Promoções e stock adiam aumentos no preço dos carros

Marcas apostam em campanhas no verão antes da entrada da nova norma de emissões, que vai agravar o custo dos automóveis em centenas de euros.

Descontos na compra de carro novo, campanhas para dar mais valor aos usados, mais garantias de manutenção ou gestão de stocks. Estas são algumas das estratégias das marcas de automóveis para evitar o aumento de preços a partir de 1 de setembro por causa da entrada em vigor da nova norma de medição de emissões poluentes (WLTP).

Espera-se uma corrida aos concessionários nos próximos dois meses porque estas novas regras deverão implicar o agravamento do montante do ISV (imposto sobre veículos), que apenas poderá ser moderado em janeiro, por altura da entrada em vigor do novo Orçamento do Estado.

"A partir de julho, e, sobretudo, em agosto, os consumidores deverão antecipar-se a um eventual agravamento de preços", refere Helder Pedro, secretário-geral da ACAP - Associação Automóvel de Portugal, ao DN/Dinheiro Vivo.

Na Opel, por exemplo, o Astra será o modelo mais afetado pelas novas regras: só em impostos, este carro vai custar mais 2800 euros, na versão com motor 1.6 a gasóleo. A marca alemã antecipa-se ao agravamento de preços com a "valorização adicional de retoma de 4000 euros - mediante entrega de carro para abate - e a oferta de manutenção e extensão de garantia durante três anos ou 30 mil quilómetros", informa fonte oficial. A campanha Big Week começa hoje e dura até ao final da semana.

No grupo FCA (Fiat Chrysler), a campanha Countdown Imposto estende-se à Alfa Romeo e Jeep. Na marca-mãe e na Jeep, os descontos chegam aos cinco mil euros; na Alfa Romeo, a redução de preços pode atingir os oito mil euros. A FCA Portugal "admite a possibilidade de um aumento no valor do preço dos carros", por causa da nova norma de emissões.

Gerir stocks é um truque

A gestão de stocks é a outra forma de as marcas evitarem os impactos do aumento de preços. Pelo menos para já. A SIVA, importadora nacional dos carros do grupo Volkswagen (exceto da Seat), admite que "há sempre carros em stock com emissões NEDC1", pelo que o efeito de aumento de preços em alguns dos modelos "não vai verificar-se subitamente a 1 de setembro".

A Renault Portugal afirma que "toda a gama em comercialização ainda se encontra homologada pela norma NEDC". O grupo BMW Portugal, pelo contrário, diz que "a maioria do seu portfólio" já está preparada para a nova norma de emissões.

As marcas, para aliviar o aumento de preços, podem ainda registar até 10% do volume de vendas do ano anterior (2017) ao abrigo de uma indicação de "final de série" com veículos produzidos antes de 1 de junho de 2018. No entanto, é uma solução bastante limitada que apenas garante o escoamento de stocks de cada marca em pouca escala.

O que se vai passar?

Numa primeira fase da nova medição das emissões, a partir de 1 de setembro, entrará em vigor um ciclo ajustado transitório, a que se atribuiu o nome de NEDC2, que irá provocar um aumento médio das emissões de CO2 de cerca de 10%. A partir de janeiro, entrará em cena a norma WLTP por inteiro (a par do Real Driving Emissions - RDE), que deverá dar dados de consumos e emissões mais realistas. E impostos mais altos.

Os aumentos de preços por causa da nova norma de emissões apenas poderão ser moderados se o governo português seguir a recomendação da Comissão Europeia e promover a neutralidade fiscal na transição entre ciclos de medições.

Até 31 de julho, será entregue o relatório do grupo de trabalho que estuda o fim dos "incentivos prejudiciais" ao ambiente. O documento terá de incluir um "diagnóstico da fiscalidade sobre a energia e propostas de medidas de atuação visando a introdução dos sinais corretos para a descarbonização da economia".

Mas este processo só deverá ficar concluído no final do ano e ter impacto a partir de janeiro de 2019. Nessa altura, a entrada em definitivo do método WLTP pode representar uma subida de "40% ou 50%" no valor do ISV a pagar, sobretudo nos segmentos mais altos. O que também terá impacto no preço de venda ao público destes veículos. Se nada for feito, os portugueses poderão contar com dois aumentos de preços em pouco mais de quatro meses.

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