Jornadas com as estrelas

Kim Novak, superestrela do cinema, louríssima, toda de vermelho e alucinantemente linda, passou por minha mesa na entrada da boate Canecão. Era novembro de 1967. Ao me ver, sorriu e disse: "Hello, Ruy."

Não, não foi um sonho. Kim Novak estava no Rio como convidada de um festival internacional da canção, uma das doenças brasileiras daquela época. Dois dias antes, ela desembarcara no Galeão, vinda de Los Angeles. Eu era um dos repórteres que tinham ido recebê-la no aeroporto. Kim fora levada a uma sala do aeroporto onde falaria connosco. Sendo ela quem era, a conversa só trataria de cinema, claro, e devo ter chamado a sua atenção por ser o único ali a me referir a seus filmes pelos títulos originais em inglês - Picnic (Piquenique), Pal Joey (O Querido Joey), The Man with the Golden Arm (O Homem do Braço de Ouro) e, o maior de todos, Vertigo (A Mulher Que Morreu Duas Vezes). Louco por cinema, eu sabia de cor até o nome dos assistentes de fotografia dos filmes, quanto mais os seus títulos originais.

Kim pode ter gravado meu nome ["Hooey"!] quando me apresentei ao fazer a primeira pergunta na conferência de imprensa. É o que explica que, ao passar por mim na entrada do Canecão, na noite de abertura do festival, tenha me reconhecido e chamado de Ruy. As pessoas que estavam comigo na mesa quase caíram para trás - eu também quase caí para trás.

Mas o flirt ficou por ali mesmo porque, antes que terminasse de pronunciar o y, Kim foi abduzida pela multidão que a esperava e, de onde eu estava, só via agora a rajada de flashes dos fotógrafos sobre ela. E, depois daquele momento, nunca mais a vi - nem mesmo no cinema, porque, aos 34 anos, ela se deixou eclipsar aos poucos e se transferiu para uma confortável zona fantasma na televisão. Eu não sabia ainda que, na vida real, Kim era a atriz mais insegura do mundo. Ia apavorada para o estúdio todos os dias, tinha medo dos repórteres. E só então entendi. A deusa que passara pela mesa de um garoto de 19 anos - eu - e o chamara pelo nome não se sentia uma deusa.

Kim Novak foi só a primeira dos muitos artistas de cinema com quem conversei - e todos me ensinaram alguma coisa. Em 1982, fiz uma breve entrevista em São Paulo com Sylvia Krystel para a Playboy. Sylvia estava no Brasil para o lançamento do seu filme O Amante de Lady Chatterley. Em 1974, ela estrelara o escandaloso Emmanuelle, em que mal dizia uma palavra e passava mais tempo nua do que vestida. Nunca mais se livrara dos pornôs de luxo.

Ela me recebeu no jardim de uma casa no Morumbi, alugada pelo exibidor. Ali, sentada a uma cadeira de espaldar alto, muito pálida, vestindo um longo e espesso camisolão de mangas compridas - apenas o rosto e as mãos de fora -, tomando chá e roendo uma rosca, Sylvia podia ser tudo, menos Emmanuelle. Respondeu pacientemente a uma série de perguntas bobas sobre se gostaria de fazer melhores papéis - "Oui, bien sûr, Bovary, Daisy Buchanan, Lady Macbeth" -, como se o próprio papel que ela acabara de fazer, Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, não fosse sério. Mas, o que você queria? Enquanto anotava as respostas sem olhar para o bloco, eu fazia o mesmo que todos os homens que viam Sylvia Krystel em pessoa. Despia-a mentalmente. E, pensava eu, era talvez o que seus produtores quisessem de nós, ao cobri-la e escondê-la daquele jeito. Sylvia morreria em 2012, aos 60 anos, de câncer. Soube-se depois que ela tinha um QI de 164 e desprezava os filmes que fizera. Mas via com serenidade a sua passagem pelo cinema: "Eu era uma fantasia muda."

Mas, para mim, nada superou meu encontro com Dennis Hopper, o astro de Easy Rider (Sem Destino), de 1969. Durante décadas, Hopper foi sinónimo de álcool, cocaína, LSD, comprimidos, orgias, bordéis de aves, etc. Mas, à beira do abismo, dera-se conta de que, a continuar nessa batida, não duraria muito - e conseguiu parar com tudo. Em 1984, quando veio ao Brasil para o lançamento de seu filme Juventude Inquieta, de Francis Ford Coppola, estava zerado em termos de substâncias. Meu jornal, a Folha de S. Paulo, convidou-o para uma palestra em seu auditório e, depois, uma entrevista.

Naquele tempo, ao fim do trabalho, os jornalistas brasileiros ainda faziam um estágio de algumas horas nos bares da cidade antes de ir dormir. E, como preferiam bebidas mais fortes do que Ovomaltine, isso contribuía para a nossa reputação boémia - para a qual eu contribuía com certa ênfase. Um dos pousos tardios dos repórteres da Folha era o bar do hotel Jandaia, a 50 metros do jornal. Tinha a vantagem de permitir que se começasse a beber assim que se saía da redação e a desvantagem de ficar perigosamente à mão em caso de emergência.

Foi o que aconteceu naquela noite. Um paquete foi me comunicar que eu deveria voltar ao jornal. O repórter encarregado de entrevistar Dennis Hopper desaparecera, e alguém sugerira que eu fosse pescado no Jandaia para conversar com o homem.

Bem, ordens são ordens. Descemos as escadas do bar - eu e as cinco ou seis vodcas que já tinha tomado nas duas horas anteriores - e fui para o sacrifício. Lá chegando, logo vi Hopper - fresco, rosado e saudável, a antítese do homem que já cometera todos os excessos do mundo. Apresentei-me. Hopper me olhou de cima a baixo com ar maroto. E o que me falou, pelo inusitado - não da frase, mas por quem a dizia -, fez que explodíssemos numa gargalhada.

"Gee, man, easy!" - ou "Xi, cara, modere-se!".

Era a glória - ouvir de Dennis Hopper um conselho de moderação.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Bilac Vê Estrelas (Tinta da China).

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