Morreu Aretha Franklin - o fim de um reinado sem tréguas

A maternidade precoce, a timidez e a tendência depressiva, os problemas com o peso, a má sorte nos homens, o desnorte financeiro - tudo eram razões para nem chegar ao "trono". Não só o conquistou, mas manteve-o à custa de talento, suor e lágrimas. Morreu hoje, com 76 anos

Acabou como não queria, numa cama de hospital, longe dos palcos há mais de um ano, depois de, em novembro de 2017, ter "prometido", com o título do seu 42.º disco de estúdio, A Brand New Me. Aretha Louise Franklin, nascida em Memphis, no Tennessee, a 25 de março de 1942, mas há muito tempo cidadã emérita de Detroit, gostava destas tiradas categóricas - o primeiro single que publicou, em 1956 (tinha 14 anos e revelara a voz na igreja em que o seu pai era pastor), revelava outro propósito ambicioso: Never Grow Old. Mas a vida de Lady Soul estava carregada de dramas que a sua personalidade, paradoxalmente insegura e estranhamente solitária, ainda acentuava. Nunca se refez da perda do pai e da avó que a ampararam na meninice e na (curta) juventude; viu morrer os três irmãos, Erma, Cecil e Carolyn, com três variedades de cancro (na garganta, nos pulmões e na mama, respetivamente); testemunhou, também, o desaparecimento da sua agente durante décadas, Ruth Bowen, e dos produtores que a ajudaram a subir ao "trono" de que ainda não foi desalojada, Jerry Wexler, Arif Mardin e Luther Vandross. Além disso, há muito tempo que não tinha um homem na sua vida, embora continuasse a fantasiar sobre um príncipe encantado que, realmente, não existiu, de acordo com o seu biógrafo David Ritz. Era dada a alegrias incontroláveis e a nostalgias profundas.

Quando assinalou o 75º aniversário, uma festa especial, estava também a celebrar o meio século sobre a edição daquele que foi sempre o seu hino, devidamente desviado do património de Otis Redding: Respect. Afinal de contas, não é todos os dias que uma canção consegue servir de bandeira a causas múltiplas - da igualdade entre raças à libertação feminina - e acabar a ser escutada em nome de um desempenho vocal exemplar, arrepiante e histórico. Foi mesmo lá longe, nos idos de 1967... Por essa altura, já Miss Franklin - tratamento que impôs a muitos dos seus colaboradores, desmentindo a proverbial afetividade dos artistas nascidos no gospel e impondo um perfil de diva que sempre lhe agradou - tinha somado anteriormente dez álbuns no currículo, um quando ainda era adolescente (Songs Of Faith, também editado em 1956), os outros nove publicados pela Columbia, considerada a editora com maior prestígio na época, mas incapaz de fazer render o vozeirão que teve ao dispor: Aretha navegou entre estilos, do R&B ao jazz, do gospel à Broadway, quase com a mesma cadência com que foi acumulando produtores (e todos de primeira linha: John Hammond, Richard Wess, Robert Mersey, Clyde Otis, Bob Johnston, Bobby Scott), sem conseguir aquilo que mais perseguia, um êxito claro e contundente.

Por essa altura, já a cantora era mãe de três filhos: Clarence, batizado com o mesmo novo do avô, materno, nasceu a 28 de março de 1956, três dias depois de a mãe completar 14 anos; Edward nasceu dez meses depois do primogénito, a 5 de Janeiro de 1957; em 1964, seria a vez de Ted, o primeiro a vir ao mundo com a mãe casada, então com Ted White. A este trio, juntar-se-ia ainda, em 1970, Kecalf, quarto filho rapaz, resultado da ligação com Ken Cunningham. Nem a maternidade precoce permitiu qualquer desvio, qualquer paragem a Aretha, que viu os seus filhos serem criados pela avó, "Big Mama" Rachel: o pastor batista C.L. Franklin - porventura o mais conhecido e ativo dos reverendos negros norte-americanos, a seguir a Martin Luther King e antecessor de Jesse Jackson - sempre fez questão na presença da sua dotada filha nos seus sermões, aproveitando sabiamente a emoção que esta conseguia transmitir aos cânticos espirituais.

De acordo com David Ritz, a ligação do pai a esta filha foi sempre tão especial, tão intensa, tão particular, que as más-línguas encarregaram-se de lançar o boato de que os dois primeiros filhos de Aretha seriam também filhos... do avô. Toda a família repudiou sempre essa macabra hipótese, com os irmãos de Aretha a garantirem que, pelo contrário, as aventuras e paixões juvenis da futura rainha do soul eram mesmo a única forma de revolta contra o pai dominador. De resto, C.L. opôs-se, com energia e insucesso, ao primeiro casamento da filha, com Ted White. Que toda a gente sabia tratar-se de um ambicioso proxeneta, que rapidamente assumiu funções de agente e empresário da artista e que nem sequer se preocupava em esconder a forma violenta como, muitas vezes, tratava a mulher, que passou a ser, também, a sua principal fonte de rendimento. Oficialmente, o casamento durou de 1962 a 1969; na prática, tinha terminado muito antes, quando o clã Franklin se uniu em torno de Aretha, excluindo o prevaricador. O pai não abdicou de "nomear" Cecil, irmão da cantora, para se ocupar dos concertos e da agenda de Imprensa.

Da timidez ao controlo total

Nos primeiros anos do seu percurso público, uma entrevista com Aretha podia tornar-se algo de verdadeiramente penoso. A preferência parecia dirigir-se metodicamente para as respostas monossilábicas e acontecia muitas vezes não haver sequer resposta alguma - ainda não se sentia o "sangue azul", que só se manifestaria mais tarde, tratava-se apenas de um caso-limite de timidez. A menos que estivesse em causa a sedução: em competição com as irmãs, a menina perdida transformava-se numa mulher cheia de truques. Ou que a sua exposição passasse pelo ato de cantar - aí, Miss Franklin calava qualquer público, para depois o contagiar, fosse numa igreja ou num ambiente mais secular. O curioso é que, mesmo com algumas das suas criações a transpirar sexo por todos os poros, Aretha sempre negou qualquer carga, mesmo ligeira, da libido nas suas canções, defendendo que poderia, sem problemas de consciência, sortear qualquer tema de todo o seu reportório e cantá-lo numa sessão religiosa. Por alguma razão, não o fez.

Trata-se de mais um exemplo de algo que os irmãos não esconderam, que Ruth Bowen e Jerry Wexler, entre outros, foram revelando aos biógrafos de Miss Franklin: dona de uma generosidade desregrada, que a levou muitas vezes a prometer (presenças solidárias, donativos, mobilização de conhecidos e/ou famosos) mais do que podia cumprir, Aretha há muito carregava consigo a fama de uma excessiva dependência dos estados de alma. Se estava bem, lá ia ela, quase sempre para brilhar - como aconteceu na noite de Grammy em que teve que substituir Luciano Pavarotti e para isso foi desafiada vinte minutos antes, acabando por cantar nada mais, nada menos, do que Nessun Dorma, com direito a ovação de pé e prolongada.

Há cerca de dois anos, quando Carole King foi homenageada, Aretha apareceu de surpresa para "devolver" Natural Woman à autora original. As imagens permitem perceber a surpresa da criadora de You've Got A Friend com a presença da Diva, capaz de arrebatar toda a gente e de emocionar até às lágrimas o então presidente Barack Obama (o video anda pelo Youtube). Do outro lado, Aretha deve ainda hoje manter o recorde mundial de cancelamentos de concertos, muitos deles inexistentes porque a cantora perdeu sempre que tentou superar o seu medo de voar, que lhe cortou digressões na Europa, na Ásia, na América Latina e até em muitas cidades dos Estados Unidos. Mais do que isso, havia os momentos depressivos que ciclicamente a afligiam: aí, nem as suas causas, religiosas e políticas, conseguiam arrancá-la de casa, chegando a faltar a cerimónias fúnebres em que se tinha comprometido a cantar.

A progressão na carreira, que hoje ultrapassa os 75 milhões de cópias vendidas dos seus discos (e, convenhamos, com um número limitado de êxitos nos últimos 25 anos), que se traduz em 112 canções classificadas no top da Billboard , que lhe permitem ser dona e senhora de 18 prémios Grammy, que lhe valeram tornar-se a primeira mulher indicada para o Rock and Roll Hall Of Fame (ela quem vem do gospel e da soul) e que lhe permitiram ser considerada a maior intérprete vocal de sempre - homem ou mulher - de acordo com a escolha da revista Rolling Stone.

Tudo isto, a somar à sua idiossincrática insegurança, tornaram-na difícil de aturar, num estúdio de gravação ou na preparação dos concertos. Mas, mesmo com o seu "domínio absoluto", foram poucos - e não ficaram registados, o que não deixa de ser sintomático - aqueles que abdicaram, em nome da paz de espírito, da possibilidade de trabalhar com a Rainha, Mesmo sabendo, a partir de certo momento da carreira de Aretha, que esta só grava em Detroit e que nem todos os dias são "apropriados" para que ela trabalhe. Mesmo entre os familiares e amigos mais chegados, ninguém estranhava os amuos e os silêncios prolongados da Diva, sempre que se sentia contrariada ou "condicionada", nem que fosse por uma sugestão. Ninguém teve mais razões de queixa do que as irmãs, Erma e Carolyn, que acabaram por prescindir das respetivas carreiras por só haver espaço para uma abelha-mestra, primeiro ajudada direta e empenhadamente pelo pai, depois fazendo do seu valor comercial, do seu prestígio e dos seus efetivos talentos uma lista incontestável de argumentos de peso.

No capítulo das relações, reza a história que dando-se relativamente bem com os homens - Smokey Robinson era seu amigo de infância, Billy Preston tocou e cantou na mesma igreja, Donny Hathaway fez duetos com ela -, já não tolerava grandes proximidades com as potenciais rivais. Que o digam Diana Ross e Dionne Warwick, que só muito tarde foram admitidas no círculo de Miss Franklin, o mesmo acontecendo com Mavis Staples. Barbara Streisand, contratada pela Columbia quase ao mesmo tempo que Aretha, foi sempre um alvo a abater e objeto de um despeito radical, motivado não só pelas suas vendas iniciais, muito superiores às de Aretha, mas também pelo seu êxito num outro "departamento" em que a criadora de Freeway Of Love prometeu muito e nunca cumpriu, o Cinema. Desde um biopic em que se representaria a si mesma, a cantora anunciou estar "tudo assente", em diferentes fases, para encarnar Josephine Baker ou Mahalia Jackson. Nunca foi adiante, limitando-se a duas aparições, fugazes mas marcantes, nos dois filmes dos Blues Brothers. Último exemplo das raivinhas da Diva: Whitney Houston conhecia Aretha desde os cinco anos, uma vez que a mãe (Cissy Houston) a trouxe consigo para o estúdio sempre que foi chamada a fazer coros para a Rainha. A miúda chamava-lhe mesmo Tia Ree (de Aretha). Ora quando Whitney conseguiu um contrato com a editora Arista, a mesma em que então gravava Miss Franklin, esta infernizou a vida ao patrão e mentor da empresa, Clive Davis, por considerar condenáveis as atenções dedicadas a quem tinha acabado de chegar...

Dos êxitos às memórias

Ao longo de um percurso que levava agora mais de 60 anos de atividade profissional, Aretha Franklin há muito ultrapassara a fase mais criativa, vivida quando integrava o catálogo da editora Atlantic, mais propriamente entre 1967 e 1976. Foi aí, com discos assertivos e imaculados, em estúdio e em palco, discorrendo entre a soul e o gospel, que fixou a fasquia que - até hoje - nunca foi ultrapassada. Depois, quando se "rendeu" à pop e ao disco-sound, ainda adicionou alguns sucessos e muitas críticas. Acabou a ser defendida por um outro génio da Música, Ray Charles: "Aretha anda à procura de êxitos em terrenos diferentes? Faz muito bem. Por um lado, nos seus domínios naturais, não há mais nada de novo para ela fazer, nunca foi pessoa de se guardar para o futuro. Por outro, há algo em que eu a compreendo muito bem e penso, até, que os nossos passos têm semelhanças - é que, ao fim do mês, somos nós que temos que pagar as contas... E os êxitos ajudam muito, acreditem...".

Mais uma vez, David Ritz defende em Respect - The Life Of Aretha Franklin, publicado no final de 2014, que a simples contratação de um contabilista teria evitado muitos dissabores a quem perdeu muito dinheiro por não confiar em ninguém (havendo até uma fase em que subia ao palco com a sua malinha de mão, com o dinheiro lá dentro, por recear que lha roubassem do camarim). Miss Franklin chegou a ser processada por falhas nos pagamentos dos seus luxos mas conseguiu sempre provar que se tratava de desnorte financeiro e não de efetiva vontade de entrar pelos calotes. Além do mais, foi ela que custeou todas as despesas médicas do pai que, alvejado a tiro na sequência de um assalto a sua casa, em 1979, permaneceu em coma durante cinco anos, até à morte. E foi ela quem amparou os irmãos quando estes foram minados pelas doenças fatais. Ruth Bowen recorda, a título de exemplo, ter encontrado um cheque de vinte mil dólares (provavelmente parte de um cachet) a servir de folha de apontamentos junto ao telefone da casa em que Aretha vivia.

Sempre em combate com o excesso de peso, conhecida e às vezes menosprezada pela sua forma de vestir exuberante, Aretha casou uma segunda vez, com o ator Glynn Turman, mas as carreiras de ambos acabaram por separá-los irremediavelmente em meia dúzia de anos. Com espetáculos mais curtos, com menos amplitude vocal, a Lady Soul continuava, até ao abandono definitivo dos espetáculos, a irradiar energia e a ser um daqueles casos em que se via, à vista desarmada, estarmos diante de uma personalidade "maior do que a vida". Felizmente, os seus méritos acompanham-na fielmente. Vale a pena acreditar que Aretha Louise Franklin não terá deixado de pensar que, com muitos sobressaltos, desgostos e inquietações, a vida valeu a pena, desde 25 de março de 1942. Afinal de contas, a menina que nunca gostou da envolvência académica acabou a dispor de um doutoramento honoris causa em Harvard. E não é toda a gente que pode dizer o mesmo que ela - que a sua voz foi oficialmente considerada um "recurso natural" do estado do Michigan. Haja respeito, na hora em que nos despedimos da mulher. À voz, única, nunca diremos adeus.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

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