A nova era da Champions: mais dinheiro, outros horários e o trunfo da Juventus

FC Porto e Benfica arrancam com cimeira luso-alemã numa renovada Liga dos Campeões, mais milionária a atrativa do que nunca. Confira as mudanças

De repente, parece que toda a gente se pôs a questionar os horários das coisas e a mexer com os hábitos instituídos. Na Europa política debate-se se mantemos o horário de inverno ou o de verão, mas a Europa futebolística já se antecipou nessa tendência e acabou com um dos horários mais sagrados nos hábitos dos adeptos. A partir de terça-feira, está de regresso a Liga dos Campeões, mas ao contrário do que aconteceu ao longo dos últimos 20 anos os jogos já não vão mais começar às 19.45, hora portuguesa. A partir deste ano, há dois novos horários para os jogos da Champions: 17.55 e 20.00. E esta é apenas uma das novidades nesta nova era da competição, que distribui mais dinheiro do que nunca pelos 32 clubes envolvidos. Entre eles voltam a estar FC Porto e Benfica.

Se os horários são a novidade que mais afeta os adeptos do Velho Continente (para os adeptos portugueses há outra, relacionada com os direitos televisivos, mas a isso já lá vamos), para as equipas em prova o tema mais aliciante desta renovada Champions tem que ver com o dinheiro. A liga milionária está mais milionária do que nunca, com a UEFA a abrir ainda mais a torneira dos milhões: ao todo, são 1900 milhões de euros a distribuir entre os participantes, num aumento de mais de um terço em relação ao passado. O que faz que a presença na fase de grupos seja cada vez mais fundamental para as boas contas dos clubes.

As regras de distribuição são algo complexas, introduziram um ranking histórico dos últimos dez anos como fator de ponderação, mas o aumento das receitas é considerável. Focando-nos nos clubes portugueses, o campeão nacional, FC Porto, que teve entrada direta, e o vice-campeão, Benfica, que teve de ultrapassar duas eliminatórias de acesso, asseguraram já quase 45 milhões de euros pela presença nesta Liga dos Campeões (44 para os dragões, 43 para as águias), somando os 15,25 milhões de euros que agora vale a entrada nos grupos ao tal prémio conferido pelo ranking acumulado por cada um nas últimas dez temporadas (o FC Porto está ligeiramente acima, em 8.º, enquanto o Benfica é 10.º). A partir daqui,tudo passa a valer mais dinheiro também: os pontos (900 mil euros), as vitórias (2,7 milhões), a qualificação para os oitavos (9,5 milhões) e todas as etapas sucessivas até à final, em que o vencedor do troféu embolsará 19 milhões de euros mais. Dinheiro a rodos que torna ainda mais importantes as disputas que vão acontecer nos relvados.

Alemães, para começar

Numa era em que o acesso das equipas portuguesas também se dificultou (entrada direta apenas para o campeão e o vice-campeão a ter de passar por duas eliminatórias), FC Porto e Benfica partem, como habitualmente, com os oitavos-de-final como meta mínima - e com a missão de cuidar do ranking português na UEFA (atualmente 7.º), sob pena de dificultar ainda mais o acesso aos milhões no futuro.

O arranque faz-se em alemão, para ambos. Na terça-feira, o FC Porto desloca-se a Gelsenkirchen, onde em 2004 ganhou o segundo título de campeão europeu, para defrontar o Schalke04, em jogo do grupo D, onde os dragões ficaram inseridos. No dia seguinte, quarta-feira, é a vez de o Benfica entrar em ação, recebendo no Estádio da Luz o hexacampeão alemão Bayern de Munique, o grande favorito do grupo E.

À partida, só o facto de os encarnados terem no mesmo grupo o colosso bávaro parece dificultar um pouco mais a missão do Benfica do que a do FC Porto, inserido num grupo "aberto" em que não é, teoricamente, inferior a nenhum adversário. Mas, já se sabe, a teoria não vale pontos e o que conta é que acontece quando a bola começar a rolar, a partir de terça-feira.

No grupo D, além do Schalke04 (um dos últimos da atual Bundesliga, com três derrotas em três jornadas), o FC Porto ainda tem como adversários o campeão turco, Galatasaray, treinado pelo conceituado veterano Fatih Terim, e o campeão russo, Lokomotiv de Moscovo, onde atuam os portugueses Manuel Fernandes e Eder, o herói da final do Euro 2016. O técnico portista Sérgio Conceição já admitiu que gostaria de melhorar a campanha da época passada, na qual os azuis e brancos caíram nos oitavos-de-final, aos pés do que seria o finalista vencido, Liverpool, e os três adversários desta fase parecem pelo menos abrir boas possibilidades de voltar a chegar a essa eliminatória. De dragão ao peito, Iker Casillas vai poder continuar a aumentar a lenda do jogador com mais partidas realizadas na prova (167 até agora).

Já o Benfica parte para o grupo E com um primeiro trauma a ultrapassar: o da pior campanha de sempre de um clube português na prova, protagonizada pela equipa de Rui Vitória na época passada, quando terminou último do seu grupo sem qualquer ponto conquistado. Agora, além do Bayern (que proporciona o regresso de Renato Sanches à Luz), as águias vão ter de esgrimir argumentos com a fornada de novos talentos do Ajax - onde desponta um tal de Frenkie de Jong, já anunciado nas redes sociais como o farol à volta do qual há de reerguer-se o futebol holandês - e com os gregos do AEK de Atenas, onde jogam os portugueses Hélder Lopes (que tem de cumprir quatro jogos de suspensão) e André Simões. Outra campanha desastrada como a da temporada passada seria bastante difícil de engolir na Luz.

O fator Ronaldo

À margem dos clubes portugueses, há um outro nome português a captar as principais atenções da prova. E quem mais poderia ser senão Cristiano Ronaldo, naturalmente? O goleador máximo da história da Liga dos Campeões (120 golos), melhor marcador das últimas duas edições (e de seis no total), único jogador pentacampeão da prova, vencedor consecutivo das três últimas edições (e um sem-fim de outras honrarias que o tornam único na história da Champions), resolveu trocar o Real Madrid pela Juventus com um objetivo principal em mente: levantar mais uma vez a orelhuda, a 1 de junho, no Wanda Metropolitano de... Madrid, ajudando a equipa de Turim a regressar ao topo da Europa ocupado nos últimos tempos pelo Real, de onde saiu com uma sensação de "injustiçado" para vingar.

À partida, no entanto, as casas de apostas apontam o Manchester City de Pep Guardiola como o favorito à vitória final, o que, a confirmar-se, permitiria coroar por fim o milionário ciclo de assalto ao topo do futebol europeu por parte da família real do Abu Dhabi, que tomou as rédeas do clube há dez anos.

A revolução televisiva

Terminamos como começámos: com uma novidade que promete alterar os hábitos dos adeptos portugueses a partir desta edição da Liga dos Campeões. Com os direitos de transmissão televisiva assegurados pela Eleven Sports, que este ano entrou em força no mercado audiovisual nacional, o acesso aos jogos da Champions na TV por cabo ficou dificultado para a maioria dos portugueses.

Com os canais Eleven Sports apenas disponíveis na operadora Nowo, que no final do ano passado tinha uma quota de mercado de apenas 4,7%, segundo dados da Anacom, os clientes de Meo, NOS e Vodafone ficam restringidos a um jogo por jornada em sinal aberto (cláusula obrigatória), que nesta época passará a ser transmitido na TVI. Para os restantes jogos, terá de fazer a subscrição digital (PC, tablet, smartphone) da Eleven Sports, ou assinar o seu novo serviço de IPTV, enquanto as negociações do canal, liderado em Portugal pelo ex-apresentador e ex-diretor de comunicação da UEFA Pedro Pinto, com as outras três operadoras (que integram o capital social da SportTV) não conhecem desfecho positivo.

Para já, o Schalke04-FC Porto, terça-feira, às 20.00, é o jogo da primeira jornada que os portugueses poderão ver em canal aberto. Pode voltar a tocar o hino da Champions (esse não muda... pelo menos para já).