Dos sacos de plástico às casas: o efeito Jacinda Ardern na Nova Zelândia

No poder desde outubro na Nova Zelândia, Jacinda Ardern pôs o seu país no centro das atenções. E não é só por ter sido a segunda líder mundial a ter sido mãe enquanto exercia o cargo de primeira-ministra

A 6 de agosto, seis semanas apenas após ter dado à luz a pequena Neve Te Aroha, Jacinda Ardern liderou o seu primeiro Conselho de Ministros depois de ter regressado ao trabalho como primeira-ministra da Nova Zelândia.

Na chefia do governo neozelandês desde outubro do ano passado, a líder dos trabalhistas, de 38 anos, tornou-se notícia a nível mundial por ter sido a segunda mulher a ser mãe em funções.

A primeira tinha sido Benazir Bhutto, primeira-ministra do Paquistão, que enquanto estava no cargo deu à luz a filha Bakhtawar Bhutto Zardari em janeiro de 1990. Benazir viria a morrer assassinada num atentado em dezembro de 2007.

Enquanto esteve de licença de maternidade, foi o vice-primeiro-ministro, Winston Peters, quem substituiu Jacinda Ardern e assumiu os comandos do governo da Nova Zelândia. E agora, regressada ao trabalho, quem ficará a cuidar da filha será o marido, Clarke Gayford. Estando a amamentar, Jacinda poderá levar a filha bebé para os debates no Parlamento e as duas poderão, inclusivamente, usar a piscina destinada aos deputados.

Passado o frenesim motivado pelo nascimento da pequena Neve Te Aroha, Jacinda e o seu governo continuam a ser notícia, nomeadamente pelas medidas progressistas que têm vindo a anunciar. Eis alguns exemplos.

Licença para os pais após aborto

As mulheres que sofram aborto durante a gravidez e os seus parceiros poderão passar a ter direito a uma licença de três dias dos seus empregos pagos a 100%, segundo uma proposta de lei, que também inclui casos de bebés nados-mortos.

"Todas as pessoas que estejam a sofrer a perda que constitui um aborto deve ter a opção de tirar uma licença se quiser. É preciso deixar claro que a morte não planeada de um feto deve dar direito a licença para a mãe e o seu parceiro ou marido", disse Kathryn van Beek, que lançou uma petição a favor da lei, citada pelo The Independent.

Ginny Anderson, deputada trabalhista, promotora da proposta de lei, afirmou, por seu lado, que na Nova Zelândia o aborto permanece "um assunto tabu" e que o tema da licença vai ajudar a "trazê-lo à luz do dia".

No país é possível tirar licença pela morte de familiares próximos, como acontece também em Portugal, por exemplo, mas isso não inclui uma criança que não nasceu com vida.

Acabar com sacos de plástico até 2019

A Nova Zelândia tem uma das maiores taxas de produção de resíduos urbanos per capita, com 750 milhões de sacos de plástico usados anualmente, ou seja, 154 por pessoa.

Perante estes números, o governo trabalhista de Jacinda Ardern decidiu que a situação não pode continuar. Assim, os comerciantes têm até julho do próximo ano para acabar com o uso de sacos plástico, caso contrário haverá multas, que poderão chegar aos cem mil dólares neozelandeses, ou seja, cerca de 57 mil euros.

Até agora, mais de 40 países já proibiram os sacos de plástico. O primeiro foi o Bangladesh, em 2002. Em 2003, a África do Sul tomou a mesma decisão, depois de declarar que estes itens já eram tão numerosos no país que se tinham transformado numa espécie de "flor nacional".

Segundo um relatório das Nações Unidas, são usados todos os anos, a nível mundial, entre um e cinco mil milhões de sacos de plástico. Se fossem atados uns aos outros, os cinco mil milhões de sacos cobririam uma área com o dobro da superfície de França.

Na Nova Zelândia, 65 mil pessoas assinaram uma petição a pedir o fim do uso dos sacos de plástico, tendo a primeira-ministra, Jacinda Ardern, admito, em declarações ao The Guardian, que "este é o assunto sobre o qual as crianças mais me escrevem".

Proibido vender casas a estrangeiros

No ano passado, segundo a The Economist, a Nova Zelândia teve os preços imobiliários mais inacessíveis do mundo, com os de Auckland, por exemplo, a subir 75% nos últimos quatro anos.

Por isso, para travar a especulação, o governo trabalhista decidiu proibir a venda de casas a estrangeiros. O tema assume particular importância numa altura em que, em vários países, entre os quais Portugal, se discute a questão da habitação e da relação com a especulação e a existência de bolhas imobiliárias.

Só no último trimestre, 10% das casas no distrito de Queenstown Lakes e 20% das casas no centro de Auckland foram compradas por estrangeiros, declarou, ao The Guardian, o ministro neozelandês David Parker.

Parker é o ministro do Desenvolvimento Económico, do Ambiente, do Comércio e Exportações e ainda procurador-geral. Em entrevista àquele jornal britânico, declarou sobre a nova lei que proíbe vender casas a estrangeiros: "Acreditamos que o mercado de casas e fazendas da Nova Zelândia deve ser estabelecido por compradores da Nova Zelândia que pagam impostos e têm famílias aqui e não por compradores estrangeiros."

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