Noruega, de Utoya a Kongsberg

Visitei pela primeira vez a Noruega em 2005, um ano muito especial: celebravam o centenário da independência, conseguida em 1905, graças a uma separação pacífica da Suécia. Curiosamente, dos tempos dessa união entre escandinavos ficou até hoje a vontade do sueco Alfred Nobel de ser em Oslo a entrega do prémio da paz com o seu nome, enquanto os restantes seriam em Estocolmo. Ora, esta ideia da Noruega como um país pacífico, seguro, tranquilo, por vezes é abalada por estranhos incidentes, como o ataque de quarta-feira na pequena cidade de Kongsberg, com um homem a assassinar cinco pessoas com arco e flechas. Em 2011, um outro ataque, esse com bomba e armas de fogo , causou 77 mortos em Oslo e na ilha de Utoya.

Por coincidência, entrevistei nesta semana Jens Stoltenberg, secretário-geral da NATO e antigo primeiro-ministro norueguês. No final da conversa, já com o gravador desligado, trocámos umas palavras sobre o que é isto de ser um pequeno país, uma alusão a Portugal e à sua história, mas também ao que foi e é a Noruega, que com cinco milhões de habitantes tem uma projeção internacional bem superior à dimensão da população, atuando até como mediadora em múltiplos conflitos, como o israelo-árabe (recorda-se dos Acordos de Oslo?), ou fazendo a ponte entre rivais políticos, como na Venezuela entre o governo e a oposição.

Esta capacidade da Noruega de influenciar longe de casa tem muito que ver com o prestígio ganho em casa. Graças a uma tradição de governo social-democrata (respeitada pelos governos conservadores, como o agora de saída), aliada ao espírito empreendedor do luteranismo, e também a recursos naturais generosos, que incluem o petróleo mas também o bacalhau, a Noruega lidera a tabela de desenvolvimento humano das Nações Unidas e é terceira no rendimento médio por habitante. Também está em segundo lugar a nível mundial na igualdade de género e entre os dez países com menos desigualdades sociais.

O autor do ataque de há dois dias é um dinamarquês (com família também na Noruega) convertido ao islão, Espen Andersen Bråthen. As autoridades começam a acreditar que foi terrorismo o que se passou, neste caso no sentido ideológico oposto ao de Anders Breivik há uma década, pois então os alvos foram sobretudo jovens do Partido Trabalhista considerados permissivos perante as vagas de imigração, oriundas sobretudo de países muçulmanos. Dois sobreviventes de Utoya tornaram-se agora ministros no novo governo de esquerda em Oslo.

São lobos solitários, ao que tudo indica, os terroristas que atuaram tanto em 2021 como em 2011. Situação complexa de prevenir. O que significa que nem o mais pacífico e próspero dos países, também dos que mais investem no mundo, pode pensar que está a salvo do terrorismo. Um alerta pois a todos. Nunca confiar, manter sempre a vigilância (e isto compete às autoridades) e insistir numa vida livre, social, sem medos, e isso já compete a nós todos, cidadãos, sejamos noruegueses ou portugueses.

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