"Vejo o trabalho com agressores sexuais como uma missão para reduzir o número de potenciais vítimas"

Cristina Soeiro é psicóloga forense, professora e investigadora da Polícia Judiciária.

Céu Neves
© Sara Matos/Global Imagens

É psicóloga, não gostou das experiências no mundo empresarial e enviou um currículo para a Polícia Judiciária. Gostava do crime, o que há 40 anos significava devorar livros policiais. Foi aceite para dar aulas na Escola de Polícia Judiciária, onde se mantém. Soube-lhe a pouco e decidiu estudar os polícias que ensinava, mais tarde os criminosos, quis participar nas investigações. A alentejana encontrou a ação adequada às suas características. Há 28 anos em Lisboa, cidade a que se rendeu completamente.

Como é que foi parar à Polícia Judiciária?

Tinha 25 anos quando cheguei à Polícia Judiciária, era muito nova. Tive duas experiências profissionais antes: a primeira numa empresa de formação onde estive um ano, achei pouco desafiadora; a segunda, de meio ano, no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, na equipa de ecologia social, com um trabalho de investigação pura, o que para as minhas características era um pouco parado.

Quais são as suas características?

Não gosto muito de rotina, gosto de trabalhos diferenciados, ou seja, de desafios, de conhecer coisas não estudadas. Quando dizem "temos uma agressora sexual", quero estudar a situação; "temos um jovem que cometeu um incêndio", vamos estudar. São essas coisas que considero interessantes.

Concorre depois para a Polícia Judiciária.

Não foi um concurso, mandei uma candidatura espontânea, tal como mandei para o ISPA [Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida]. A Escola da Polícia Judiciária estava a precisar de um psicólogo e chamaram-me. Durante 19 anos não fiz parte dos quadros da função pública, tinha um contrato de provimento de serviço, fui contratada com equiparação a professora universitária.

Já gostava da área do crime em estudante?

Pensava em estudar coisas que não fossem muito habituais. Acabei a licenciatura com 23 anos e no final do curso pensei muito no que iria fazer. Uma das coisas que me intrigavam era perceber porque é que as pessoas cometiam crimes. Gostava de ler livros policiais, o que não tem nada a ver com a realidade.

E não havia séries como o CSI.

Nada, mas a minha grande motivação foi pensar porque é que as pessoas cometem crimes, porque é que uma pessoa mata a outra. Achei que seria interessante ter uma experiência na Polícia Judiciária. Porque não?

Começou por dar aulas. Era isso que queria?

Não, era uma via de acesso. Nos primeiros quatro anos estive muito centrada na formação, depois percebi que tinha um handicap muito grande, não sabia o que é os polícias fazem. Dava formação a polícias em psicologia, liderança, mas não estava dentro das questões de comportamento criminal. É quando acontecem duas coisas importantes para mudar as minhas competências enquanto profissional na polícia: uma foi o Estripador de Lisboa.

Foi há 25 anos e ainda está por resolver.

Ainda.

"Acontecem duas coisas importantes para mudar as minhas competências enquanto profissional na polícia: uma foi o caso do Estripador de Lisboa."

O que é que aconteceu?

A subdiretora da Diretoria de Lisboa perguntou se a psicóloga da Escola de Polícia Judiciária não quereria integrar a equipa, e eu fui. Foi o meu primeiro grande contacto com uma equipa de investigação policial e percebi que era mesmo o que queria. Depois tive a oportunidade de fazer uma formação de uma semana com o FBI, que também foi muito importante.

A segunda coisa?

Decidi que precisava de conhecer melhor o trabalho de polícia para perceber o que poderia fazer como psicóloga e inscrevi-me no mestrado no ISCTE [Instituto Universitário de Lisboa], para estudar a profissão. Inscrevi-me em Sociologia porque não havia nada em Psicologia. Estudei durante um ano na Polícia Judiciária de Lisboa, a acompanhar brigadas, a ver como trabalhavam. Estive nos homicídios, no furto de veículos, foi muito interessante, percebi quais eram as necessidades dos polícias, o seu tipo de trabalho, toda a complexidade, os fatores de stress, etc. Quando voltei para a escola a 100% reformulei os programas

Uma revolução.

Uma revolução até nas matérias em que passei a focar-me para ser mais competente no trabalho. Começámos um estudo sobre stress na polícia, iniciámos uma escala do stress polícia, agora é toda uma equipa que trabalha nisso, somos três psicólogas.

Quando é que se começou a interessar pelos criminosos?

Para sermos bons professores na polícia temos de ter uma base de conhecimento sobre a realidade criminal portuguesa. E começámos a desenvolver estudos sobre os vários tipos de crime, os sexuais, os incêndios, os homicídios; temos um conjunto de investigações científicas aplicadas à realidade. E fazemos perícias para tribunais dos casos pontuais, os que são mais complexos.

Algum tipo de crime em especial?

Temos uma ligação muito próxima às questões da criminalidade sexual, que é o tipo de crime que tem mais ligação à psicologia. Há inclusive um programa de formação especializado para os nossos polícias, com as técnicas de interrogatório ao agressor, das entrevistas às vítimas, fizemos o modelo de sala para entrevistar a vítimas, portanto, um trabalho muito ligado às necessidades dos nossos polícias. Hoje, na Escola de Polícia Judiciária, já não damos aulas com base em exemplos estrangeiros, mas portugueses.

E também fazem a seleção para os cursos. O que é que mudou no perfil?

Mudou muito. A idade dos candidatos é maior, é normal serem licenciados, há um maior número de mulheres. Quanto às características, tentamos escolher os que têm maior controle emocional, maior flexibilidade na capacidade de responder a situações diversas. O trabalho do polícia de investigação criminal é muito específico, exige pessoas que tenham uma grande capacidade de trabalhar em rotina, mas também que tenham flexibilidade para situações diferentes; é um trabalho muito exigente. Fomos ajustando, estudando o fenómeno e achamos que estamos a contribuir para termos profissionais com boa capacidade de adaptação a cada situação.

É uma instituição rígida?

É uma instituição que tem hierarquias, como é óbvio, mas quando é para resolver problemas consegue-se flexibilizar para os resolver.

Mudou o perfil dos criminosos?

Há alterações ao longo do tempo. Nestes últimos 20 anos, fomos estudando mais uma criminalidade que não existia tanto no início dos anos 1990, os abusos sexuais de crianças.

Devido às alterações legislativas.

Pois, nos anos 1980, o abuso de crianças era atentado ao pudor. Houve alterações legislativas e que passaram pela aplicação de penas maiores para determinados comportamentos. Houve necessidade de melhorar a formação nesse campo; é uma das responsabilidades do nosso gabinete, é importante que os polícias tenham as ferramentas adequadas. E houve uma redução dos homicídios, havendo um maior foco de homicídios relacionados com as relações amorosas. Há alterações que têm que ver com a evolução da nossa sociedade.

E em relação ao perfil do homicida?

Depende do tipo de homicídio, não há um padrão, há várias características, é complexo.

Como é que se prepara para entrevistar criminosos?

Temos de conhecer bem o crime, estar por dentro dos fatores psicológicos que o explicam e saber o que queremos avaliar, até porque temos pouco tempo para as entrevistas. Como psicóloga, trabalhamos em equipa, o que é muito importante, e temos um protocolo ajustado a cada tipo de crime. Fazemos uma entrevista que está predefinida pela Universidade de Vancouver, do Canadá, que abarca as várias etapas da vida de uma pessoa. E as pessoas gostam de falar, só para o final da entrevista é que falamos mais da questão criminal. Isso permite-nos contactar com a história de vida da pessoa, o que é que sentiu ao longo do seu desenvolvimento, como foi a relação com a família, com o trabalho, com os filhos, porque é que aconteceu o crime, etc.

Há sempre uma explicação para o crime?

Há uma explicação, o que não desculpabiliza. Mas para intervir num indivíduo que comete um crime temos de perceber quais são os fatores que estão associados. Uma coisa é estar na presença de um indivíduo com doença mental, outra é ter havido uma perturbação da personalidade como a psicopatia, em que a intervenção é completamente diferente. Um pode ter tratamento, o outro pode não ter. Quando fazemos uma avaliação é para perceber que tipo de trabalho pode ser feito para que a pessoa não volte a reincidir. É essa a função de um psicólogo forense.

Consegue não julgar?

Temos um protocolo de investigação que avalia um conjunto de questões. O que fazemos é a aplicação da ciência num contexto prático, que é a área forense. Para fazermos um bom trabalho, temos de definir à partida as nossas deadlines, quem praticou o homicídio, quais são os fatores que o explicam, se aquele indivíduo encaixa naquele grupo de indivíduos. Já vamos com o olhar científico para a situação, porque senão somos toldados pelas nossas emoções.

É uma defesa?

O psicólogo, como qualquer profissional, deve preparar-se com as ferramentas necessárias àquele trabalho para poder resistir melhor à sua posição pessoal. Outra questão importante é trabalhar em equipa, para controlar algumas questões que possam não estar a funcionar tão bem na entrevista, para avaliação do nosso trabalho.

Sempre conseguiu não se envolver?

Há situações em que vamos para casa a pensar nos casos, como é óbvio, porque o agressor fez mal a uma pessoa que até é da idade do nosso filho. Temos uma coisa muito importante na nossa equipa, que é falar sobre o que aconteceu, fazemos uma espécie de terapia de grupo.

"Fui ao psicólogo. Era um caso de tráfico de mulheres, que é uma área que tem que ver com as minhas questões pessoais."

Também vão ao psicólogo?

Já fui, já precisei há uns anos, foi uma terapia breve mas precisa. E resolveu-se.

Pode saber-se em que situação?

Era um caso de tráfico de mulheres, que é uma área que tem que ver com as minhas questões pessoais. Percebi que estava a interferir com a minha vida pessoal e procurei ajuda. Como ajudamos os outros a identificar sinais de stress, também podemos precisar de ajuda. É importante ter um trabalho em equipa, falar, pedir opinião e, quando são casos complexos, falar até com os inspetores responsáveis pelo processo, trabalhamos em conjunto.

É o tipo de crime que mais a incomoda?

Naquele caso, era um trabalho sobre tráfico de mulheres e prostituição. Tive contacto com a situação, com casas de alterne, etc., e aquilo mexeu muito comigo. Até hoje, na minha experiência profissional, foi o que mais me afetou, o resto vou conseguindo gerir.

Também o abuso sexual de crianças?

Sim, vejo isso como uma missão. Se trabalharmos bem e conseguirmos intervir nos agressores, conseguimos reduzir o número de potenciais futuras vítimas, e isso é muito importante.

Têm tratamento?

Alguns sim, outros têm de ser contidos. É todo um caminho, mas há uma franja grande de indivíduos em que há possibilidade de intervenção.

Um dos últimos estudos é sobre violência nas relações íntimas e uma das conclusões é que a agressão não acaba com a separação e a queixa. Potencia?

Depende da situação, da tipologia do agressor e da vulnerabilidade da vítima, tem de haver sempre um acompanhamento. As instituições e os técnicos já têm um tipo de conhecimento que ajuda a uma intervenção mais adequada, mas há todo um caminho a fazer.

As mulheres continuam a ser mortas, seria preciso uma resposta mais rápida?

Penso que a resposta é a adequada. O que precisa de ser melhorado é a articulação entre os serviços que prestam este tipo de resposta.

O Bloco de Esquerda propôs a criação de tribunais para os casos de violência doméstica. Concorda?

Sim, conheço uma experiência na Suécia, um tribunal só para as questões da violência contra mulheres nas relações amorosas e que é um modelo interessante. Tem de um lado a intervenção com agressores, do outro o acompanhamento das vítimas, também as perícias, a emergência médica, orientam tudo a partir do centro. No nosso sistema judiciário, os serviços que funcionam melhor são os que estão especializados em determinados tipos de crime. Nos crimes que envolvem família, etc., a especialização é fundamental, a nível das polícias, dos operadores, dos psicólogos, todos nos devemos especializar.

Tanto na violência doméstica como nos incêndios, como é que se explica que sejam poucos os que cumprem pena de prisão?

Tem que ver com o próprio processo no tribunal, com a intervenção, nos incêndios temos uma franja de indivíduos com doença mental e que precisam de uma intervenção mais estruturada. No caso da violência doméstica, depende muito das situações e de como são analisadas, são fenómenos muito complexos. Não pode haver uma intervenção igual para todos, tem de haver um trabalho de identificação dos problemas. Poupávamos muito dinheiro se fizéssemos isso, daí a importância da especialização dos tribunais.

O que faria se mandasse?

Melhorava a articulação entre os serviços, faria uma avaliação sistematizada dos agressores, como é feito noutros países, e depois adequava as medidas a aplicar. Tudo deve ser feito de forma estruturada, com profissionais preparados, começa a ser feito mas não de uma forma sistemática.

Qual é o país-modelo?

O Canadá. Usamos alguns instrumentos deles.

Optou pela Polícia Judiciária para perceber os criminosos. Conseguiu?

Consegui.

E agora?

A seguir, o que gostaria de fazer era trabalhar na intervenção de indivíduos que cometem crimes sexuais, gostava muito de ter uma intervenção mais terapêutica, é um sonho. Gosto muito do trabalho que faço na polícia, é único, mas se pensasse num desafio, o desafio seria esse. Os agressores sexuais são pessoas, precisam de intervenção, e eu gosto desta área.

Teve de prescindir de alguma coisa nesta profissão?

Teria que ver com a minha menor presença na vida familiar. Há determinadas fases da vida em que, se estivesse estado mais presente, teria sido mais benéfico para o meu filho.

O que faz nos tempos livres?

Tenho pouco tempo livre, com a polícia e a universidade, tenho muito pouco tempo livre. Corro, não gosto de ginásio, gosto mais de ar livre, e faço as coisas triviais: sair, conversar com as pessoas, o que gosto mesmo é de estar com as pessoas.

Em férias?

Gosto de acordar e não ter planos.

E na reforma?

Gostava de escrever alguns livros, uma escrita mais científica, com mais tempo, mais calma, e gostava de viajar. Se tiver saúde e algum dinheiro, o que gostava mesmo era de viajar, de ir ao Japão, à Austrália.

Perfil

- Nasceu em Avis, Alentejo, em janeiro de 1965.

- Estudou Psicologia Social e Terapias Sistémicas.

- Fez um mestrado em Sociologia sobre os Polícias, doutorou-se Psicologia da Justiça.

- Pertence à Escola de Polícia Judiciária, faz investigação e a seleção de polícias.

- É professora na Escola Superior de Saúde Egas Moniz.

- É diretora do Gabinete de Psicologia da Polícia Judiciária.

- Faz investigação em comportamento criminal violento (homicídios, feminicídio, crimes sexuais) e incêndios florestais. Tem estudos sobre a técnica dos perfis criminais e sua validade no contexto da investigação criminal, de entrevista a vítimas, particularmente a crianças vítimas de abuso sexual.