais sobre McCain, de reaprender o valor da decência, de ir contra a corrente se for necessário, de dizer a verdade. Não se trata de ignorar o que os eleitores pensam, sentem e temem. É exatamente o contrário. É reconhecer o que os move e falar-lhes do que lhes preocupa. Sem dizer o mesmo que os radicais dizem. E sendo capaz de fazer pontes, quando é preciso. A esquerda, já agora, também. Sanders ou Corbyn não são uma resposta, são uma réplica.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG