Covid-19 altera função respiratória. Faltam meios para fazer exames de prevenção

Dois anos depois da pandemia, já é possível concluir que 30 a 50% dos doentes que estiveram internados ficaram com problemas respiratórios. Fundação Portuguesa do Pulmão defende exame para o qual praticamente não há recursos.

Paula Sofia Luz
Há um número elevado de doentes que estiveram internados que apresentam problemas respiratórios.© Artur Machado/Global Imagens

"Estima-se que 30 a 50% da população que esteve internada com covid-19 tem a função respiratória alterada". Este alerta é do presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão, que usa estes dados para defender que a maioria da população deveria fazer uma espirometria -um exame que avalia a função respiratória. José Alves, pneumologista e professor universitário, diz ao DN que a "necessidade de todos fazerem uma espirometria é cada vez maior", embora esteja consciente que aí "entramos noutro problema, porque neste momento é muito difícil disponibilizar esse exame".

Durante anos ouviu os médicos de família queixarem-se da dificuldade em aceder a esse meio complementar de diagnóstico. "Por isso mesmo a Fundação criou a possibilidade de se fazer quase ao domicílio", afirma. José Alves acredita mesmo que "toda a gente deveria fazê-lo, independentemente de ter tido ou não covid-19". A título de exemplo, o médico lembra que "as pessoas sabem qual é a sua tensão arterial, ou pelo menos sabem que existe, tal como sabem o que é o colesterol, ou a glicémia. Mas a função respiratória ninguém sabe. Depois acontece que há pessoas que têm pulmões fracos e outras não. E conforme têm ou não, vão ter mais doenças pulmonares", explica.

O presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão lembra que "a mortalidade por doenças respiratórias continua a ser a maior em termos evitáveis". E é por isso que insiste tanto na espirometria.

"Sempre que se pede, ela tem que ser feita em ambiente hospitalar, e com a a assinatura de um técnico de cardiologia e de um pneumologista. É mais ou menos o equivalente a fazer um mapa da tensão arterial, aplicado à função respiratória. Para isso, é preciso que haja patologia prévia".
José Alves lembra que "não é nada complicado de fazer, mas é burocrático: é preciso marcar, há poucas marcações possíveis, são precisas duas pessoas para assinar". E foi a pensar nisso que a Fundação adquiriu recentemente 20 aparelhos que permitem fazer espirometria ao domicílio. De resto, "vamos mesmo fazer uma série de rastreios em juntas de freguesia, para que se saiba que isso se pode fazer", afirma o presidente ao DN, adiantando que "se houver pedidos que justifiquem a compra de mais aparelhos, arranjaremos maneira de adquirir mais".

"Porque é preciso convencermo-nos disto: é tão importante fazer esse exame a uma pessoa que teve covid-19 como a uma pessoa que fuma, por exemplo. Sabe-se hoje que quem fuma dois maços de tabaco por dia tem grande probabilidade de ter DPOC (doença pulmonar obstrutiva crónica). E depois de perder a função respiratória já não há como a recuperar".

A importância das vacinas

De acordo com os estudos mais recentes, a covid-19 deixou doentes desprotegidos relativamente a outras doenças respiratórias graves. "Estima-se que 30% a 50% dos adultos com diagnóstico de covid-19 grave possam ter anomalias pulmonares persistentes, após a doença aguda. À semelhança do que já acontece nos Países Baixos e na Andaluzia, onde a vacinação antipneumocócica é recomendada a doentes hospitalizados por covid-19 com evidência de disfunção pulmonar, a Fundação Portuguesa do Pulmão lembra a importância da prevenção", refere um comunicado daquela entidade.

A Fundação reforça, também, a eficácia e a segurança das vacinas, sublinhando que a vacinação continua a ser a melhor forma de prevenção de doenças respiratórias graves como a pneumonia. "Terminado o inverno, não devemos baixar a guarda. Tal como no resto do mundo, as doenças respiratórias continuam a ser uma das principais causas de morbilidade e mortalidade em Portugal. Embora a grande maioria seja prevenível ou tratável com intervenções economicamente acessíveis, não temos assistido a uma redução global da sua prevalência".

Segundo o Observatório Nacional das Doenças Respiratórias, morrem, diariamente, 36 pessoas com doenças respiratórias no nosso país. 16 desses óbitos têm como causa a pneumonia.

Estudos recentes revelam que 30% a 50% dos adultos com diagnóstico de covid-19 grave podem desenvolver anomalias pulmonares persistentes, após a doença aguda. Nos Países Baixos e na Andaluzia, as autoridades de saúde apostam na imunização para tornar o organismo mais robusto contra as infecções respiratórias. Recomendam, por isso, a vacinação antipneumocócica a doentes hospitalizados por covid-19, com evidência de disfunção pulmonar.

"Os últimos dois anos mostraram-nos a importância da prevenção - evitar o que já nos é possível, sempre com atenção a quem está mais vulnerável", explica José Alves.

"Quem esteve infetado com covid-19, por exemplo, corre maior risco de contrair novas infeções respiratórias. Algumas delas podem ser prevenidas através de imunização. É o caso da pneumonia. Para quê correr riscos?", questiona, enquanto lembra que a pneumonia não é um exclusivo do tempo frio. "Não podemos baixar a guarda, mesmo com a subida das temperaturas. Devemos preveni-la sempre e podemos fazê-lo em qualquer altura do ano, com particular atenção aos grupos de risco".

Quem teve covid-19 grave e adultos com doenças crónicas como diabetes, asma, DPOC e outras doenças respiratórias crónicas, doença cardíaca, doença hepática crónica, doentes oncológicos, portadores de VIH e doentes renais, deve ser protegido.

A vacina antipneumocócica é recomendada pela Direção-Geral da Saúde e já está incluída no Plano Nacional de Vacinação para as crianças e para os grupos considerados de maior risco, mas a sua eficácia está comprovada em todas as faixas etárias. No caso dos adultos, basta uma dose.

dnot@dn.pt