Uma romaria diferente a Santa Justa, atraída pela tragédia do helicóptero

Muitos curiosos acorreram à serra de Valongo durante este domingo, para ver o local onde caiu o helicóptero de INEM que vitimou quatro pessoas. Alguns levaram até destroços como recordação. Ali perto, no lugar da Azenha, houve quem passasse a noite em branco para alimentar as equipas de socorro.

Ao balcão do bar da Associação Recreativa e Cultura da Azenha (ARCA), Carla Rodrigues não tem mãos a medir para satisfazer os pedidos. Duas senhoras de meia-idade parecem estar com sorte ao jogo e vão pedindo raspadinha atrás de raspadinha, trocando prémios por novas tentativas de chegar à sorte grande.

Carla mal dormiu. A noite foi longa naquele lugar do concelho de Valongo enfiado num vale junto a uma das encostas da serra de Santa Justa, por causa de uma sorte bem mais madrasta do que aquela que procuravam estas duas clientes à hora de almoço de domingo. A menos de um quilómetro dali, no meio da serra, lá para cima, as equipas de socorro finalizavam as operações de resgate dos quatro corpos dos tripulantes do helicóptero do INEM que ao fim da tarde de sábado desapareceu no meio da densa serra, entre "chuva que Deus a dava" e "um nevoeiro cerrado que nada deixava ver", quando regressava do Porto, onde foi levar uma doente grave de 76 anos, com problemas cardíacos, ao Hospital de Santo António.

Foi ali, nas instalações da ARCA, num campo de futebol sintético ao lado do bar, que a Proteção Civil montou o comando de operações durante a noite de sábado e madrugada de domingo - antes de mudar, já ao nascer do sol, para o alto da serra, junto à capela de Santa Justa. Carla e os outros funcionários do bar passaram toda a noite a trabalhar para ajudar a servir os mais de cem operacionais destacados para o terreno.

O estrondo ao fim da tarde

"Aqui numa aldeia pequenina destas, isto parecia o fim do mundo", conta Carla Rodrigues ao DN, ela que se lembra de ter "ouvido um forte estrondo" por volta das 18.00 de sábado - foi às 18.55 que se deu a perda de sinal de radar da aeronave -, mas não se apercebeu de que poderia ter sido um tragédia destas dimensões até começar a ouvir a sucessão de sirenes que sobressaltou o local, já depois das oito da noite. "Aqui ao lado há uma fábrica abandonada e até pensei que o barulho podia ter sido alguém para lá a rebentar coisas. Só quando vimos as ambulâncias todas a chegarem é que percebemos que se passava algo. E depois começou a passar nas televisões", explica.

Desde essa altura foi um "ver se te avias" nesta associação criada em 1976 pelos moradores da comunidade local. "O senhor presidente da Câmara de Valongo veio cá pedir para alimentarmos o pessoal e passámos a noite toda a fazer coisas. Fizemos mais de 400 sandes, esgotámos o pão, o fiambre, o queijo, tivemos de ir buscar a outros cafés... enfim, só ficou o álcool. Nisso não tocaram", relata.

Foram mobilizadas nas operações de resgate 203 pessoas - destas 134 eram operacionais da Proteção Civil com 35 veículos. Além de um helicóptero da Força Aérea que saiu da base do Montijo, mas que ao chegar próximo da aldeia de Couce (Valongo) teve de abandonar o local devido às más condições atmosféricas.

Neste lugar da Azenha, todas as conversas deste domingo são sobre o helicóptero (bimotor Agusta A109S de oito lugares da empresa Babcock que trabalha para o INEM desde 2000) que se despenhou ali tão perto, na encosta da serra, e cujo estrondo quase todos garantem ter ouvido, mas desvalorizado. É assim também na sociedade columbófila local, onde a televisão vai mostrando os destroços no meio de uma zona de eucaliptos e de difícil acesso sem veículos todo-o-terreno. "Com esse carro não se meta para lá", aconselham.

O jovem João Teles, de 21 anos, fala de "um barulho enorme, que parecia uma bomba", mas também a ele "não passava pela cabeça que tinha sido uma coisa destas". João lembra as condições difíceis que se verificavam ao fim da tarde de sábado. "Muita chuva, vento, nevoeiro. E aqui, quando chove, fica sem visibilidade nenhuma."

A estender a roupa na varanda, uma senhora já de provecta idade, que não dá "o nome a ninguém", revela que pensou que se tratava de um "camião a descarregar terra" quando ouviu o barulho.

Uma romaria diferente

Além de dominar as conversas entre vizinhos, a tragédia do helicóptero do INEM atraiu aos diferentes acessos à serra de Santa Justa uma romaria diferente das habituais, neste domingo. Entre os muitos curiosos, alguns conseguiram mesmo furar o perímetro montado pela polícia e ir até ao local onde caiu a aeronave. Já do outro lado da serra, junto à Estrada Nacional 15, na entrada para a Rua de Santo Sabino, onde se amontoavam os jornalistas à espera de atualização de informações, Óscar Seabra regressa do interior da serra, com o seu cão pela trela. Mora "a uns 700 metros dali" e, confessa, não resistiu à "curiosidade mórbida" de ir espreitar o local do acidente. Que foi encontrado pelas equipas de resgate cerca da 01.30 deste domingo.

Ao DN, conta que viu "destroços espalhados por uma grande área de uns bons 500 metros" e mostra as fotos que tirou no local, entre pedaços da aeronave caída e os cabos da antena na qual o helicóptero terá embatido antes de cair, "mesmo junto à capela de Santa Justa" - hipótese mais provável apontada, de resto, pelo relatório preliminar. "O que lá está está muito amolgado", regista, ele que confessa ainda ter pegado "em dois destroços para trazer", mas acabou por não o fazer.

Ao contrário de Paulo Pereira e de Vítor Sousa, dois habituais frequentadores das serras de Valongo, por onde passeavam ontem de moto4, e que não resistiram a trazer um pedaço da fuselagem do helicóptero: o tampão do abastecimento de combustível.

O casal de amigos da enfermeira Daniela

Junto à fila de carros que se acumulam na berma da estrada, de frente para o pequeno altar em homenagem a Nossa Senhora da Purificação, onde se lê a frase "Rogai por nós", Ernesto e Fátima observam em silêncio o aparato. O casal de Baltar também não resistiu à curiosidade de ver o local onde perderam a vida as quatro pessoas que iam no interior do helicóptero do INEM que se preparava precisamente para fazer uma paragem para reabastecimento em Baltar, antes do regresso a Macedo de Cavaleiros, de onde tinha saído para transportar uma doente até ao Hospital de Santo António, no Porto.

"Curiosamente, ontem fomos até ao Porto para ver as luzes de Natal no centro e passámos pelo heliporto de Massarelos quando o helicóptero estava a aterrar lá, por volta das 17.30. Depois, quando ouvimos as notícias, associámos logo", contam ao DN.

Entre as quatro vítimas mortais está uma conhecida do casal: Daniela Silva, enfermeira também natural de Baltar, e de cujos pais, Ernesto Sousa e Fátima Nogueira, são amigos. Daniela "cresceu lá nos bombeiros e depois dedicou-se ao INEM", recordam. De resto, também o pai da enfermeira estava ligado à corporação de Baltar, assim como outros familiares, contam. "Era a dedicação de uma vida", sublinham, lamentando que a mesma Santa Justa que acolhe a fé de tantos peregrinos tenha sido palco de "uma tragédia tão injusta".

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