Verão com menos 128 mil turistas estrangeiros

O turismo nacional foi contaminado pelos efeitos do Brexit. Menos 81 mil britânicos fizeram férias de verão em Portugal.

Portugal recebeu, este verão, menos 128 mil turistas estrangeiros do que no mesmo período do ano passado, uma quebra justificada em grande medida pela perda de turistas provenientes do Reino Unido. Do mercado britânico vieram menos 81 mil turistas. Ao todo, entre junho e setembro, visitaram o país 5,5 milhões de estrangeiros, menos 2,2% face ao período homólogo de 2017, de acordo com os dados ontem publicados pelo Instituto Nacional de Estatística. A descida não se materializou numa quebra dos proveitos da hotelaria, que viu as receitas aumentarem para 1,7 mil milhões de euros, mais 4,4%, graças aos turistas portugueses.

O número de dormidas de estrangeiros segue a linha descendente da procura, ou seja, nos quatro meses de verão registaram-se cerca de 18,2 mil milhões de dormidas de não residentes, uma quebra de 4,8% quando comparado com o mesmo período do ano passado (menos 934 mil dormidas). A recuperação dos mercados do Mediterrâneo Oriental, norte de África e o Brexit terão contribuído para a diminuição do número de turistas estrangeiros.

Se houve menos 81 mil turistas britânicos neste período, registou-se também menos 40 mil alemães e quase 30 mil franceses. Dos principais mercados emissores tradicionais, só Espanha apresenta uma performance positiva, com mais dois mil turistas.

Já o número de hóspedes global (internacionais e nacionais) cresceu 0,2% no verão, atingindo 8,9 milhões. O número de dormidas global foi de 26,5 milhões, um aumento de 2%. Ou seja, são os portugueses que estão a encher os hotéis.

Concorrência em alta

Segundo Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), há "duas razões" para a descida no número de turistas estrangeiros: "A recuperação dos mercados concorrentes que tinham sido afetados por situações de instabilidade política - Turquia, Tunísia, Egito - e o Brexit, de que não se pode dissociar a desvalorização da libra face ao euro." Como sublinha, "o principal mercado externo, que é o britânico, viu o seu poder de compra afetado e, em simultâneo, viu aumentar o preço das férias".

O responsável da AHETA lembra ainda que os destinos do Mediterrâneo Oriental praticam preços "muito mais baixos" do que em Portugal, "quase cinco vezes mais baixos", matéria a que se soma a relevância dos operadores turísticos tradicionais nestes mercados. Elidérico Viegas frisa que se Portugal não está a ser mais afetado deve-se à tendência do traveling independently. Como sublinha, "os voos regulares low-cost que o país tem para o centro e norte da Europa têm ajudado a esbater as quebras na procura".

Também Joaquim Ribeiro, vice-presidente da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), recorda que "o mercado português viveu um período de expansão", impulsionado em parte pela quebra dos mercados concorrentes do Oriente e do norte de África, mas que se sabia "iriam recuperar". No entanto, realça que regiões como o norte continuam a crescer e que é "imperativo a abertura do futuro aeroporto de Lisboa". "Há voos a ser recusados por falta de slots e, acredito, se tivéssemos essa capacidade aeroportuária a funcionar não teríamos esta quebra."

Crescer em valor

Ana Mendes Godinho, secretária de Estado do Turismo, prefere sublinhar que, "em termos acumulados, a receita turística está a crescer 12,2%, a um ritmo muito mais acelerado do que a evolução de turistas estrangeiros, o que significa que estamos a conseguir crescer mais em valor e a atrair turistas que gastam mais no território". E destaca os 11,1 mil milhões de euros registados em proveitos turísticos (todos os gastos dos turistas estrangeiros) nos primeiros oito meses do ano. Para Joaquim Ribeiro, este é um ponto essencial e um indicador positivo da atividade, pois "queremos turistas com maior poder de compra".

A governante avança ainda que as perspetivas para o transporte aéreo nos aeroportos nacionais no inverno "são de crescimento em todos eles: de 6,3% em Lisboa, de 13,5% no Porto, de 17,8% em Faro, de 14,7% no Funchal e de 9,3% em Ponta Delgada". E que o objetivo é crescer "mais em valor do que em volume e que o turismo seja cada vez mais sustentável ao longo do ano e do território". Neste capítulo, sublinha que os maiores crescimentos neste ano têm-se verificado na época baixa e que o país está a conseguir diversificar os mercados emissores, destacando os EUA (crescimento de 20,6%) e o Canadá (17%).

Para Joaquim Ribeiro, o trabalho que o país tem realizado ao nível da promoção externa, nomeadamente em mercados alternativos como os EUA, Canadá e Brasil, deve "continuar". A equação preço-procura é, no entanto, difícil de equilibrar. Como frisa Elidérico Viegas, "seria bom que fôssemos capazes de melhorar o produto e não baixar os preços, apostar em segmentos de maior poder de compra, mas isso exige ações e estratégia". Na sua opinião, "a diminuição da procura terá reflexos no volume de negócios das empresas e, em 2019, haverá uma tendência gradual de ajuste do preço à procura".

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