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Alcoentre

Alcoentre. Ficaram livres, mas escolheram viver ao lado da prisão

Estes homens estiveram presos na prisão de Alcoentre, saíram em liberdade, mas decidiram viver ao lado da prisão onde passaram anos atrás das grades. Mudaram-se para fora das celas, mas nunca mais saíram dali. É quase uma Alcoentre perpétua.

"Não chores, matei um homem", foi assim que José Maria Ventura contou à mulher o que tinha acabado de acontecer. Era sábado. No dia seguinte ia batizar o filho, um bebé de 28 dias. As mulheres ficaram paradas na cozinha e esqueceram-se dos bolos e das toalhas a corar. Josélia ouviu o marido e obedeceu-lhe, não chorando. Veio atrás dele para Alcoentre, ali criou o filho e ali lhe nasceram os netos. "Esta agora é a nossa terra", diz. Odemira acabou-se-lhes na véspera do batizado.

Manuel Pequeno bem tentou fugir da terra para onde veio trabalhar na extração do barro. Casou-se com uma moça de Alcoentre e um dia matou-lhe o tio. "Ameaçava-me de morte há muito tempo. Atirei-lhe uma pedra à cabeça e ele morreu quinze dias depois." Livre, não regressou ao Alentejo. Vive a cem metros do sítio onde matou o homem que, insiste, prometeu tirar-lhe a vida. Ele só o conseguiu fazer primeiro.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.