Premium  Carlos Costa e brincar às comissões de inquérito

A chegada e a permanência de Carlos Costa como governador do Banco de Portugal é uma espécie de corolário lógico do que, com poucas exceções, foi o lamentável papel dos gestores dos bancos portugueses nas últimas décadas.

Para quem pensa que Carlos Costa já deu provas mais do que suficientes de inadequação ao lugar que ocupa, o pedido de exoneração feito pelo Bloco de Esquerda faz todo o sentido. Já se sabe que a destituição de um governador do Banco de Portugal é uma situação limite e que dado o papel que o Banco Central Europeu (BCE) agora tem se tornou praticamente impossível.

Apesar de tudo isso, o surpreendente é Carlos Costa manter-se ainda como governador. A incúria na supervisão do BES, a atitude meramente contemplativa quando a tempestade já era evidente e o papel que desempenhou na catastrófica resolução já não são discutíveis. E é preciso lembrar que ficou a sensação de que em muitas situações não passou de um executor de decisões do governo de então, ou seja, participou ativamente num processo de decisão política que apenas teve como objetivo a destruição do grupo BES sem que se ponderasse de forma séria se seria melhor para o país outra possibilidade.

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Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.