Uma mutação pode condicionar as vacinas? Não é provável, mas há que manter uma "vigilância apertada"

Variante do SARS-Cov-2 identificada no Reino Unido ainda está envolta em incerteza, com os especialistas a sublinhar que não há, para já, indícios de que seja uma alteração de grande alcance. E não é uma covid-20, como já lhe começaram a chamar: "Isso não existe."

A nova variante do SARS-Cov-2 identificada no Reino Unido, que "poderá estar associada a uma disseminação mais rápida do vírus no sul de Inglaterra", deve ser vigiada com atenção face ao pouco que ainda se sabe sobre esta mutação. Para já o risco de consequências sobre as vacinas é baixo - mas não é impossível.

"Como virologista não estou preocupado", diz ao DN Pedro Simas, investigador do Instituto de Medicina Molecular (IMM) João Lobo Antunes. Já Miguel Castanho, responsável pelo laboratório de Bioquímica de Desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos, também do IMM, tem uma visão menos otimista e deixa várias hipóteses em aberto - nomeadamente no que se refere a consequências sobre as vacinas -, mas também sublinhando que é cedo para tirar conclusões e que não há ainda dados que permitam respostas mais definitivas. "Para já não se sabe, a probabilidade de esta mutação tornar as vacinas obsoletas é baixa, mas há que manter uma vigilância apertada", diz ao DN.

O anúncio da nova variante foi feito na última segunda-feira pelo ministro da Saúde britânico, Matt Hanckock. "Identificámos uma nova variante do coronavírus, que pode estar associada à disseminação mais rápida no sudeste da Inglaterra. A análise inicial sugere que essa variante está a propagar-se mais rapidamente do que as variantes existentes", disse aos deputados, numa declaração na Câmara dos Comuns, revelando que foram encontrados mais de mil casos com esta variante, predominantemente no sul da Inglaterra, onde as infeções têm estado a acelerar nas últimas semanas - e que já passou para um nível mais elevado de restrições. "A esta altura, nada sugere que esta variante possa causar complicações mais graves da doença e é altamente improvável que esta mutação não responda à vacina", referiu também o mesmo responsável.

As "mutações são normais", corrobora Pedro Simas, sublinhando que já foram identificadas várias ao longo dos últimos meses, destacando também que "não há indícios" de que o vírus tenha aumentado a capacidade de provocar formas mais graves da doença - um cenário em que "não conseguiria competir com o vírus dominante". O facto de esta variante ter sido identificada em simultâneo com uma fase de maior de propagação da doença, num local específico, também não permite tirar grandes conclusões, pelo menos para já. "É muito cedo e é um fenómeno muito local. Como 90% das pessoas imunes [ao SARS-CoV-2] podemos estar perante um mero efeito inicial."

"É mais plausível uma mutação sem implicações diretas nas vacinas"

Pode esta mutação ter implicações ao nível da vacina? "Potencialmente sim, obrigatoriamente não", diz Miguel Castanho. No que concerne às seis que foram negociadas pela União Europeia o também professor na Faculdade de Medicina de Lisboa sublinha que elas têm pelo menos três modos de atuação diferentes, mas "todas apontam à mesma proteína do vírus". E é neste ponto que pode residir o problema. "A proteína que faz a ligação do vírus ao recetor da célula é precisamente a proteína que é o alvo das vacinas. Se a mutação for nessa proteína, no local de ligação dos anticorpos gerados pelas vacinas, aí pode haver algum tipo de más noticias relativamente à eficácia", diz o investigador. Mas acrescentando também que "em termos de probabilidade muitas mutações são possíveis, que afetem a interação do vírus com o hospedeiro, sem que obrigatoriamente seja naquele ponto-chave. Em termos de vacinas, é mais plausível que aconteça uma mutação que não tenha implicações diretas nas vacinas do que o contrário".

"Para já o que foi dito é que não existe nenhum dado que aponte para que as vacinas não sejam eficazes", prossegue Miguel Castanho, reiterando que a probabilidade de implicações sobre as vacinas "é pequena" - "mas não é nula". "Isto ajuda a perceber porque é que o esforço de investigação tem de ser constante e não pode parar", remata.

Pedro Simas considera "pouco provável" que esta mutação possa ter consequências ao nível da eficácia da vacina - recorde-se que a da Pfizer já começou a ser administrada no Reino Unido - e ainda que isso acontecesse e esta mutação se tornasse predominante seria um processo de muitos meses, o suficiente para que a vacina pudesse ser readaptada, refere o virologista. E "mesmo que a vacina não seja perfeita confere sempre alguma proteção", acrescenta.

Covid-20? Não, não existe covid-20

De acordo com a BBC, depois do anúncio das autoridades britânicas espalhou-se nas redes sociais a designação covid-20 para designar a variante apontada pelo ministro da Saúde. "Isso é precipitado, é irrealista, não há covid-20", diz Miguel Castanho. "Nos meios científicos fala-se mais de um eventual surgimento de um SARS-CoV-3, um outro vírus desta linhagem, que seja suficientemente diferente. Para já não temos evidência de que este vírus seja, de um ponto de vista estrutural, assim tão diferente que se justifique dizer que é um SARS-Cov-3 e muito menos temos evidência de que cause uma doença suficientemente diferente da covid-19 para que lhe chamemos covid-20", conclui.

O mesmo dizem especialistas ouvidos pela BBC. "Isto não é a covid-20. A Covid-20 não existe. Isto é uma mutação/variação do vírus que causa a covid-19 e o seu impacto na doença e na transmissão é completamente desconhecido", disse à estação britânica Willem Van Schaik, diretor do instituto de microbiologia e infeções da Universidade de Birmingham.

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