Quem é que entra?

Tentando explicar o Brexit ao meu filho de 6 anos, ele não teve dúvidas, percebeu tudo, talvez porque eu explicasse bem, talvez porque ele é mais esperto do que nós, que não percebemos, talvez uma conjugação das duas, parou, olhou para mim e disse "OK, pai" (ele diz muito OK, pai), e depois perguntou: "Se a Inglaterra sai, quem é que entra?" E aí está uma bela pergunta, que ninguém anda a fazer, toda a gente preocupada com a parte subtrativa da coisa, não vendo a oportunidade de ocupar os espaços vazios. Podia ser a Turquia, mas também podia ser Israel, que assim como assim já está na Eurovisão, ou até mesmo a Google.

A Inglaterra - a gente cá em casa diz Inglaterra, não diz Reino Unido, gostamos pouco de burocracia toponímica, também dizemos a América, que muito irrita os meus amigos brasileiros ou mexicanos, que respondem sempre que também são américa, claro que são, mas América com maiúsculo é a do norte, bom, mas o Canadá e o México também são do norte, é certo, e por isso teria de ser os Estados Unidos da dita, mas se assim fosse já estávamos a cair outra vez em nomes descritivos, e por isso fica América só, mas com maiúscula.

Como aquela coisa da União de Freguesias Disto, Daquilo e Daqueloutro, um exemplo de como a burocracia estilhaça a estética e de como por um consenso formal se deixam aberrações substanciais.

Claro que há nomes maiores do que certas freguesias portuguesas. Bill Bryson em Made in America: an Informal History of the English Language in the United States (1979) escreve um capítulo sobre os nomes no qual fala do lago Webster, no Massachusetts, que em 1921 passou a ter o nome menos abreviado de Lake Chargoggagoggmanchauggagoggchaubunagungamaugg, quarenta e cinco letras que não querem dizer nada, dizem que inventadas por um jornalista, mas o nome ficou, e tem piada ter o nome maior do mundo, e por isso não querem mudar. Claro que isto foi antes das uniões de freguesias, e Bryson não conhece Portugal pós-reforma administrativa de 2013. Não tendo sido feito na altura, ter de escolher um dos nomes, ou um novo nome, agora vão ter de passar séculos para que alguém admita querer prescindir, a bem da estética, de um ou dois dos nomes da união, com medo de que isso espolete uma ruandização do burgo, os Daqueloutros machadando os Daquilos.

E este texto fica mais curto, porque tive uma escritura, que foi lida, e muito bem lida, e estamos entradotes no século XXI, mas ainda se leem escrituras quando até no barbeiro se fala de blockchain. Enfim assim será por muitos anos. A não ser que com a saída de Inglaterra entre a Google na União Europeia.

Advogado

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