Tancos e os soldadinhos de papel

No dia em que tive de ir à inspeção (o serviço militar ainda era obrigatório), passei a viagem toda até ao quartel da Calçada da Ajuda a pensar numa boa desculpa para não ter de "fazer a tropa". Eu e mais umas centenas jovens, que foram prevenidos com atestados médicos de todo o tipo: doenças de pele que já não tinham, problemas cardíacos que nunca lhes apareceram, desvios na coluna daqueles que dificilmente se comprovam sem um batalhão de exames... qualquer papel assinado por um médico era válido para fugir ao serviço militar obrigatório.

Como não levei nenhum atestado médico - nem legítimo nem forjado - tive de ficar dois dias a fazer testes psicotécnicos e a levar com palestras dos vários ramos das Forças Armadas, que ora me queriam convencer a ir para os Comandos, ora para a Marinha, ora para o Exército.

Compreendo bem a importância das Forças Armadas e o papel relevante que têm num Estado de direito. Tenho um enorme respeito por todos aqueles que dão a sua vida para defender o país e não sou adepto de Forças Armadas minimalistas, defendo apenas que devem ser ajustadas às necessidades atuais. E por muito que a farda verde - ou de outra cor qualquer - não me sirva, não me custa perceber a importância da hierarquia e das regras implacáveis, sobretudo quando estamos a preparar homens e mulheres para cenários de conflito.

Só convivo mal com autoritarismos, que tendem a secar qualquer pensamento próprio, tornando acéfalos todos os que só têm um direito: obedecer sem questionar.

Aqueles dois dias no Quartel da Ajuda deram para confirmar isso mesmo: a forma autoritária como os "graduados" falavam com pessoas que não conheciam de lado nenhum, a arrogância com que tantas vezes defendem um exército há muito ultrapassado pela realidade e, sobretudo, a altivez de quem, numa farda verde e dentro das paredes do quartel, se sente muito poderoso, eram tudo aquilo de que eu queria fugir.

Altivez e arrogância. Eis dois pecados capitais característicos dos militares. E se as mortes nos comandos já os tinham colocado a nu, o caso do roubo de Tancos só veio expor ainda mais uma instituição militar que não compreende o significado da palavra vergonha, porque não a sente.

Abreviemos o contexto. Há mais de um ano foram assaltados (foram?) os paióis de Tancos. Foi roubado (foi?) material de guerra que estava à guarda daqueles em quem confiamos para ir para a guerra, se for preciso. Há uma investigação em curso que ainda não está terminada. As mais altas patentes das Forças Armadas, altivas e arrogantes, balbuciaram umas palavras sem nexo, que deixaram tudo por explicar, e remeteram-se, arrogantemente, ao silêncio. Ninguém se demitiu. Ninguém foi demitido. Foram abertos quatro processos disciplinares a uns "soldados rasos", que resultaram no seguinte: uma repreensão simples, uma repreensão agravada, seis dias sem sair do quartel para um militar que prestou falsas declarações e, agora sim, prepare-se, mão pesada para um militar que se esqueceu de mandar fazer as rondas - 15 dias.

Sim, 15 dias sem sair do quartel, que é para ver se aprende a guardar melhor o material de guerra. Se não fosse trágico, podia até ter alguma graça. Mas mais trágico ainda é perceber a incapacidade do poder político em atuar. E se há coisa que Tancos vem demonstrar à evidência, é a inutilidade do ministro da Defesa. Na prática, ele só serve para passar cheques. Mais dinheiro para isto, mais dinheiro para aquilo, a obra que não foi feita, o equipamento militar que é preciso comprar, as carreiras dos militares que precisam de ser revistas. Se tivermos em conta que quem manda no Orçamento do Estado é sempre o ministro das Finanças, talvez ainda cheguemos à conclusão de que nem para passar cheques o ministro da Defesa serve.

Acontece que, de acordo com a Constituição, entre outras coisas, cabe a Azeredo Lopes propor a nomeação ou a exoneração do chefe do Estado-Maior- General das Forças Armadas ao Presidente da República. E que fique claro: Pina Monteiro devia ter sido o primeiro a assumir a responsabilidade pelo que aconteceu em Tancos. Não o tendo feito, devia ter sido o ministro da Defesa a propor a sua exoneração. Ora, não só não o fez como Pina Monteiro foi substituído e condecorado pelo Presidente da República na hora da saída.

E eis-nos chegados ao papel de Marcelo Rebelo de Sousa. O chefe supremo das Forças Armadas que, desde o dia do assalto a Tancos, jurou - e bem - não deixar cair o assunto. Se publicamente, até agora, Marcelo tem exercido a sua magistratura de influência, talvez esteja na altura de puxar dos galões e fazer mais qualquer coisa.

É verdade que a Assembleia da República ainda não fez tudo o que podia ter feito e que uma comissão parlamentar de inquérito se impõe perante tamanho vexame. Mas se um ano é muito tempo, dois anos são uma eternidade para explicar ao país como foi possível desaparecer material de guerra que estava à guarda do Exército.

O que falhou em Tancos é, em primeiro lugar, responsabilidade das mais altas patentes militares, independentemente das conclusões da investigação em curso. E, em última instância, do poder político que nuns casos manteve as chefias e noutros as substituiu com uma condecoração.

O país e, sobretudo, as Forças Armadas mereciam uma hierarquia que não fosse composta por meros soldadinhos de papel, mas por homens e mulheres capazes de assumir as suas responsabilidades. Há explicações por dar ao país e não há corporativismo que justifique tamanha desconsideração. Não só por estar em causa a segurança nacional mas sobretudo por isso. A arrogância e a altivez têm destas coisas, toldam-nos o raciocínio e não nos deixam ver as coisas com a clarividência necessária.

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