Argentina. Um país de dois por quatro

Mala de viagem (10). Um retrato muito pessoal da Argentina.

Dois dias em Buenos Aires é pouco, sobretudo quando nunca mais regressei. Nesse ano, eu estava em trânsito para um congresso em Concórdia, vindo de São Paulo. A qualidade do avião das Aerolineas Argentinas não era a melhor, mas lá cheguei à capital mais europeia da América Latina. Dos poucos sinais de alegramento nas ruas da cidade, contava-se a excitação das fãs do cantor mexicano Luis Miguel, que atuou nessa noite no Estádio Vélez Sarsfield, e também o tango ao vivo, ao virar de cada esquina, em compasso de dois por quatro. Estávamos a 24 de novembro de 2002 - uma das poucas datas que retenho - e a Argentina estava em crise profunda. Muitas lojas fechadas e um país triste como espelhavam as fachadas daquela Madrid sul-americana. Era uma crise política jamais vista. A Argentina estava demasiadamente dependente do mercado brasileiro que, anos antes, diminuíra drasticamente. Eu até acho que a Argentina chorava desde há dez anos, quando morreu Ástor Piazzolla, o virtuoso do bandoneón, um instrumento aerófono livre com aparência similar à sanfona, que daria outra história. Perto do hotel e numa das avenidas que conduzem à Plaza de Mayo - a mais importante da cidade, fundada por Juan de Garay, em 1580, e onde todos os visitantes confluem -, um par de dançarinos regamboleavam ao som de "Por una cabeza", uma das mais belas melodias de sempre, criada, em 1935, por Carlos Gardel (música) e Alfredo Le Pera (letra). Ao longo das ruas pavimentadas e arquitetadas ao gosto europeu, uma criatividade cosmopolita cativante escorria dos inúmeros cafés, apesar da crise, pelo que concluí que a convivialidade nunca foi posta em causa. De volta da Argentina, trouxe literatura, "Regina Y Marcelo", uma história de amor, entre Regina Pacini - uma jovem soprano portuguesa de ascendência italiana que nascera em Lisboa em 1871 e faleceu no ano em que a minha mãe me deu à luz - e Marcelo Torcuato de Alvear - aristocrata argentino, amante do bel-canto. Desde a primeira vez em que a ouviu cantar, Marcelo ficou enfeitiçado pela sua voz. Durante anos seguiu-a pelas salas mais famosas da Europa, inundando-a de flores, presentes e promessas de amor. Por fim, conquistou o seu coração e, doravante, ela cantaria só para ele. O casamento causou escândalo na sociedade de Buenos Aires, que não concebia que um dos seus solteiros mais cobiçados se casasse com uma artista estrangeira. Em 1922, Marcelo assumiu a presidência da nação e a portuguesa Regina tornou-se na primeira-dama da Argentina. Será que os portugueses conhecem esta história?

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG