Premium Qualquer acordo de Bruxelas com May será definitivo

Não é do interesse da UE permitir uma inversão do brexit nem voltar às negociações.

É verdade que uma grande maioria dos membros do Parlamento no Reino Unido preferiria que o brexit não acontecesse ou que fosse um brexit suave.

Também é verdade que o governo do Reino Unido mudou para uma versão mais suave do brexit. Mas não se pode simplesmente juntar as duas informações e concluir que as hipóteses de um brexit suave aumentaram. Pelo contrário, a probabilidade de um brexit sem acordo nunca foi tão grande como agora.

Esta aparente contradição tem as suas origens na interação complexa entre a política do Reino Unido e da União Europeia. Esta última reagiu ao Livro Branco do brexit da semana passada com uma contenção cortês.

Agora, irá estudar o documento de 98 páginas de Theresa May sobre as futuras relações com a Europa propostas pelo Reino Unido e decidirá uma posição conjunta antes de o comentar detalhadamente.

O Grupo Diretor do Parlamento Europeu sobre o brexit recebeu o documento cautelosamente, mas também deixou claro que a UE não cederá nas suas linhas vermelhas essenciais, especialmente na indivisibilidade das quatro liberdades: a circulação de produtos, serviços, capital e pessoas.

A UE também não sacrificará a integridade do mercado único, e não permitirá que o Reino Unido escolha os setores económicos nos quais deseja participar.

A posição da UE não mudou desde que as negociações do brexit começaram e eu não espero que mude muito no futuro.

Mas espero ver uma vontade renovada de um envolvimento sério com Theresa May e os seus negociadores.

Vejo espaço para um compromisso sobre o pedido do Reino Unido de um equivalente a uma união aduaneira para produtos, mas não para serviços. A UE rejeitou esta separação no passado, alegando que produtos e serviços estão frequentemente interligados. Isso é verdade. Mas o mercado único da UE para serviços não está tão desenvolvido como o mercado único de produtos.

A indústria exercerá uma forte pressão a favor de um compromisso. Numa altura em que os exportadores europeus enfrentam a perspetiva das tarifas comerciais impostas pelos EUA, a última coisa que eles precisam é outra fronteira tarifária dentro da UE. O Reino Unido é um dos maiores mercados de exportação de muitos Estados membros da UE.

Mas vejo pouco espaço para concessões à liberdade de circulação de pessoas. Esta é uma questão que tem sido subestimada no Reino Unido desde que David Cameron, ex-primeiro-ministro, tentou e não conseguiu obter concessões relevantes em 2016. E continua a ser subestimada.

A razão pela qual a UE é tão intransigente na imigração reside na sua história e nas suas próprias divisões. A única coisa que um acordo que permita ao Reino Unido restringir a liberdade de circulação de trabalhadores não qualificados iria fazer, seria discriminar indiretamente entre países da UE de altos e baixos rendimentos.

E um brexit seletivo que ficasse com o melhor de dois mundos perturbaria o equilíbrio sensível da UE.

A liberdade de circulação não se baseia no pensamento económico. Não é necessário que uma união aduaneira ou uma zona de livre-comércio tenha uma política de imigração aberta. A liberdade de circulação deve ser entendida como um instrumento de integração política.

É por isso que o Reino Unido, tanto no lado dos favoráveis ao brexit como no lado dos que são contra ele, tem dificuldades com esse conceito.

Assim, o Livro Branco da primeira-ministra não pode ser mais do que o ponto de partida de uma conversa muito longa. Theresa May terá de fazer muitos compromissos para garantir um acordo. No processo, ela pode perder mais apoio interno. No final dessa conversa, a miríade de opções negociadas do brexit terá sido reduzida a uma única.

Em teoria, deveria ter sido possível chegar a um acordo de livre-comércio simples como o que a UE concluiu com o Canadá ou o Japão.

Mas esse tipo de acordo teria uma contradição insolúvel. Iria violar a linha vermelha da UE em relação a uma fronteira sem atritos na Irlanda ou a linha vermelha do Reino Unido em relação a uma fronteira sem atritos no Mar da Irlanda.

O que a UE não fará em nenhuma circunstância será conspirar com alguns dos partidários da permanência mais radicais e, sub-repticiamente, apoiar uma reversão do brexit.

Este pode ser o sonho dos partidários da permanência radicais, mas estes estão a avaliar mal a forma como a UE funciona. Os líderes europeus não querem Nigel Farage de volta ao Parlamento Europeu, e não querem certamente uma reversão do brexit que pode, em breve, ser revertida novamente.

Eles estão com dificuldades mais do que suficientes para definir os seus interesses comuns. Não são conspiradores a maquinar um esquema. E estão a lidar com primeiros-ministros atuais, não com os anteriores. Theresa May provou ser uma aliada difícil mas confiável, nos últimos dois anos.

Os partidários da permanência não devem ter ilusões sobre o interesse da UE. Uma vez alcançado um acordo com Theresa May, ele será definitivo.

A partir desse momento, a UE não voltará à mesa de negociações, mesmo que haja uma mudança no governo do Reino Unido.

Pode ganhar-se algum tempo extra. Mas não há qualquer dúvida de que se o Parlamento britânico rejeitar o acordo, o brexit será duro.

© 2018 The Financial Times Limited

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