Isabela Figueiredo: "Em Portugal o racismo está na cabeça de cada pessoa"

A autora de Caderno de Memórias Coloniais e A Gorda foi acolhida no Brasil com enorme entusiasmo pela crítica e pelos leitores. Chamaram-lhe "a musa de Paraty" na Flip, a grande feira literária brasileira. Ela acha que ser musa é bom e dá muito trabalho. Nascida em 1963 em Lourenço Marques, hoje Maputo, veio para Portugal um mês antes de fazer 13 anos, sozinha. Fez o possível para que não percebessem que era retornada, agarrou-se aos livros e aos estudos. É professora e escritora, com uma escrita de opiniões e palavras fortes. O corpo, a sensualidade, a denúncia do racismo e do colonialismo transpiram de todas as páginas, mesmo que essa recusa envolva o próprio pai, sempre amado.

Ana Sousa Dias
© Sara Matos/Global Imagens

O que li sobre a sua estada no Brasil nas últimas semanas foi extraordinário, chamaram-lhe mesmo "a musa de Paraty". Foi muito intenso?

Foi muito intenso porque trabalhei muito. Não me senti uma musa mas espero ter sido, porque uma musa é alguém que inspira os outros. Espero tê-los inspirado porque tenho realmente coisas a dizer às pessoas, e são coisas boas. Mas trabalhei que nem uma louca. Sinto que uma musa trabalha que nem uma louca para inspirar os outros. Inspirar os outros dá muito trabalho.

Foi um furor na imprensa, foi entrevistada por todo o lado.

Dei entrevistas a tantas televisões, jornais e rádios que não consigo dizer quantos foram. Foi um sucesso enorme e os brasileiros não me conheciam. O engraçado é que os brasileiros têm a ideia dos portugueses como muito comedidos, soturnos, tristes, e eu não correspondo a esse estereótipo, tenho bom humor. Quando não tenho e estou a trabalhar, esforço-me por ter, porque os outros não têm de levar com a minha tristeza ou o meu mau feitio. Gostaram de mim e eu fiquei muito feliz com isso. Fiquei feliz por ter uma capa na Folha de S. Paulo e por a grande crítica literária do Brasil ter dado cinco estrelas ao Caderno de Memórias Coloniais.

Está a falar da crítica de Leyla Perrone-Moisés?

Sim. Em Portugal nunca consegui cinco estrelas. Os brasileiros olharam para mim sem preconceitos, pensando apenas que sou a gringa portuguesa, e isso beneficiou-me.

Esse êxito no Brasil não corresponde à receção em Portugal?

Em Portugal terei de fazer muitos milagres para ter cinco estrelas num livro. Não tenho nome de família, não sou "de Figueiredo". Não tenho a classe social certa, a origem certa, o nome certo, o bairro certo. Nem sequer vivo em Lisboa, em Campo de Ourique ou na Graça, vivo na Margem Sul.

Não se movimenta nesse meio?

Não quero misturar-me com um meio cultural que vive da comparação, da maledicência e muito pouco da arte. Será sempre difícil chegar a alguns patamares onde outros artistas chegam, porque não faço vénias nem salamaleques e não vou fazê-los. Quando lá chegar vai ser pelo meu trabalho, tal como tudo a que cheguei até agora.

Os seus dois livros aparecem numa fase tardia da sua vida.

Numa fase madura.

É a escrita de uma pessoa sem preconceitos, aberta, bem-disposta, mas que sofreu muito. Esse sofrimento está a ser compensado?

Todos sofremos muito, não sou só eu. Nas pessoas que fazem arte, há a capacidade de transformar o sofrimento numa outra coisa, numa dor que tem uma riqueza especial. Há naquilo que faço uma mistura de dor e humor. A dor e a capacidade de ter ultrapassado isso através do humor. Passei para lá da dor.

Não ficou encolhida?

Não, e consigo escrever sobre isso sem lamechice.

Nunca tem condescendência nem autocomplacência. "Estou aqui, sou eu."

Eu li, estudei, sei o que é um bom texto literário. Eu tive acesso à educação, fiz um curso universitário e antes disso já lia muito. A educação e a leitura salvam-nos, mostram-nos a vida, o mundo, enriquecem-nos. Felizmente, tive acesso a isso. A filha do eletricista que veio de uma classe social baixa teve a sorte de ter uma família que lhe deu formação em casa e uma educação académica. Eu beneficio das condições que o 25 de Abril trouxe às pessoas do povo. Isso também é uma coisa que me perdoam pouco. Tenho amigos que me dizem: "Não digas que és filha de um eletricista." Porquê? Eu tenho orgulho em ser filha de um eletricista e em dizer alto que o sou. Quero que as pessoas saibam que os filhos dos eletricistas também conseguem ser escritores, professores, advogados e outras coisas. Não é a origem que nos marca, é o que fazemos com o que nos dão que determina o que vamos ser. Quero que saibam, porque é uma conquista. Antes do 25 de Abril se calhar não teria tido as oportunidades que tive.

Foi um resultado da democratização do ensino?

E foi maravilhoso. O meu pai sofreu e por isso foi para África, nos anos 1950. Não tinha forma de viver em Portugal, a vida era paupérrima. Nem sequer tinha meios para se casar, para constituir família. Só pediu a minha mãe em casamento, a partir de Moçambique, quando encontrou meios de vida. Cá não tinha.

E isso era patente na casa da sua avó, nas Caldas da Rainha, para onde veio depois da independência de Moçambique?

A casa da minha avó era muito pobre. Esse é o motivo por que o meu pai não quis largar Moçambique e ficou lá depois de me ter mandado para Portugal, em 1975, sozinha. Ele recusou a ideia de regressar a Portugal como os outros retornados, sem nada, com a camisa no corpo, porque sabia o que o esperava, conhecia a casa. Mandou-me para me salvaguardar em termos de segurança, que era importante, e da minha educação, porque os professores saíram todos de Moçambique. Foi trabalhar para a Hidroelétrica de Cahora Bassa, em Tete, onde conseguiu ganhar bastante, em dólares, e acumular em Portugal o dinheiro suficiente para chegar cá e comprar a pronto pagamento a casa onde vivo, comprar um carro e arranjar um emprego decente. Mas para mim as coisas foram mais difíceis, eu levei a pancada toda dos retornados. Compreendo a decisão do meu pai em quanto à minha educação.

Teve algum aconchego por parte da sua família de cá?

Nenhum. Eu não tinha qualquer laço de proximidade com a minha avó. Ela não compreendia a necessidade de eu estudar, achava que eu devia ir trabalhar o mais depressa possível e ganhar dinheiro. A minha família considerava-me uma retornada que tinha andado a explorar os pretos, era assim que se dizia. Não houve aconchego nenhum da parte da minha família, exceto da prima minha Judite.

Sobreviver a isso na adolescência é brutal, não é?

É brutal. Lembro-me de ter 14 ou 15 anos e estar numa eira em Alcobaça, ao sol no inverno, a pensar sozinha: isto um dia vai melhorar, um dia os meus pais hão de vir, é preciso esperar. Eu era uma miúda bem formada, tinha consciência de que as coisas não duram sempre, nem para o bem nem para o mal, e que era necessário esperar.

Essa consciência vinha do corte que tinha vivido?

Se calhar. Estava a aprender. Talvez tenha que ver com o facto de eu ser uma miúda que lia muito.

Onde encontrava os livros?

Na Biblioteca Itinerante da Gulbenkian em Lourenço Marques. Existiriam com certeza outras bibliotecas, mas eu não as frequentava. Frequentava a carrinha que parava em frente ao jardim da casa onde morava, todas as semanas. Ia buscar os livros, pedia conselhos à bibliotecária responsável ou então escolhia pelos títulos ou pelas capas. Lia muito.

Era muito miúda nessa altura, veio para Portugal antes de fazer 13 anos.

A literatura era muito importante para mim, formou-me. Essa coisa da esperança, de saber esperar, está muito relacionada com o que lia, o Charles Dickens, os russos, que têm uma literatura muito moral, de saber esperar, de ser forte, resiliente, ter esperança, ter perseverança. Fui buscar essas coisas aí e também à educação católica. Tenho uma educação tradicional, os meus pais eram muito católicos.

Hoje é católica?

Sou uma católica misturada, também sou um bocadinho budista, isto e aquilo, vou buscar muitas coisas. Mas sou uma pessoa religiosa. Rezo o pai-nosso e a ave-maria e faço pedidos à ordem divina, que eu não sei qual é.

Tem um nome, uma face?

Não. Faço pedidos aos meus ancestrais, aos que vieram antes de mim, aos meus anjos da guarda, àqueles que sei que olham por mim. Sei que há uma coisa mística, invisível, que toma conta de mim, peço ajuda e agradeço quando o meu pedido é concedido. E agradeço mesmo que não seja concedido. Acredito que há qualquer coisa acima de mim. Esforço-me por ser o mais cristã que puder, esse é o meu molde, o meu modelo.

Nos seus livros, o seu pai é uma figura de amor e ódio, há um amor profundo, sensual, físico, e uma rejeição.

Não diria que há ódio contra o meu pai, há sempre amor. O que há é revolta, recusa, discordância, necessidade de exposição e de acusação de uma atitude com a qual eu não posso concordar. Aquele homem que me deu uma educação cristã tem de ser coerente, mas não é e não lho perdoo. No Caderno de Memórias Coloniais exponho-o e acuso-o.

Mas tem uma sensação de culpa, sente que está a traí-lo.

Sinto-me culpada porque é o meu pai. Estou a expor a pessoa que mais amei. Sinto que estou a fazer uma coisa profundamente cruel com ele, mas preciso de fazê-lo para poder olhar para ele e perdoar-lhe o que foi, o seu pensamento colonial e racista de que eu discordava totalmente.

É uma rejeição quase intuitiva?

Completamente. Se o meu pai estivesse sentado à minha frente hoje, estaríamos os dois a ter esta mesma conversa e eu estaria de novo a discordar dele. Não podia concordar, ele tinha um pensamento Estado Novo, colonial, civilizador. Não achava que os negros fossem inferiores a nós, mas sim que cultura deles não era a cultura certa, era a errada, não prestava, tinha de ser a nossa, a europeia. O que ele estava a fazer em África era civilizar os pretos, como ele dizia, a ensiná-los a trabalhar, a ser europeus. Era a última coisa que eles queriam ser, queriam continuar com a sua cultura. Na sua missão civilizadora por vezes era mais brutal do que eu podia tolerar. A minha memória de violência da infância tem sempre que ver com a relação do meu pai com os empregados.

Não é consigo a violência?

Não. A maior parte das pessoas tem memórias de violência relacionadas com discussões familiares. O meu pai e a minha mãe davam-se maravilhosamente, havia uma total harmonia em casa. Nunca discutiram à minha frente, gostavam um do outro. A violência existia na relação entre o meu pai e os empregados, aquele safanão, aquele empurrão, aquele pontapé, aquela palavra feia, grossa e dura.

Discutiu isso com ele ou achou que não valia a pena?

Eu discuti isso com ele mas essas discussões acabaram sempre mal, com o meu pai a dizer-me coisas violentas e eu a ter de me calar, porque ficava muito irritado comigo.

Refere-se ao tempo em que era criança, em Moçambique?

Não, quando eu era criança não tinha poder. Quando eles voltaram e tive essas conversas, tinha de me calar porque percebia que era, política e ideologicamente, uma desilusão tão grande para o meu pai. Calava-me por respeito e amor. Era um confronto demasiado violento. Foi esse o motivo por que saí de casa. Eles não queriam que saísse mas eu não aguentava mais o confronto permanente.

E a sua mãe?

A minha mãe era uma racista passiva, não tinha atitudes violentas mas não posso dizer que não fosse racista. Claro que era e claro que tinha a sua relação de superioridade com os criados negros. Impedia-me de brincar com as outras crianças. Mas era uma mulher e as questões de género eram importantes na época.

Não era uma coisa afirmativa?

Não. Os portugueses foram e são muito racistas, generalizadamente. Há um racismo de bastidores, desde o privado, íntimo, lá de casa, que não se traz para a rua mas está na cabeça de cada pessoa. Na cabeça dos meus vizinhos, dos seus. Esse racismo está lá sempre e as pessoas mantêm-se caladinhas, não dizem nada, se aqueles que consideram diferentes - os negros, os ciganos...

... se estiverem "no seu lugar"?

Sim, se estiverem calados e se mantiverem "no seu lugar". A partir do momento em que se manifestam eles mostram o seu racismo.

Quando começam a namorar alguém da família?

Exatamente, ou se vierem viver para o nosso prédio. Imediatamente a vizinhança começa a criticar coisas que não criticaria a uns vizinhos da mesma raça, a não tolerar um barulhinho ou que o cão ladre. Aqueles vizinhos começam logo a dar mais problemas. É muito interessante observar como o racismo acontece em Portugal.

Sentiu rejeição por ser retornada?

Senti, sim, tive necessidade de esconder que era retornada, para não estar sempre a ser confrontada com essa mácula de ter sido exploradora colonizadora. Deixei de usar as roupas que trouxe de África, não dizia que era retornada. Mas não sabia nem sei o que é ser negro. Nós éramos os maus da fita, roubávamos o trabalho aos que cá estavam, recebíamos subsídio do IARN [Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais], tínhamos direito a subsídios para formar empresas, coisas que os portugueses não tinham.

Acha que isso está resolvido?

Agora sim. Acho que os retornados foram muito importantes para Portugal. Nós sentimos necessidade de nos metermos pelos bastidores e pelos túneis, desaparecer. Noto que há muitos retornados aqui em Almada, pelos nomes das empresas - Churrascaria Luanda, Restaurante Moçambique. Percebi que muitos dos meus colegas professores eram descendentes de pessoas que vieram de África. As pessoas misturaram-se, fizeram a sua vida, desapareceram, deixaram de ser conotadas.

Deixou de haver esse estigma?

A partir de meados dos anos 1980, os retornados deixaram de ser falados.

O que trouxeram a Portugal? Vieram colorir o cinzentismo disto?

Os retornados trouxeram a ausência de medo, uma enorme abertura ao mundo, uma atitude empreendedora (eu sei que esta palavra é horrível). Quem estava em África teve sorte. Eu tive sorte porque as meninas da minha idade em Portugal não iam à escola se não tivessem a classe social certa. Uma filha de um eletricista fazia a terceira ou a quarta classe com uma regente e ia trabalhar. Em Moçambique, nós íamos à escola e o objetivo era chegar o mais alto e o mais longe possível. Nós trouxemos isto.

Essa ousadia?

Em Portugal havia muito preconceito e medo, as pessoas tinham vergonha de tudo. Eu saía à rua a comer uma maçã e era uma vergonha, e se fosse uma banana era a indecência total. Para mim era totalmente normal. Ou sentar-me na rua como estamos aqui sentadas, descontraidamente. Os retornados trazem essa enorme ousadia, essa coragem, essa abertura, essa vontade de fazer, e penso que isso influenciou os tempos de hoje. À distância de 40 anos, vemos que houve mudanças. Se procurarmos bem a origem da maior parte das pessoas em destaque na gestão cultural, na política, na literatura, na arte, percebemos que vieram de Angola ou de Moçambique. Havia uma raiva qualquer. A raiva é uma grande qualidade, quando conseguimos dirigi-la para o bem é ótima porque nos leva a trabalhar, a transformar, a ir para a frente, a ter força. Nós tínhamos essa raiva. Quando chegámos e nos acusaram e disseram para estarmos caladinhos - "não nos interessa que tenham sido chacinados, que os vossos amigos tenham sido mortos" - sentimo-nos ostracizados, e essa raiva ficou a trabalhar e levou-nos a fazer mais.

Quando chegou cá sentiu que os homens estavam todos vestidos de escuro?

E as mulheres! Nunca fui à Albânia mas imagino que seja um país muito atrasado - peço desculpa aos albaneses, porque se calhar não é verdade. Digo "Portugal parecia-me a Albânia", porque era tudo cinzento, escuro, com medo de tudo, muita vergonha. A importância das aparências!

É muito afirmativa na questão do corpo, da sensualidade. É inato em si ou foi uma aprendizagem?

Penso que é inata e que tem a ver com a relação com o meu pai. Era uma relação física, não incestuosa, mais com o meu pai do que com a minha mãe. É muito estranho para mim porque saí de dentro da minha mãe e, no entanto, não tive a proximidade com o corpo dela como tive com o do meu pai. Lembro-me do corpo da minha mãe já velho, porque tive de cuidar dela, lavá-la, massajá-la, pôr cremes. Não me lembro do corpo da minha mãe jovem, lembro-me do corpo jovem do meu pai, e é uma memória sensual. Não incestuosa mas sensual.

Isso sente-se nos dois livros.

A pele do meu pai, as pernas, os pés, as mãos, a barriga, a cara, tudo no corpo do meu pai. Ele permitia que eu explorasse o corpo dele, deitava-se a descansar em cima da relva e eu podia andar de volta dele a puxar-lhe as orelhas, a mexer-lhe no cabelo, ele dizia "está quieta, miúda, que me estás a fazer cócegas". Houve aí uma abertura minha, uma relação boa com o corpo do outro.

E com o seu corpo?

Com o meu corpo também.

Os seus escritos são uma afirmação do seu corpo, não concorda?

E do amor pelo meu corpo. Foram os outros que me obrigaram a sentir desgosto pelo meu corpo quando comecei a desenvolver-me. O meu pai era um homem gordo e herdei os genes ele, sou muito parecida com ele fisicamente. Sou uma mulher grande, serei sempre, não há a menor hipótese. Agora como pouquíssimo e continuo a ser uma mulher gorda. Peso 83 quilos, esse é o meu peso. Se caminhasse todos os dias uma hora, como diz o médico, talvez chegasse aos 75, mas nunca irei muito abaixo disso. O olhar dos outros sobre o meu corpo é que me fez sofrer e considerar-me feia e gorda. Sofri inutilmente, porque olho para o meu corpo e gosto dele. Sei que tenho celulite e barriga, mas gosto, acho que o meu corpo está bem, não tenho de ter vergonha. Gosto de ter corpo, o corpo dá-me prazer, e não estou só a falar de sexo, estou a falar de prazer sensual, de sentir o calor, o frio, a água, a brisa, saborear. O corpo é uma fonte de prazer.

Teve muitas reações ao facto de usar nos livros palavras que habitualmente não são escritas como foder, ainda por cima falando do pai, "o meu pai gostava muito de foder"?

Isso foi criticadíssimo. Não é só escrever as palavras, é ser uma mulher a escrevê-las. Fui muito criticada nos fóruns dos jornais pelos leitores, na escola pelos meus colegas. A pouca família que se relaciona comigo ignora que sou escritora, ninguém fala disto. Digo que vou a Paraty, Brasil, a uma feira literária, e dizem "que bom, vais viajar". Acham que vou passear. Para a minha família, eu não sou escritora, sou uma pessoa que faz viagens, o assunto escrita é um tabu.

Voltou a Moçambique?

Voltei em 2016, na passagem de ano.

O que encontrou?

Encontrei uma cidade africana cuja geografia conheço mas cujo ambiente desconheço completamente. Encontrei um sítio diferente daquele de onde saí. Sofri bastante neste regresso a Moçambique, 41 anos após a minha saída. Resolve ir de ímpeto porque sonhei que estava na cidade e a adorar estar lá, fascinada. Acordei e disse: tenho de resolver isto na minha cabeça, não posso andar com esta coisa de ser portuguesa ou ser moçambicana, a sonhar com Lourenço Marques. Fui à internet e comprei uma viagem, na manhã seguinte, sem saber onde ia ficar. Depois arranjei uma casa, arranjei contactos. Queria ver o lugar de onde tinha saído, onde tinha passado a minha infância. Esperava ver um país novo, sem colonialismo, uma coisa melhor. E descobri que a geografia era a mesma, mas a minha terra, na verdade, era o colonialismo, era toda aquela cultura.

Já tinha escrito os dois livros?

Já. Descobri que nasci portuguesa, numa redoma de cultura europeia e portuguesa, esta e a minha língua materna. E que tudo o que era africano estava à nossa volta para nos servir. Servíamo-nos daquilo mas não éramos africanos. Havia influências, uma osmose entre o ambiente africano e o ambiente europeu. Descobri em Moçambique que sou portuguesa. Não sou moçambicana, sou portuguesa, europeia. A cultura africana que lá existe não é a minha. Senti uma enorme estranheza. Também senti uma infelicidade ao perceber que o colonialismo português foi substituído por outros colonialismos, sul-africano, chinês, todos os colonialismos que estão a aproveitar-se da enorme riqueza que existe em Moçambique. Descobri que o poder colonial foi substituído por um poder local africano que despreza a classe baixa, como antigamente os portugueses desprezavam os negros. Neste momento, são os negros que oprimem os negros. Continuamos a ter uma situação de ditadura e de opressão e as pessoas têm medo de falar e de ser assassinadas. Continua a existir uma terrível sociedade de classes, com muita pobreza, muita miséria. Foi difícil. Estive lá um mês, todos os dias desejando regressar e todos os dias dizendo a mim mesma "tens de aguentar, vieste, aguenta".

Está a escrever? Um livro de contos?

Vou fazer uma residência literária em Berlim em outubro e tenho um projeto para escrever um livro de contos. Não vou escrever tudo lá, apenas um conto de um livro que terá dez. Esse projeto não é o principal, porque estou a escrever o próximo romance que espero editar no final do ano.

Quer falar desse livro?

Não, porque sou supersticiosa. Vou continuar a investir nele e a dizer nele o que preciso de dizer sobre a nossa sociedade, a nossa cultura, a forma como somos pequenos julgando que somos muito grandes, a forma como afinal somos grandes mas não da maneira que julgamos. Não quero trair o amor dos meus leitores.

Os leitores ficam com expectativas?

Os leitores tratam-me muito bem. A crítica literária pode ter desconfiança em relação a mim pela minha origem ou porque tenho "uma escrita jornalística", coisa com que não concordo nada. Sei muito bem o que escrevo, sei o que faço, conheço o meu trabalho. Há uma expectativa dos leitores e eu gosto deles e tenho muitas coisas para lhes dizer. Quero dar-lhes a melhor mensagem possível, escrita da melhor forma possível.

Como escreve? No computador? Tem um plano à partida?

Eu vejo muito mal. Não dou aulas há quatro anos e estou à espera da reforma. Tive descolamento de retina bilateral e tenho degenerescência macular nos dois olhos.

Isso é herdado do pai? Tenho ideia de ter lido sobre isso num dos seus livros.

É herdado do pai, que tinha herdado da minha avó. Estou à espera da junta médica da Caixa Geral de Aposentações e espero que os médicos me reformem porque de um lado não vejo nada, não tenho visão central, e do outro lado acabei de levar uma injeção intraocular porque já estou com a degenerescência macular em evolução, com uma lesão.

Como é o seu processo de escrita?

Escrevo no Word com as letras muito ampliadas. Imprimo tudo, leio e faço correções de lado. Uma ex-aluna que anda na universidade faz o das alterações, entrega-me o ficheiro, releio, faço novas alterações, ela volta a tratar. É sempre este processo. Quando sinto que está numa fase final peço que me leiam em voz alta. A leitura em voz alta é muito importante porque percebo as repetições, as pausas, o ritmo. A frase tem uma fluência, uma cadência, aquilo tem de funcionar, eu tenho de gostar do que estou a ouvir. Normalmente, é um amigo que me faz essas leituras, escreve as correções, e volto a entregar aquilo à minha ex-aluna, a quem pago, ela não é explorada. Quando acho que aquilo está a jeito, entrego ao meu editor, Zeferino Coelho, que me começa a dar na cabeça e a dizer: "Mas você quer mesmo dizer isto? É mesmo esta a palavra que quer usar? Isto aqui não me parece muito bem." Depois faz a edição dele, mas não muda muita coisa. É um excelente editor.

Como foi parar à Caminho? Já tinha publicado o Caderno de Memórias Coloniais noutra editora.

Tinha publicado na Angelus Novus, uma editora pequena de Coimbra. O livro não era distribuído mas é muito estudado nas universidades, por causa da questão pós-colonial. Eu recebia e-mails de pessoas a perguntar como arranjá-lo. Quando acabei o contrato com a Angelus Novus disse-lhes que não queria continuar e fui à procura de um novo editor. Falei com três editores e todos me queriam. O último foi o Zeferino Coelho. Bati à porta, disse: "Sou esta fulana, publiquei este livro e gostava de reeditá-lo. Quero reescrevê-lo, quero pôr um prefácio, quero dar-lhe mais-valias." Para reeditar um livro que já teve cinco edições temos de dar alguma contrapartida.

Teve cinco edições na outra editora?

Na Caminho fez a sexta edição e já está na oitava. Tinha para oferecer um livro rescrito, com novos capítulos e com prefácios. Não eram quaisquer prefácios - queria um prefácio do José Gil, uma garantia de qualidade, e da [escritora] Paulina Chiziane, moçambicana. Gostei do Zeferino Coelho, ele tem uma relação muito paternal comigo. Eu tenho vontade de escrever para lhe agradar. Às vezes estou a escrever e penso: "Será que ele vai gostar disto? Será que se vai rir ou que me vai dar na cabeça? Quero agradar-lhe, como se ele fosse meu pai, fazer coisas bonitas para ele gostar, para ele ficar feliz." É verdade. Fiquei na Caminho e estou muito feliz.