Refeições em cuvetes de plástico são coisa do passado nas escolas de Lisboa

Cinco mil crianças do pré-escolar e do primeiro ciclo deixam neste ano letivo de almoçar através do sistema de catering a quente. A Escola Básica do Castelo é uma das 23 escolas que sofreram uma adaptação da Câmara de Lisboa, que ficou "abaixo dos 150 mil euros" e que poupa "50 toneladas de plástico não reciclável por ano".

"Não tem nada que ver [com os anos letivos anteriores], é mesmo caso para dizer que foi de oito para 80. Antes a comida vinha embalada, agora é confecionada e entregue no dia. Antes era plástico, agora é empratamento", explica ao DN a responsável do refeitório da Escola Básica do Castelo, Sofia Silva.

É quinta-feira. O ano letivo ainda não arrancou nesta escola do primeiro ciclo, na freguesia de Santa Maria Maior, em Lisboa, mas ao meio-dia já há 16 crianças - integradas no programa municipal Componente de Apoio à Família (CAF) -, sentadas à mesa para almoçar. O prato de hoje é arroz com feijão, lombo de porco assado e curgete assada, e a novidade é não ser servido em cuvetes de plástico.

Nesta escola e em mais 22 já não há refeições frias nem pratos, talheres e copos de plástico, devido ao protocolo assinado em julho pela Câmara Municipal de Lisboa com várias entidades,para melhorar a qualidade das refeições servidas nos jardins-de-infância e escolas de primeiro ciclo da capital.

Os alunos e os pais agradecem e a autarquia reduziu a pegada ecológica "em cerca de 50 toneladas de plástico não reciclável por ano" com a extinção do sistema de catering a quente, explica o vereador da Educação, Manuel Grilo (BE - que também detém o pelouro dos Direitos Sociais, depois de um acordo firmado entre o Bloco e o PS depois das últimas eleições autárquicas).

Maria, de 8 anos, está no quarto ano e admite gostar "mais do sabor que a comida tem agora", porque antigamente era servida "em plástico e sabia um pouco mal". O colega de turma Filipe concorda e explica que nos anos letivos anteriores o sabor do plástico "podia entrar na comida", "os talheres estavam sempre a partir-se" e tinham de "trazer os de casa".

E enquanto o novo sistema não arrancou, a turma tomou medidas. "Criamos um movimento reivindicativo no terceiro período e decidimos começar a fazer a mudança. Pedimos aos alunos para trazerem talheres de casa, que lavavam no final do almoço", explicou Ariana Furtado, docente da turma do quarto ano.

O vereador bloquista, Manuel Grilo, explicou que o protocolo - assinado pelo antecessor, Ricardo Robles - também garante que a comida "é decidida por nutricionistas, que têm em atenção a idade das crianças" e que tudo "é levado em linha de conta quando se fazem as ementas" para as escolas.

"Apesar de o plástico ser resistente, havia interação, pelo menos, a nível do sabor", considera.

Antigamente, as doses individuais eram preparadas por uma empresa, colocadas dentro de cuvetes de plástico e depois a temperatura era baixada para cerca de quatro graus para armazenamento. Quando chegava o momento de enviar as refeições para as escolas, as doses eram reaquecidas a 79 graus, colocadas em caixotes e enviadas para as escolas, onde já não podiam ser reaquecidas.

As queixas de alunos e encarregados de educação eram mais frequentes durante o inverno, uma vez que a comida chegava, por vezes, fria. "Não era passível de ser aquecida [nas escolas], já vinha aquecida dos armazéns", explica.

Mas para abolir o plástico foi necessário fazer um investimento e obras nas escolas.

Manuel Grilo avança que a intervenção nas 23 instituições de ensino a cargo do município "ficou abaixo dos 150 mil euros", dos quais 40 mil foram destinados à instalação de eletrodomésticos, como máquinas de lavar louça ou as estações para manter a comida quente.

Lisboa tem cerca de 18 mil refeições contratadas por ano e a eliminação do sistema de catering a quente vai abranger cinco mil crianças, que agora vão ter refeições confecionadas no dia pelas escolas e servidas em pratos de porcelana, talheres de inox e copos de vidro.

Além desta, estavam sob o regime de catering a quente as escolas de Caselas, Moinhos do Restelo, 195, Escola das Gaivotas, Engenheiro Duarte Pacheco, Manuel Sérgio, Natália Correia, Santo Condestável, Parque das Nações, Prista Monteiro, Rainha Santa Isabel, São Sebastião da Pedreira, Teixeira de Pascoais, Arquiteto Victor Palla, Beato, Bairro do Restelo, Doutor Nuno Cordeiro Ferreira, Luísa Neto Jorge, Professor Oliveira Marques, Coruchéus, Telheiras e D. Luís da Cunha.

Já com os pratos levantados, as crianças retomaram as atividades no recreio e Manuel Grilo aproveita para confessar que gostava de que o projeto fosse estendido a mais instituições de ensino, mas garantiu que "para já" não está em cima da mesa um diálogo "acerca disto com o Ministério [da Educação]".

Se acontecer no futuro, o autarca garantiu que a Câmara de Lisboa vai assumir "todas as responsabilidades".

O protocolo contempla a colaboração com associações nacionais e internacionais, como a Administração Regional de Saúde e Vale do Tejo (ARSLVT), Associação Portuguesa de Nutrição, Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, Direção-Geral da Educação, Direção-Geral da Saúde, Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Liga Portuguesa contra o Cancro, Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

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