Como se diz O Principezinho em tétum?

Com traduções para 467 línguas e dialetos, O Principezinho só perde na sua divulgação global para outro livro, a Bíblia, afirma a Wikipedia em versão francesa, a certa para consultar sobre o tema - afinal o autor é Antoine de Saint-Exupéry, piloto cujo avião desapareceu ao largo de Marselha em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, e que foi dado como "Mort pour la France". Ora, uma das traduções é em tétum, língua nacional e co-oficial de Timor-Leste, e o tradutor um linguista português há muitos anos no país.

Numa viagem há dias a Díli tive oportunidade de conhecer João Paulo Esperança, o homem que transformou Le Petit Prince de Saint-Exupéry em Liurai-Oan Ki-ik, com a colaboração de Triana Corte-Real de Oliveira e Emília Almeida de Araújo. E assim os colecionadores do mundo inteiro, e são muitos esses apaixonados pelo aparente conto para crianças que na realidade é um mini-tratado de filosofia, podem arrumar na estante mais um título exótico, junto com L Princepico (no nosso mirandês), A Kis Herceg (húngaro) ou An Prionsa Beag (irlandês). Desde 2015, passados mais de 70 anos da morte do autor, os direitos do livro deixaram de existir, com exceção de França, pois a lei confere um período extra de proteção às obras dos mortos pela pátria.

Falei sempre português em Díli e muita gente me compreendeu e soube responder, com maior ou menor dificuldade. Há quem fale na perfeição, como a velha geração de dirigentes, desde José Ramos-Horta a Mari Alkatiri, ou alguns atuais alunos da Escola Portuguesa de Díli. Também há quem fale bem, embora com algum esforço, como o casal que conheci no centro da cidade, sobretudo ela parando várias vezes para procurar a palavra certa. Mas a língua do antigo colonizador, que na altura da conquista da independência, em 2002, Timor-Leste escolheu como oficial apesar das pressões para optar pelo inglês ou pelo bahasa dos indonésios, está hoje mais forte do que nunca, garantiram-me pessoas tão diferentes como o Nobel da Paz, ex-presidente e ex-primeiro-ministro Ramos-Horta ou o próprio linguista João Paulo Esperança. Certamente é muito mais falado do que em 1975, quando a descolonização atribulada feita por Portugal foi seguida de uma primeira proclamação de independência e logo pela invasão indonésia, que só terminou aquando do referendo de autodeterminação de 1999, organizado pela ONU.

Falta fazer ainda muito pelo sistema de ensino timorense, ouvi também de muita gente, entre timorenses e portugueses que amam aquele país. Mas Portugal continua presente com a sua ajuda, e os nossos professores lá merecem toda a admiração. Trabalham com crianças que crescem a saber uma língua local, a falada pela família, que depois juntam a esta, o tétum, língua franca e co-oficial que sempre que necessita vai buscar palavras ao português, e por fim têm de aprender este outro idioma co-oficial, consagrado na Constituição.

Sou daqueles que reconhecem nos líderes timorenses, corajosos quando na selva ou no exílio combatiam a ocupação, a ousadia de terem oficializado o português no novo país. Foi certamente uma forma de defesa da identidade nacional quando se é um país com um milhão de habitantes e vizinhos como a Indonésia ou a Austrália. Mas fico sempre feliz quando vejo crianças (e não só) a ler, e isso em que idioma for, pois significa que há ali esperança de um futuro melhor. Parabéns e obrigado João Paulo Esperança por este Liurai-Oan Ki"ik.

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