Inédito. Mulheres e minorias étnicas em maioria entre os candidatos democratas

Em causa, as eleições intercalares de 6 de novembro que prometem mudar o Congresso. A lusodescendente Lori Trahan no Massachusetts é o último exemplo de uma mulher a vencer a nomeação. Desta vez a um coreano-libanês.

Alexandria Ocasio-Cortez quer tornar-se a mais jovem mulher no Congresso. Aos 28 anos, esta filha de uma porto-riquenha nascida no Bronx já causou surpresa ao derrotar em junho o veterano Joseph Crowley nas primárias democratas para o 10.° distrito de Nova Iorque. Latina e socialista, promete revolucionar um partido que pela primeira vez na sua história tem mais mulheres e representantes das minorias étnicas do que homens brancos nos candidatos às eleições intercalares de 6 de novembro. Um grupo que promete mudar a composição do Congresso na segunda metade do mandato do presidente Donald Trump e influenciar o resultado das presidenciais de 2020.

Segundo as contas do Politico , os democratas nomearam 180 mulheres para as primárias da Câmara dos Representantes, muito acima das 120 do recorde anterior. O partido teve ainda 133 candidatos de uma minoria étnica. E, ao todo, 158 estreantes.

O objetivo é claro: reformar o Congresso e tornar mais difícil para Trump impor as suas políticas. Neste momento, os republicanos do presidente dominam tanto a Câmara dos Representantes como o Senado. E se ainda falta o veredicto das urnas (um escrutínio em que também nos republicanos o número de mulheres bateu recordes, com 52 candidatas à Câmara), tudo indica que em 2019 se assista à eleição de um Congresso mais diverso e feminino. Neste momento, as mulheres só representam 20% dos congressistas (107 em 535) e 23% dos senadores. E se o 115.º Congresso dos EUA, que tomou posse em janeiro de 2017, até foi considerado o mais étnica e racialmente diverso, a verdade é que, mesmo contando com ambas as câmaras, tem só 19% de não brancos (negros, hispânicos, asiáticos e nativos americanos, que juntos representam 39,5% da população americana).

"Estes candidatos vêm de grupos não políticos, não tradicionais, e estão a fazer campanha de uma forma que nunca vimos", disse ao Politico a consultora democrata Martha McKenna, referindo-se aos estreantes. "A forma como estes novos candidatos vão governar também será diferente de tudo o que vimos até agora", concluiu.

"A forma como estes novos candidatos vão governar também será diferente de tudo o que vimos até agora"

Não é só no Congresso que as mulheres batem recordes. Até agora, são já 15 as nomeadas pelos dois partidos para governadora, mais cinco do que o número mais alto numa eleição anterior - em 1994. A última a obter a nomeação foi a democrata Molly Kelly, no New Hampshire, no dia 12. E o número só não é maior porque a antiga atriz de O Sexo e a Cidade Cynthia Nixon falhou frente a Andrew Cuomo em Nova Iorque.

Estrelas da companhia e uma lusodescendente

Além de Alexandria Ocasio-Cortez, outra estrela da companhia democrata é Ayanna Pressley. Em setembro, a afro-americana de 44 anos derrotou Michael Capuano, um congressista que já serviu dez mandatos como representante do Massachusetts. Mais um homem branco.

Nesta terça-feira dia 18, a lusodescendente Lori Trahan confirmou a vitória sobre Daniel Koh, outro homem, mas este de origem coreano-libanesa. E pode tornar-se na primeira mulher de origem portuguesa no Congresso dos EUA.

"Trump não está preparado para lidar com uma rapariga do Bronx", afirmava Ocasio-Cortez numa passagem pelo programa de televisão humorístico The Late Show with Stephen Colbert. E numa mensagem publicada na sua página do Facebook, a ativista garantia em junho: "Não é suposto as mulheres como eu candidatarem-se a cargos públicos."

Veja o vídeo de Alexandria Ocasio-Cortez no The Late Show with Stephen Colbert:

Depois dos resultados de 2016, os democratas apostam agora numa vaga de fundo impulsionada por um grupo de candidatos diverso para levar os eleitores às urnas em novembro. Resta saber se a estratégia resulta. Há dois anos, Hillary Clinton perdeu as presidenciais para Donald Trump - apesar de ter tido mais três milhões de votos populares - muito por não ter conseguido o voto da classe média branca - 63% dos homens brancos e 52% das mulheres brancas votaram no republicano.

Com uma agenda muito progressista e a sociedade americana cada vez mais polarizada desde o início da presidência Trump, a verdade é que os democratas têm o voto das minorias praticamente garantido. Mas será suficiente? Talvez não.

Voltemos, por exemplo, a Alexandria Ocasio-Cortez. Apoiada por Bernie Sanders, o veterano socialista que ia tirando a Hillary a nomeação democrata, a ativista defende uma agenda que passa pelo acesso gratuito à saúde e à educação para todos, o reforço da função pública, o direito à habitação, medidas contra a influencia de Wall Street ou apoios aos direitos LGBT.

O desafio dos democratas de encontrar candidatos que atraiam a classe média branca sem afugentar as minorias não se limita às intercalares. Se quer tirar Donald Trump da Casa Branca em 2020, a esquerda americana terá de encontrar um candidato que faça a dobradinha. Ainda falta muito? Nem tanto. Passadas as intercalares, não se falará em mais nada e a pré-pré-campanha vai arrancar. Resta saber quem se destaca num grupo de potenciais candidatos que vai de veteranos como Sanders, Elizabeth Warren ou Joe Biden a caras novas como Cory Booker ou Kamala Harris.

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