O populismo alt-right à portuguesa e a justiça

Desengane-se quem pensa que existe alguma preocupação com o bom funcionamento da justiça das pessoas que disseram que os ataques a Neto de Moura visavam pôr em causa a independência do poder judicial.

Alguns cidadãos, albergados no projeto político Observador, viram no clamor público contra Neto de Moura uma campanha encapotada contra a justiça. A coisa foi um bocadinho disfarçada, mas não muito. Escreveu-se e disse-se que sim, claro, que o que o ainda juiz escreveu era inaceitável, mas - e na adversativa estava a mensagem essencial - que os ataques de que foi alvo visavam o edifício judicial. Todas as pessoas que não estão envolvidas diretamente no processo político (humoristas, atores e comentadores de jornais) e que se insurgiram contra Neto de Moura foram tratadas por idiotas úteis. Os outros fazem parte duma conspiração sinistra contra a justiça.

O discurso não é o novo, é aliás repetido incessantemente. A justiça está sob ataque porque está a pôr em causa uma entidade vaga que o ativista Rui Ramos, toda a santa semana, trata como oligarquia. Um grupo de gente que inclui a classe política, mediática e económica (pôr neste rol o poder económico e ser um dos líderes Observador revela ou que não conhece os pagadores do projeto ou, digamos assim, um bocadinho de falta de vergonha). Ou seja, todos menos os que não estão no projeto político Observador. Uma espécie de dragão que terá de ser combatido por um São Jorge que os homens do Observador esperam ansiosos . No entretanto, tentam melhorar, no pior sentido, as condições para que ele surja - e, infelizmente, elas existem.

A aparente sofisticação do discurso da alt-right Observador não é mais do que populismo puro e duro.

Este tipo de narrativas e de movimentos já não são novidade para ninguém. Escolhe-se um conjunto de pessoas - a tal oligarquia, neste caso - e atira-se para cima dele todos os problemas que uma comunidade enfrenta. É o populismo em todo o seu esplendor: explicações simplistas para problemas complexos. Os emigrantes que destroem a segurança social e que espalham o crime, os corruptos que bloqueiam o país e o seu desenvolvimento, o suposto imperialismo americano, etc., etc. A face visível do discurso político é uma, apela aos instintos mais básicos, baseia-se em mentiras descaradas e é sistematicamente repetido. A agenda real vem escondida - e essa varia segundo a orientação política do movimento. A aparente sofisticação do discurso da alt-right Observador não é mais do que populismo puro e duro.

Não é em vão que esta gente insiste que a justiça está sob ataque. Alguns setores do poder judicial também embarcaram numa espécie de cruzada populista contra os "ricos e poderosos", não hesitando em violar princípios básicos e direitos fundamentais em função de valores que eles definiram como superiores. Não faltam documentos de associações de profissionais da justiça que clamam a necessidade de a justiça combater o sistema, de o moralizar, de fazer uma limpeza ética.

Também não foi por qualquer preocupação com o bom funcionamento da justiça que o Observador fez uma campanha tão violenta a favor da continuação de Joana Marques Vidal (que simplesmente serviu de arma de arremesso nesta guerra e até por um ex-primeiro-ministro que fez uma tristíssima figura e mostrou uma falha imperdoável de sentido de Estado) ou que põe em causa de forma sistemática o trabalho do juiz Ivo Rosa. O objetivo é sempre o mesmo: fazer de alguma justiça uma aliada no combate que estão a travar. Para tal, não hesitam em fazer passar a ideia de que a independência do poder judicial está em causa e que a tal oligarquia está a tentar controlar o edifício judicial. A tentativa de instrumentalização é descarada, o desprezo pela estabilidade do funcionamento dos órgãos de soberania é desprezada. Na linha da velha extrema-esquerda vale tudo para atingir os objetivos. Uma variante da destruição criativa.

Os propósitos finais dos dois grupos são diferentes, mas, neste momento, coincidem: descredibilizar o poder político e dar a ideia de que há uma conspiração e que o poder judicial é o último bastião de defesa.

Não surpreende também que Rui Rio seja apontado a dedo como o campeão da luta contra a justiça e, em consequência, o símbolo da oligarquia. Não é de agora que o presidente do PSD fala dos problemas da justiça. Tem, verdade seja dita, dentro da classe política um histórico de denúncia do seu evidente mau funcionamento que não é feito em função de interesses políticos de ocasião. É, aliás, dos pouquíssimos políticos que têm tido coragem para falar deste tema desassombradamente e sem medo de perder popularidade.

Rui Rio é o político que mais interessa a esta alt-right populista destruir. É ele que eles julgam estar a impedir a tomada do PSD que tanto desejam (estão enganados porém, nunca esta linha conquistará o PSD). Nada, mais uma vez, que ver com justiça.

Desengane-se quem pensa que existe alguma preocupação com o bom funcionamento da justiça das pessoas que disseram que os ataques a Neto de Moura visavam pôr em causa a independência do poder judicial. Mais, são exatamente estes que mais desejam que os claros problemas que afetam o setor continuem a existir e se agravem. Tudo o que possa contribuir para o caos lhes interessa. São assim os populistas.

A lei de Vítor Melícias

Já se sabe que Vítor Melícias é um frade franciscano muito dado a causas terrenas. Nada a opor, claro está. Mas dado o seu convívio tão íntimo com as questões deste mundo e com os corredores do poder, apetece lembrar-lhe que não é ele que faz as leis nem é ele que define quais são as que se devem respeitar. Mas como tenho poucas dúvidas de que ele sabe perfeitamente o que é o Estado de direito e que a lei é para ser respeitada e que obriga tanto padres como presidentes de bancos e até secretariozecos, resta perguntar quem pensa ele que é para achar que os seus amigos estão acima da lei? Esta causa terrena vale assim tanto?

Viva o Ricky Gervais

Há uns anos, um tipo, durante um jantar, estava a dizer mal do Extras II. Do outro lado da mesa, um cidadão, claramente furioso, berrava que a série era fabulosa, que o Ricky Gervais era um absoluto génio e que qualquer pessoa que discordasse merecia ver ininterruptamente os Malucos do Riso com a participação especial do Badaró. Foi um momento muito constrangedor por duas razões. A primeira, é que o indivíduo que parecia enlouquecido de amor pelo Ricky ainda não tinha visto a série; a segunda, é que esse tipo era eu.

É este o tipo de fã que sou do Gervais, e tenho boas razões para isso. O Office, o Extras I e II e o Derek são absolutamente geniais. Mas há mais, o An Idiot Abroad, o Life Is Too Short, as longas-metragens, os shows de rádio, as apresentações nas cerimónias dos Óscares e nos Globos de Ouro, etc., etc. é tudo excelente. A verdade é que até as coisas menos boas do inglês são ótimas.

Agora, para a Netflix, o Ricky Gervais fez uma série que fica ao lado ou mesmo transcende o melhor que já tinha feito. Chama-se After Life e não pode deixar de ser vista. Fala das nossas fraquezas, da nossa fragilidade, dos nossos medos e anseios. Fala de nós.

É uma história sobre a vitória da bondade (como sempre no Gervais) e de redenção, contada com o seu fantástico humor e o seu imenso amor pela humanidade.

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