Imagens

Um dia conheci um consultor de comunicação de políticos e CEO famosos nos EUA que me disse que quando se comenta algum tema na TV, no fundo no fundo do que as pessoas se lembram é das analogias, das comparações, das imagens.

Na terça-feira, comentando na RTP3, no 360º, a omniquestão da greve, fiz uma imagem. Mas antes disso, talvez perder umas linhas sobre a maravilha que é esta greve ser dos combustíveis. Como se a greve dos médicos fosse dos estetoscópios, ou a greve dos pilotos fosse a greve dos aviões. Claro que motoristas de substâncias perigosas é muita palavra, e no fundo é mais abrangente do que apenas gasosa, mas adiante.

A imagem foi, se bem me lembro, e agora não consigo ir ver porque estou a terminar este texto num quarto de hotel e o wi-fi implica dar autorização aos senhores do hotel para descarregarem todos os meus dados e poderem dar-me algumas palmadas até, tal era o relambório de avisos, que terei de tentar repetir de memória. A reação perante a greve dos motoristas ou dos combustíveis, como se prefira, foi do seguinte modo.

O PS teve a reação musculada, sabendo que se algo correr mal terá sempre a culpa e por isso mais vale fazer o máximo para que corra bem e parecer que se está no controlo; é uma reação de combustível aditivado. O CDS também reagiu de forma aditivada, lei e ordem, lei e ordem. Os penduras da coligação, Bloco e PCP, mais calmos, que isto de greves é bom, mas dos nossos sindicatos, e estes sindicatos são do estilo liberal-capitalista e não dos verdadeiros trabalhadores, e por outro lado aos poucos votos que dão (não é como as dezenas de milhares de funcionários públicos ou professores) irritam muito a gente no seu conjunto - por isso foram reações do tipo sem chumbo, ou gasóleo agrícola, assim uma coisa bem diluidinha só para dizer que se fez qualquer coisa. E por fim há o PSD, que primeiro pediu que se adiasse a greve, vá lá, greves depois das eleições, ali para final de outubro, quando já não está nem frio nem calor mas ainda não estão as confusões do Natal. Este pedido é baseado numa das principais armas de Rui Rio, que é de que eu chamaria de hipersenso comum, que pode ser uma arma de ataque ou uma bomba que explode nas mãos, mas que é dizer sempre como solução genial o que qualquer pessoa podia pensar, pelo menos numa primeira análise das coisas. Em termos de combustível é, pela excentricidade, mas ao mesmo tempo pelo sentido que faz, um GPL ou um etanol.

E antes de ir para o ar com estas imagens, passavam imagens da greve dos combustíveis e dos seus principais afetados nos grandes painéis do estúdio - os carros e tudo o que vem com eles. E sobre esses significantes e significados notei o que muitas vezes ainda se vê: os carros tinham todos as matrículas apagadas, pixelizadas, desvanecidas. E num mundo em que a vida toda de toda a gente está devassada, em que todos partilham tudo de si próprios e dos outros, em que as caras todas estão todas no meu bolso (e a avaliar pelo meu Instagram neste verão não são apenas as caras), porque continuamos como sociedade a venerar o deus Carro, a proteger-lhe a individualidade sagrada, o seu eu inviolável e a proteger-lhe um par de letras e quatro números?

Advogado