Bay City. Lá na terra ignoram Madonna

Há uma chave da cidade oferecida (e, afinal, não...) à mais famosa filha da terra. Há uma frase infeliz que ainda hoje os conterrâneos não perdoam. Na sua terra natal, não há uma só tabuleta, nem uma estátua, nem um cartaz "Madonna almoçou aqui", nem nada que evoque a cantora mais famosa do mundo. Fomos a Bay City ver o que não há.

Ferreira Fernandes
Bay City, onde Madonna nasceu, é uma vilória nas margens do lago Huron, na fronteira americana com o Canadá.

Os Grandes Lagos americanos são cinco, estão unidos por canais e muitas vezes gelados. O lago Michigan tem Chicago e o Ontário tem Toronto, e ambas as cidades são razões para lá ir; o Erie tem uma boa razão para lá não ir, Cleveland, e o lago Superior, como o seu nome indica, mais a norte, tem ainda mais frio. Finalmente, há o lago Huron, com a cidade de Bay City, onde nasceu Madonna. Onde ela não vai e não há nenhuma placa a dizer que ela nasceu lá.

Bay City pode visitar-se vendo Fargo, o filme ou a série. A cidade de Fargo, no Dakota do Norte, fica mais a oeste, mas sempre lá em cima, com neve a mais, clima sinistro que entra pelos ossos e pelos hábitos das pessoas, apesar dos casacos grossos e aos quadrados dos lenhadores. Numa campanha eleitoral, a última de Obama, em 2012, eu estava em Cleveland, porque era no Ohio e este estado é sempre dançarino em votos. Mas uma campanha americana é longa e Cleveland é aborrecida como o comício do republicano Mitt Romney, que eu vi nas vésperas do voto.

Na América chamam estilo colonial a quase tudo e àquela casa modesta também: rés-do-chão de pedra, primeiro andar de paredes de madeira, 220 metros quadrados, quatro quartos. Adolescente, Madonna viveu lá com o pai, a madrasta e os irmãos, e andou no liceu local.

Lembro isso porque foi Cleveland e aquele comício que me conduziram a Bay City, noutro estado, o vizinho Michigan, e a outro lago, o Huron. Na campanha, o presidente andava com Bruce Springsteen a animar-lhe os comícios e o adversário, Romney, com Sam Moore, um cantor negro que de suspensórios e óculos escuros no palco ensinava os brancos da assistência a cantar o hino americano, "respirem fundo", dizia, antes de atacar com voz profunda "oh terra dos homens livres..." Na campanha anterior, o velho Sam (77 anos, então) apoiara Obama, mas por um ciúme de artista mudara de lado.

Gosto de contradições e quis saber mais de Sam Moore. Fui ao Rock and Roll Hall of Fame - um moderno edifício frente aos ventos cortantes que vinham do lago Erie. O Hall of Fame está em Cleveland porque foi esta a cidade onde a expressão "rock and roll" foi dita pela primeira vez numa emissão de rádio. As cidades aborrecidas têm por vezes destes acasos. Foi também em Cleveland que nasceu o Super-Homem, pela pena de um nativo da cidade, Jerry Siegel, que naturalmente inventou o super-herói mais enfadonho do universo.

Aquele Hall of Fame, de amplas vitrinas voltadas para a paisagem cinzenta - na região se não é o nevoeiro, são as fábricas de chaminés cuspideiras de nuvens -, ganhou fama por nomear cavaleiro todos os grandes, genuínos ou aparentados, do género rock & roll. Sam Moore foi galardoado em 1992, e mereceu, bastava o Soul Man, e, em 2008, também Madonna foi lá homenageada, e também por bastas e boas razões. Ela já fora como uma virgem, já fora como uma devota, já fora caribenha da Isla Bonita... O que eu não sabia, mas fiquei a saber no Hall of Fame de Cleveland, é que ela nascera ali ao lado. Enfim, a 400 quilómetros, seguindo pelas margens de lagos, entre bétulas e áceres - Bay City.

Uma vez passei por uma cidadezinha do Kentucky, Ashland, onde havia um cartaz no jardim de uma casa com toldos alegres sobre as janelas: "Aqui viveu Charles Manson parte da sua meninice". E em letras mais pequeninas: "Passe mas não pare nem incomode os atuais proprietários."

Se já passei (daquela vez, admito, por mero acaso) em rua que ostentava a honra de ter albergado o assassino Charles Manson, compreender-se-á que eu quisesse ver onde a rainha da pop entrou em cena. No dia seguinte a Obama ganhar, fui pagar a promessa. Meti-me à estrada, recusei-me a entrar em Detroit, onde já passara anos antes - cidades que têm um pneu gigantesco como monumento não me apanham duas vezes - e cheguei a outro lago, o Huron.

Quem se mete em peregrinações pela América arrisca-se a coincidências: num país continente, Stevie Wonder e Madonna nasceram a sete quilómetros de distância.

De facto, eu devia ter entrado em Detroit e ter ido ao Rochester Hills, no subúrbio Pontiac (em Detroit, quase tudo evoca automóveis). No cruzamento das ruas Oklahoma e Texas, havia uma vivenda de dois andares. Na América chamam estilo colonial a quase tudo e àquela casa modesta também: rés-do-chão de pedra, primeiro andar de paredes de madeira, 220 metros quadrados, quatro quartos. Adolescente, Madonna viveu lá com o pai, a madrasta e irmãos, e andou no liceu local. O pai vendeu a casa à família Andres e esta sonhou, num exagero, fazer uma espécie de Graceland, a mansão de Elvis em Memphis, património histórico americano e meca turística.

Os Andres ficaram com a casita onde ela morara, umas fotos e uma cama onde talvez a jovem Madonna tivesse feito sabe-se lá o quê, e puseram a propriedade em leilão no eBay. O lance mais alto chegou a 99 milhões de dólares! Mas foi de uns estudantes alemães a gozar. No fim, os Andres tiveram um lucro de 40 mil dólares... Provavelmente eu fiz mesmo bem em ter continuado pela estrada estadual 23 e não ter guinado para Detroit.

Em português, a secção Curiosidades de Bay City indica que Madonna, notável curiosidade como poucas, nasceu lá, a 16 de agosto de 1958.

No entanto, parei já quase no fim da viagem, na cidadezinha de Saginaw. Aí, num bairro negro e miserável, havia um monumento a um artista local: Stevie Wonder nascera lá e havia um pedestal de tijolos, de meio metro de altura, com uma pequena rocha branca em cima. Os tijolos nomeavam obras do músico cego, mas havia alguns já arrancados e tudo tinha ar muito triste. Em todo o caso, era uma homenagem a um filho famoso da terra - o que nem sempre acontece, como eu iria dar conta sete quilómetros adiante, ao chegar a Bay City. Sim, leitor, quem se mete em peregrinações pela América arrisca-se a coincidências: num país continente, Stevie Wonder e Madonna nasceram a sete quilómetros de distância. Mas não percamos o fio à meta da viagem e à protagonista.

Desde logo, apresento a cidade: entre os acontecimentos notáveis de Bay City há Marvin Schur, 93 anos, que, há uns dez anos, passou um cheque para pagar a eletricidade, o pessoal da empresa cortou-lhe a luz e ele morreu de frio. Não parece Fargo? Quando o encontraram congelado e falecido, encontraram também o cheque que o velhote se esquecera de enviar. Fargo... Se isto não bastasse para dar remorsos a uma cidade (a empresa de luz era municipal), descobriu-se também que o testamento de Schur deixou 500 mil dólares ao centro médico local. Acabo de citar a Wikipédia, em inglês, na secção Acontecimentos Notáveis de Bay City. Em português, a secção Curiosidades de Bay City indica que Madonna, notável curiosidade como poucas, nasceu lá, a 16 de agosto de 1958.

Um dia, em 1987, numa entrevista televisiva que se tornou célebre e envenenou para sempre a cidade e a sua nativa, Madonna disse de Bay City: "É uma cidadezinha fedorenta do norte do Michigan."

Houve ainda um outro grande episódio em Bay City, esse mais antigo, de 1990, a que os jornais chamaram "Quando o Inferno visitou o rio Saginow". Um porta-contentores entrou no canal com nós a mais, uma vaga arrancou o navio-tanque Jupiter das amarras do cais e seguiu-se uma explosão. Um espetáculo ofuscante como a abertura do vídeo Burning Up ou um pequeno sinal de pecado no canto superior de um lábio carmesim, que por essa altura já o mundo inteiro reconhecia.

Bay City tem um festival de música anual, por setembro, o Hell's Half Mile, a Meia Milha do Inferno. E não, o festival não se lembrou de ter por madrinha a filha da cidade que pelo mundo fora sugeriu e enfeitou o desejo mais do que todas as filhas de Sodoma e Gomorra. O festival de Bay City é dedicado aos dias antigos da povoação madeireira, nos finais de 1800. Os lenhadores regressavam à cidade, depois de meses solitários nas florestas à volta dos Grandes Lagos, e na Water Street havia túneis ao longo das margens do rio Saginaw, sob a rua e os prédios, sob os saloons e os bordéis, sob as rixas de bêbedos e o sexo desatado... E nem esse evento se lembrou de que a cidade tinha uma mulher cujo simples olhar de pálpebras pousadas tinha uma carga sensual maior do que qualquer invocação de infernos parolos...

Um dia, em 1987, numa entrevista televisiva que se tornou célebre e envenenou para sempre a cidade e a sua nativa, Madonna disse de Bay City: "É uma cidadezinha fedorenta do norte do Michigan." Um par de frases depois, porém, ela dizia que tinha "muito carinho por Bay City". Nunca mais Madonna disse mal da cidade, e, no falar livre de uma mulher polémica, "fedorenta" não é uma palavra imprópria para definir o que causam as indústrias poluentes tão comuns, ali e arredores... Mas as relações continuaram tensas entre Madonna e Bay City.

Dois anos antes da infeliz frase, o canal MTV noticiou que a cantora devolvera a chave da cidade com que a câmara a teria honrado. Era uma chave bem torneada no metal, e com um desenho esmaltado do centenário City Hall. Ora, a cantora nunca poderia ter feito tal desfeita. O mayor de então, Tim Sullivan, que era conservador, havia recusado conferir aquela honra a uma cantora que posou para a Penthouse quase nua... O episódio foi bem relatado no livro Madonnaland, de Alina Simone, que a Rolling Stone Magazine considerou uma das dez melhores obras de 2016 sobre artistas.

Em 2012, fui direito à Rua Smith, olhei para a vivenda de tijolos castanhos, número 1204, onde ela, criança, visitava os avós. Como por toda a pequena cidade não havia turistas, nem uma só tabuleta a assinalar a passagem de Madonna.

Bay City, como é tradição das cidades e dos estados americanos, escolhe símbolos vários para a representar. Como o Idaho tem a batata como seu vegetal e a Georgia, naturalmente, fez de Georgia on My Mind, de Ray Charles, o seu hino estatal. Em 2014, Chistopher Shannon, mayor de Bay City, a cidade da cantora que tem sete estatuetas e 23 nomeações nos Grammys, escolheu para hino local 96 Tears, uma canção que teve algum êxito em 1966. A música era da banda Question Mark & The Mysterians, onde tocava Charles Brunner, que foi o mayor anterior a Shannon. E este, Christopher Shannon, foi guitarrista e cantor da banda The Swaggering Rogues, também muito popular nos bailes de finalistas da região dos Cinco Lagos. Como se os músicos assim-assim tivessem combinado mostrar publicamente o despeito deles pelo sucesso mundial da conterrânea.

Entretanto, Madonna quase deixou de ir a Bay City. Corriam avistamentos dela, como ainda hoje acontece com Elvis Presley por toda a América e mesmo além (eu vi um em Macau, há quase 20 anos). Madonna a visitar a avó materna, Elsie Fortin, na Rua Smith, onde ela morreu, em 2011... Madonna no cemitério de Kawkawlin, a debruçar-se na lápide de Madonna Fortin Ciccone, a mãe que morreu aos 30 anos quando ela tinha 5 anos... Madonna de óculos escuros a entrar na loja de doces St. Laurent's Brothers, de toldos às riscas brancas e vermelhas, na Water Street (afinal, hoje, sem rixas nem sexo)...

Em 2012, fui direito à Rua Smith, olhei para a vivenda de tijolos castanhos, número 1204, onde ela, criança, visitava os avós. Como por toda a pequena cidade não havia turistas, nem uma só tabuleta a assinalar a passagem de Madonna. Nem saí do carro, baixei o vidro mas não senti o cheiro da Dow Chemical's, na vizinha Wilder Road. A fábrica química já não funcionava, tinha preenchido a sua função história de empestar as relações de Madonna Louise Ciccone com a sua terra natal.

Em 2033, pelos 75 anos de Madonna, vou meter-me no carro até às Janelas Verdes contar turistas. A menos que se entremeta uma frase infeliz.