Há cada vez mais portugueses com tatuagens. As razões de quem marca o corpo

Nos últimos anos tem-se assistido à democratização das tatuagens. Independentemente de género, idade ou estatuto social, há cada vez mais portugueses a marcarem o corpo para sempre. Por questões de personalidade, liberdade, moda ou mesmo da influência das redes sociais. Saiba porque o fazem, como o fazem e como o devem fazer.

Quem viu uma recente entrevista que a assistente social Marta Moncacha deu no programa das manhãs da TVI não ficou certamente com a ideia de que por baixo das suas roupas perfeitamente normais estão dez tatuagens. Marta, de 46 anos, casada e mãe de quatro - três rapazes e uma rapariga -, é escritora e coach de divórcios em paralelo com a sua profissão do dia-a-dia na Câmara Municipal de Oeiras. A primeira tatuagem foi feita há oito anos, a última há um ano e a próxima já está agendada.

Este é um exemplo entre muitos portugueses que têm tatuagens no corpo. E há cada vez mais. Bastou uma breve observação pelas praias de norte a sul no verão que terminou para mesmo os menos atentos perceberem que há cada vez mais gente com uma ou mesmo várias tatuagens no corpo, independentemente de idade, profissão ou estatuto social.

Sinais dos tempos? Moda? Influência da mimetização potenciada pelas redes sociais ou uma nova atitude perante algo que o ser humano faz há séculos e que tem sido sucessivamente marginalizado ou mesmo proibido?

A ideia de que as tatuagens são usadas apenas por artistas, marginais ou ainda por ex-combatentes na guerra do Ultramar com o "Amor de mãe" toscamente desenhado na pele mudou definitivamente. Hoje são mesmo mães e pais de família, professores, médicos, advogados e tantos outros a tatuarem o corpo. Tornou-se transversal à sociedade, ou quase.

Apesar da mudança, da adesão e da democratização, a maioria das tatuagens é eternizada em locais do corpo escondidos dos olhares mais conservadores e que apenas com o tempo mais quente e menos roupa, na praia ou na intimidade, são revelados.

Marta Moncacha concorda que ainda há estigmas associados às tatuagens e a quem se tatua mas que começam a desaparecer. "Há uns anos, seria impensável trabalhar na minha área, no atendimento ao público, com tatuagens. Hoje vemos pessoas tatuadas a trabalhar em diferentes profissões sem que isso tenha necessariamente uma conotação negativa. Aliás, a quebra gradual do preconceito pode ser uma das razões por que vemos mais pessoas tatuadas."

Leonardo Fernandes, de 23 anos, concorda: "A sociedade ainda reage muito mal às tatuagens e levamos logo com rótulos, mas cada vez mais estamos a evoluir." Apesar da sua idade, lembra-se de quando não se aceitavam pessoas com tatuagens na maioria dos empregos. "Agora já não é assim", sublinha. Leonardo, que trabalha numa loja de roupa de Lisboa no atendimento ao público, fez a sua primeira tatuagem aos 18 anos e entretanto já lhe juntou mais 15, e promete não ficar por aqui.

Quem não pretende fazer mais nenhuma é Sílvia Marques, 32 anos, de Vila Nova de Gaia. Tem 13 no total, a primeira feita aos 18 anos. Assistente executiva numa empresa, conta que já passou por uma situação mais delicada a nível profissional por causa dos desenhos que tem em várias partes do corpo. Foi chamada à atenção pelo seu diretor por um dia ter reunido com um cliente e ter ido com algumas das tatuagens à mostra. "A reunião foi num dia de bastante calor, no Algarve, e não me livrei de levar um aviso para ter mais cuidado numa próxima ocasião."

Hugo Makarov, um dos tatuadores mais conhecidos do país, que já tatuou o escritor José Luís Peixoto e o chef Ljubomir Stanisic, de quem é amigo, diz que a sociedade portuguesa tem de crescer a tantos níveis que "a tatuagem é só uma parte". Conta, pela sua experiência, que quem mais sofre por ter tatuagens é quem trabalha em empregos mais convencionais e tem de lidar com pessoas mais velhas e menos liberais. "Para quem anda de fato e gravata é indiferente. Tenho amigos que trabalham em bancos e estão todos tatuados. As mulheres é que sofrem um pouco mais, mas por outro lado acho que já há mais aceitação."

A psicóloga Rute Agulhas reforça a ideia do preconceito ainda existente. "Do ponto de vista social ainda são malvistas em alguns contextos e não é por acaso que muitas pessoas escolhem tatuar partes do corpo que podem tapar facilmente, optando assim por mostrar, ou não, a sua tatuagem."

Não é o caso de Sílvia Marques. Diz que escolheu os locais do corpo com tatuagens por questões meramente estéticas, "as tatuagens que faço são para mim, não as faço com o intuito de as mostrar".

Mas será uma questão geracional e mais fácil de assumir nos mais novos? Leonardo Fernandes acredita que sim. "A minha geração encara as tatuagens como uma forma de arte para mostrar ao mundo, quase como se estivéssemos vestidos com a nossa própria personalidade." E reforça: "E sim, há cada vez mais gente da minha idade tatuada e ainda bem."

As razões que levam a tatuar

Do ponto de vista histórico existem várias teorias sobre a origem das tatuagens. Há quem indique que foi no Antigo Egito que surgiram, entre 4000 e 2000 a.C., e quem defenda que foram os nativos da Polinésia, da Indonésia e da Nova Zelândia que se tatuavam em rituais religiosos. Já no tempo dos gregos e romanos eram usadas para marcar escravos e prisioneiros.

Voltando ao presente, a tatuagem está a democratizar-se cada vez mais, é vista como um multiplicador da personalidade de quem as tem. Contudo ainda há casos que dão que falar. Recentemente em França, Sylvain Helaine, um professor primário em Paris que tem o corpo coberto de tatuagens - rosto inclusive -, foi impedido de continuar a ser educador num jardim-de-infância francês depois de um pai se ter queixado de que Helaine assustou o seu filho. A história gerou discussão em França."Todos os meus alunos e os seus pais sempre foram simpáticos comigo porque basicamente conhecem-me", disse Helaine, que estimou ter passado cerca de 460 horas sob a agulha dos tatuadores. "Só quando as pessoas me veem de longe é que podem presumir o pior", disse aos meios de comunicação franceses. Talvez este seja um caso singular de alguém que levou a tatuagem ao extremo.

Segundo Rute Agulhas, através da tatuagem a pessoa manifesta-se de alguma forma. "Pode transmitir ideias ou valores, pode ser a celebração de algo ou uma homenagem a alguém. Muitas vezes surgem ainda associadas a momentos específicos e muito marcantes da vida, como o nascimento de um filho, um grande amor, o que não é muito aconselhável, ou a viagem de uma vida. A superação de uma doença ou o facto de se ter alcançado algo muito desejado. Noutros contextos podem também surgir como forma de potenciar sentimentos de pertença - por exemplo, a uma religião ou a um grupo." Explica ainda que confere uma especificidade a alguém ao mesmo tempo que permite uma elevada subjetividade. "Mesmo quando observamos tatuagens semelhantes em pessoas diferentes, seguramente que para cada pessoa essa tatuagem tem uma representação e um significado que é único."

Marta Moncacha fez as suas tatuagens porque se identifica com a estética e também porque gosta do que "cada uma significa". Já Sílvia Marques diz que são "marcos da vida e para a vida e todas têm um significado". Admite, contudo, conhecer pessoas que fizeram só porque lhes apeteceu.

Hugo Makarov reforça essa mesma ideia: "A tatuagem tornou-se altamente democratizada. Antes não existiam jogadores de futebol, atores ou chefs tatuados. Eram os bandidos e os marinheiros que as tinham. Hoje as pessoas têm um braço inteiro tatuado apenas porque gostam e porque tem que ver com elas." "É quase um fashion statement, o que não acho mal. Mas já se faz uma tatuagem sem pensar muito, só porque se viu no Instagram...tornou-se ligeiro, e acho que neste aspeto se devia dar um passo atrás", comenta.

A também tatuadora e artista Sofia Dinis diz que lhe chegam clientes com várias razões para tatuar. "Fazer uma tatuagem é contar uma história. Tenho pessoas que chegam ao meu estúdio porque querem eternizar o avô e não sabem como. Transformo em linhas o que as pessoas não conseguem expressar por palavras." Sofia é uma das tatuadoras com mais seguidores nas redes sociais. Na sua conta de Instagram, com mais de 97 mil seguidores, partilha não só o seu trabalho mas também o seu estilo de vida - e acredita que isso a aproxima mais das pessoas que se identificam com ela e com o seu trabalho. Começou a tatuar há dois anos e o sucesso foi quase imediato.

O seu estúdio, perto de Sintra, é um espaço que pouco ou nada tem que ver com a ideia clássica de um estúdio de tatuagens - com música bem alta e caveiras por todo o lado e tatuadores com cara de mau.

No bem decorado ateliê de Sofia abundam plantas, música calma e três cães que a seguem para quase todo o lado. O sucesso de Sofia pode medir-se pelas suas marcações: tem a agenda cheia até fevereiro. E a sua metodologia é diferente também do que é mais "normal" no mundo das tatuagens. Uma sessão com a tatuadora leva cerca de duas horas, entre conversa e partilha, desse tempo a tatuagem em si demora entre 15 e 20 minutos.

A ligação ao mundo das tatuagens foi surgindo aos poucos, conta. "Decidi ser tatuadora quando ainda tinha o meu espaço de estética. Ali fazia de tudo um pouco, incluindo design e fotografia. Quando decidi dedicar-me apenas à tatuagem optei por uma estratégia diferenciadora adequada ao meu público-alvo."

Já perdeu a conta ao número de tatuagens que tem no corpo. A primeira fê-la com 26 anos. "Como tinha o corpo com psoríase não podia tatuar-me, e as tatuagens surgem na minha vida para disfarçar o impacto visual de olharem para as minhas feridas. Com as tatuagens passaram a olhar para a arte que tenho na pele."

Sofia é um exemplo entre muitos, há quem use tatuagens para disfarçar cicatrizes de acidentes ou de doenças como mastectomias, entre outras. Como Sérgio Carvalho, tatuador de Matosinhos que há um par de anos contou ao DN o seu projeto de tatuagem mamária reconstrutiva, através na pigmentação da aréola mamária.

Velhos, mas orgulhosos das suas tatuagens

Uma das frases mais ouvidas por quem anuncia a amigos e familiares que vai fazer uma tatuagem é se tem a certeza absoluta de que é essa a sua vontade - para evitar futuros arrependimentos. A tecnologia avançou e hoje é possível remover tatuagens que outrora eram mesmo para sempre. Mas o custo elevado das várias sessões e a dor no processo de remoção leva muitos a não o fazer. Mesmo assim, Hugo Makarov diz que é discutível o conceito de certeza absoluta em querer ter uma tatuagem. "Até se ver a tatuagem na pele há sempre dúvidas. Só quando se vê o desenho na pele antes de o tatuador começar a trabalhar é que se entende aquilo que se quer, e é natural que exista um frio na barriga. Aliás, tenho muitas tatuagens, tatuo há mais de 20 anos, e sempre que me tatuam fico nervoso."

Em Portugal só é permitido fazer tatuagens a maiores de 18 anos, por isso Leonardo só fez a primeira quando atingiu a maioridade. Mesmo assim, confessa que as primeiras foram feitas às escondidas dos pais. "Não era algo de que eles gostassem muito, mas hoje até gostam."

E quanto ao envelhecimento do corpo? Esta é outra das questões que se colocam: como será um corpo mais velho cheio de tatuagens? - algo que ainda não abunda nas praias portuguesas.

"Essa pergunta é feita sobretudo por quem não as tem", afirma Sofia Dinis: "A pessoa mais velha que tatuei tinha 72 anos. E já tatuei muitas pessoas na casa dos 60 ou 50 anos. Enfermeiras, médicas, professoras, bancárias, farmacêuticas, etc., não são as pessoas habituais de profissões liberais ou artísticas." E sublinha: "A realidade é que o ser humano quer aquilo que vê, quantas mais pessoas virem tatuadas, mais pessoas vão querer tatuar-se."

Marta Moncacha imagina-se sem grandes problemas a envelhecer com as suas tatuagens. "Vão lembrar-me de tudo o que vivi e tudo o que elas significaram em cada momento. Imagino-me a ostentá-las com muito orgulho, como as rugas, aliás!". Sílvia Marques corrobora esta ideia e até costuma dizer aos amigos que aos 70 anos será uma velha com tatuagens enrugadas e de cabelos ao vento a passear num descapotável. "Não me preocupam as rugas, muito menos as tatuagens. Aliás, acho giríssimo ver pessoas de idade avançada com tatuagens."

Para Hugo Makarov daqui a uns anos as pessoas tatuadas da geração dele - na casa dos 30 - vão estar mais preocupadas com a vida e as coisas dessa altura como levar os netos à escola. "As tatuagens farão parte da nossa vida", diz a sorrir.

O criador da Popota

Hugo Makarov tem o seu estúdio de tatuagens num rés-do-chão perto da Avenida do Brasil, em Lisboa. Paredes brancas cobertas de ilustrações e desenhos, entre eles algumas caveiras, claro. Simpático, afável e de sorriso fácil a contrastar com a corpulência e os braços tatuados com os ossos do seu ofício. O seu percurso como tatuador tem sido feito em paralelo com o de ilustrador. Aliás, Makarov é também conhecido por ser o criador da Popota - desenho animado de uma marca de supermercados que todos os anos anima os anúncios da época natalícia. Apesar disso, e até hoje, nunca ninguém lhe pediu para tatuar a Popota, confirma a rir.

Em contraste com Sofia Dinis o seu percurso foi o "clássico". Trabalhou numa loja de tatuagens gigante e com boa reputação e depois seguiu o seu rumo. "Quando comecei a tatuar diziam-me que não tinha ar de mau ou de bandido. Mas não quis ir nessa onda dos tatuadores feios, porcos e maus", diz com o seu sorriso fácil.

Outra das questões que muitos colocam é a dor que se sente a tatuar. Hugo brinca e diz não lhe dói nada quando tatua, mas quando é tatuado dói. "Trabalho de forma muito rápida e assim sofrem durante menos tempo. Mas tudo depende das zonas do corpo e da pessoa. Há quem passe bem a fazer umas tatuagens e depois passe mal a fazer outras."

Sofia Dinis sublinha a ideia do colega de profissão: "É uma das coisas que assustam mais quem faz uma tatuagem pela primeira vez." Explica que a dor tem vários fatores e depende muito da tolerância da pessoa e da zona onde vai ser tatuada. Mas também influencia a mão e a técnica do tatuador. "Nunca tatuo primeiras vezes nas costelas, porque não sei como a pessoa vai reagir."

Sílvia Marques, que já passou 13 vezes pelo processo, desdramatiza: "Sou muito tolerante à dor, posso dizer que a que doeu mais foi a primeira, que foi um desenho superpequeno. A que pensava que ia doer mais foi superfácil de fazer, num pé. Honestamente, cada pessoa é diferente, mas quando queres muito fazer uma coisa, a dor passa-te ao lado."

E quando for a vez dos filhos?

Se algum dia tiver filhos com vontade de também terem tatuagens, Leonardo já tem ideia do que irá dizer-lhes: "Não vou fazer qualquer tipo de pressão nem a favor nem contra as tatuagens, vou dar a liberdade para tomarem a decisão que quiserem sobre as tatuagens."

Marta Moncacha, mãe de quatro, também já pensou na situação. "Digo-lhes que é uma decisão para a vida que deve ser tomada quando forem mais velhos e quando estiverem certos dela. Acredito que as tatuagens devem ser feitas quando estamos seguros do nosso estilo pessoal e menos numa fase de construção de identidade. Nesse caso, pode haver mais arrependimentos."

Já Sílvia, que tem uma filha com 8 anos, diz que a pequena adora as tatuagens da mãe, e já lhe fez a tal pergunta sobre as tatuagens de uma forma que a deixou descansada: "Perguntou-me se, quando tiver 18 anos, pode fazer uma tattoo. Se assim for e o desenho for pequeno, estamos bem com isso", remata.

Confirma-se, no que diz respeito às tatuagens, que o tal amor de mãe está à flor da pele.

Dicas para quem vai fazer uma tatuagem:

Acima de tudo uma boa relação com o tatuador. Conhecer o tatuador e ter boas referências é muito importante, dizem Hugo Makarov e Sofia Dinis.

>Verificar sempre se o estúdio/tatuador segue as normas mínimas de higiene e segurança: luvas, máscaras, etc. Ainda mais agora com a questão da pandemia de covid-19.

Perceber bem o que quer tatuar e porquê. E se é por estética ou porque está na moda.

De que estilo de tatuagem gosta, e começar a fazer uma triagem de estilos.

Procurar o trabalho do artista e acima de tudo identificar-se com o trabalho do tatuador.

Exemplo: se o tatuador só faz trabalho a preto não vale a pena pedir-lhe uma tatuagem com cor.

Ter atenção ao fazer uma tatuagem mais comercial e que esteja agarrada a uma moda temporária, porque a moda é cíclica.

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