O interesse português no Ártico

Na política internacional, a distância geográfica não deve ser confundida com afastamento de interesses. A evolução climática no Ártico precisa de acompanhamento em Lisboa e vai moldar a geopolítica nos próximos anos. Antecipar tendências e prevenir riscos é quase tudo na tomada das melhores decisões.

O crescimento dos partidos verdes nestas últimas eleições europeias deveu-se muito à transversalidade política das suas principais bandeiras (alterações climáticas, migrações, globalização) e facilitou o diálogo com os eleitores mais jovens, pouco entrincheirados na dicotomia esquerda-direita. Embora mais pragmática e com outra sofisticação argumentativa, se comparada com a geração de líderes dos anos 1970 e 1980, os principais rostos dos grandes partidos verdes europeus podiam ir mais além na articulação entre clima e geopolítica, comércio e regulação, segurança e liberdades. Podiam eles e podiam todos os outros que, estando do lado da história que se opõe ao nacionalismo e ao protecionismo, teimam em desarticular propositadamente as grandes tendências estratégicas globais com os interesses mais locais. Esse posicionamento não é mais do que um atestado de menoridade aos eleitores e um autorretrato da mundividência dos protagonistas políticos. A imprescindível criação de um lastro inspiracional atualmente na política também passa por ver para além do café da esquina.

Falemos, por exemplo, do binómio alterações climáticas e geopolítica. Não há neste momento geografia mais "quente" do ponto de vista dos impactos duradouros na política internacional do que o Ártico. Com níveis históricos de degelo sustentado, a região polar está no topo de várias potencialidades materiais e de outras tantas conflituais entre EUA, Rússia e China. Além de ser apontada como depositária de um quarto das reservas de gás e petróleo globais por descobrir ou ter um valor de exploração de minérios acima dos 30 triliões de dólares, já foi alvo de um pedido russo na ONU para a extensão da plataforma continental até cerca de 400 milhas, é lá que o Kremlin mantém em permanência a Frota do Norte, que congrega dois terços de todos os recursos militares navais russos. Além disso, estão em desenvolvimento novas plataformas logísticas e de exploração de gás pela Noruega (Svalbard) ou em parceria sino-russa (Yamal), e a região está hoje indicada, de uma forma renovada, como grande prioridade estratégica nas doutrinas de ação externa da Rússia e da China.

Em Moscovo, porque desde a Guerra Fria que não era assim olhada, estando hoje a ser alvo de um investimento intenso na renovação de radares, sistemas antimíssil e circulação de submarinos. A intensificação da ocupação deste espaço vital cada vez mais transitável e apetecível tornou a Rússia a principal potência do Ártico, apetrechada com 40 navios quebra-gelo de propulsão nuclear que desbravam rotas de navegação fundamentais à exportação de gás natural para a Ásia (como aconteceu pela primeira vez em julho de 2018, entre Yamal e o porto de Rudong), rota polar que retira 16 dias de circulação e milhões de custos à tradicional rota do Suez. Se tivermos em conta que os EUA têm dois quebra-gelos ativos e de menor capacidade, e a China está agora a construir o terceiro, percebemos a vantagem competitiva russa em ligar, pelo norte, os seus interesses territoriais ao Atlântico e ao Sudeste Asiático.

Em Pequim, apesar deste atraso, tem havido avanços extraordinários e já se fala numa Polar Silk Road que amplie de forma imparável a Belt and Road Initiative, que interliga os interesses comerciais e políticos chineses entre a Ásia Central, África e Europa. Basta pensarmos que, mantendo-se os efeitos do aquecimento global no Ártico como na última década, a circulação comercial entre os portos chineses e os do norte da Europa (Hamburgo ou Roterdão, por exemplo) pode reduzir em quase três mil milhas náuticas a rota feita pelo Suez, o equivalente a 12 dias de navegação, poupando dinheiro e escapando à pirataria e a outras inseguranças que abundam no Índico e nos seus congestionados estreitos. É claro que a rota do norte é hoje navegável não mais do que três, quatro meses por ano (julho a outubro), enquanto a do Suez permite a circulação o ano inteiro, mas a oportunidade aguça o engenho tecnológico e o clima pode fazer o resto. Não é à toa que a Maersk, gigante mundial, inaugurou em 2018 essa travessia comercial.

Mas que terá isto que ver com o interesse europeu, particularmente o português? A desvalorização a prazo da rota do Suez significa uma redução da importância de Sines no comércio global, dado que é um ponto de continuidade no trânsito de navios que a usam, com o impacto económico que tem para Portugal. Além de provocar esse desequilíbrio nacional em benefício de outros na Europa do Norte, mais expostos no futuro ao fluxo da rota polar, Sines precisa de colmatar essa dinâmica com o papel de porta de entrada preferencial do gás americano (ou canadiano) na Europa, competindo com os terminais da Polónia e dos países bálticos, e ser um promotor ativo na UE de maior independência energética europeia face à Rússia, diversificando fontes de abastecimento e a própria carta de consumo, passos que carecem de concretização.
Precisamente porque as alterações climáticas, a regulação comercial, a circulação marítima, a influência de outras potências no Atlântico ou a segurança energética são temas vitais a Portugal e à Europa, Portugal devia estar mais presente nas dinâmicas políticas do Ártico, dirimidas, apesar de tudo, num fórum multilateral (Conselho do Ártico), com oito membros permanentes (cinco dos quais da NATO), entre eles EUA e Rússia, e 13 observadores, entre os quais, do lado europeu, Espanha, França, Alemanha, Holanda, Reino Unido, Polónia e Itália; e do lado asiático, China, Japão, Coreia do Sul, Singapura e Índia.

A política externa é a nossa política pública menos dotada de orçamento para a importância que tem para o país. Pode até estar desadequada nos meios, nos instrumentos, na linguagem e na atuação para se impor no espaço público e na política internacional. Mas isso não significa que não possa ser mais criativa e prospetiva na defesa de interesses nacionais, sobretudo quando também os interesses europeus estão em jogo.

Investigador universitário

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