Premium

Rogério Casanova

Sopa de Mel

Os programas de culinária fazem parte há tanto tempo da paisagem televisiva que é difícil recordar quão contra-intuitivo é o conceito. Enquanto a esmagadora maioria das actividades competitivas transmitidas no pequeno ecrã nos fornecem a possibilidade de avaliar os méritos dos participantes segundo os mesmos critérios que os juízes, e gritar no conforto do sofá que a voz "desafinou" ou que "não era penálti", os programas de culinária mostram-nos uma actividade avaliada pelos três sentidos que a televisão não alcança. Qual a reacção instintiva perante afirmações tão peremptórias como "a bolacha está dura", "o peixe tem pouco sal" ou "o caldo precisava de mais sabor"? A reacção instintiva é renunciar à reacção instintiva e adoptar a reacção educada: educada pela experiência prévia de ver televisão.

O formato vai sendo regenerado através de micro-variações, como em Famílias Frente a Frente (RTP1, domingos), no qual em vez de indivíduos a cozinhar uns contra os outros, temos agregados familiares a cozinhar uns contra os outros. Cada episódio começa com o tipo de segmento musical que normalmente sugere que alguém está prestes a ser assassinado numa telenovela, e com o tipo de narração outrora reservado para preâmbulos de epopeias: "Seis famílias arrancam destemidas para as cozinhas mais famosas do país... enfrentam os desafios mais duros... as cozinhas ganham novas vidas... e novas histórias".

Ler mais