Gripe asiática: ataque comunista?

Um inquérito urgente foi pedido à Organização Mundial de Saúde para apurar as origens e causas da gripe asiática nos Estados Unidos e noutras regiões

"Uma instituição norte-americana pediu um inquérito à Organização Mundial de Saúde", lia-se na primeira página do DN neste dia do ano de 1957. O objetivo da investigação era claro: descobrir se a gripe asiática teria sido um ataque, conforme suspeitava uma associação de antigos combatentes americanos.

"Terá a gripe asiática sido provocada por uma grande potência comunista para enfraquecer o mundo livre?", questionava-se, abrindo a possibilidade de "os germes da doença serem provenientes da China comunista ou da União soviética ou de ambos os países", "transportados pelo ar, propositadamente, para determinadas regiões a fim de provocar paralisia física e económica das populações" dessas nações.

Por esta altura, não se registavam ainda casos da doença na Europa, "embora os serviços de saúde de vários países" estivessem já a tomar "medidas preventivas" contra a gripe asiática. Mesmo porque os Estados Unidos, onde a doença mais danos causava, impunham já "restrições à exportação da vacina, a fim de o produto não faltar às suas populações".

A pandemia começara no início de 1957 na China, de onde se espalhou para Índia e Austrália e depois todo o Oriente e África. Em menos de dez meses, atingiria toda a população mundial - a Portugal, acabou por chegar através dos passageiros que aqui chegavam de barco, vindos de África -, calculando-se que tenha morto cerca de um milhão de pessoas em todo o mundo.

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