Dêem-nos alguma coisa para problematizar

"Bernardo Silva e Gonçalo Guedes", começou o narrador da peça do telejornal, no seu percurso inexorável para a conclusão da frase, "desenharam no relvado... um novo Dia de Portugal". Impulsionados pela conquista da véspera, que adicionou mais um troféu ao nosso palmarés patriótico, Portugal e a RTP chegaram ao 10 de Junho com disposições opostas, mas complementares: o país com imensa vontade de significar, e a estação pública com imensa vontade de interpretar o significado.

A transmissão em directo das cerimónias oficiais levou às ruas de Portalegre uma equipa de repórteres munidos de microfones e curiosidade etnográfica. "Muita gente já aqui à espera... vamos tentar falar com algumas pessoas... tentar perceber o que os portalegrenses acham do desfile militar." Um dos portalegrenses afirmou achar o desfile "interessante", ao contrário de outro, que o achou "muito bonito". Visivelmente insatisfeito com as respostas, um dos repórteres voltou à carga: "As forças armadas especiais têm sempre um impacto particular nas pessoas... tocou-lhe alguma coisa aí dentro?" "Sim, tocou."

No lado oposto da rua, e confrontada com uma portalegrense que achou "positiva" a realização da cerimónia na sua cidade "esquecida", outra repórter aproveitou para injectar uma nota de cepticismo: "Mas acha que isto é só por um dia ou vai sair daqui alguma coisa?" A portalegrense reflectiu e chegou à conclusão de que talvez um único dia não fosse suficiente: "Era importante que todos os anos se fizesse o 10 de Junho em Portalegre. A cidade precisa."

Os discursos dos presidentes - o da República e o da comissão organizadora - operaram ambos segundo o princípio estabelecido por Saul Bellow numa célebre resposta a jornalistas nos anos 1970: ser a favor de todas as coisas boas (justiça, carácter, cidadania, meritocracia) e contra todas as coisas más (pobreza, desencanto, bancarrota, corrupção). Mais do que as palavras, as suas meras presenças representavam tributos tangíveis às recompensas meritocráticas do talento, do trabalho, e da programação da TVI.

Depois de perguntar às pessoas o que achavam do desfile, os repórteres de rua perguntaram-lhes o que achavam dos discursos, e receberam invariavelmente respostas, demonstrando assim o sucesso dos mesmos: aquilo que pedimos a todos os discursos, políticos ou não, é que nos permitam achar coisas sobre eles.
É também o que pedimos ao país, através do costume ancestral de aniquilar preposições e promover "pensar" a verbo transitivo directo. Mais do que a poesia, o fado ou mesmo o futebol, "Pensar Portugal" é talvez a nossa mais consumada forma de expressão artística, e o Prós e Contras é o nosso Jamor. A edição desta semana juntou oito escritores e poetas para uma sessão de improvisação, precedida por excertos motivadores de entrevistas a dois históricos da modalidade.

Eduardo Lourenço foi o fundador e continua a ser um dos mais virtuosos praticantes. Se "Pensar Portugal" fosse jazz, ele seria o seu Buddy Bolden. Se "Pensar Portugal" fosse um livro, ele seria o autor do Prefácio. Desde O Labirinto da Saudade, tem sido um infatigável intérprete/auteur da "identidade nacional": essa misteriosa propriedade partilhada por Sidónio Pais, Eládio Clímaco e Abel Xavier, e que a todos nos aconchega num destino comum. "O país não se problematizou durante séculos, e não tinha de se problematizar. Nós só nos problematizámos quando tivemos de participar na aventura genérica da cultura europeia."

António Lobo Antunes, apesar de ser um praticante exímio da problematização, encara "Pensar Portugal" como uma actividade recreativa: algo a que se dedica nos intervalos da sua verdadeira vocação, que é identificar coisas muito mais importantes do que o Prémio Nobel. "Nós somos um povo extraordinário", começou, em resposta a uma pergunta de Fátima Campos Ferreira da qual nem ele, nem ela, nem eu nos lembramos. A pergunta seguinte incluiu a palavra "Europa", que lhe serviu de mote para afirmar "Eu não me sinto europeu". É compreensível a falta de afinidade com um continente que todos os anos se dedica a actividades tão irrelevantes como a atribuição de prémios Nobel. "Nós estamos mais virados para África... a capital mais próxima de nós é a de Marrocos", lembrou ainda, correctamente (Rabat fica a meros 943 quilómetros de Lisboa, ao contrário, por exemplo, de Estocolmo, que fica a 3593). A frase seguinte, que procurou ilustrar e reforçar estas distâncias relativas, teve um começo promissor: "Eu sinto-me muito mais próximo de um africano ou de um árabe do que de um dinamarquês ou de um...", os sábios olhos azuis relampejaram enquanto o apurado instinto artístico escolhia outra nacionalidade que simbolizasse o seu afastamento da Europa, "...ou de um sueco".

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Inspirados pela estrutura melódica estabelecida por tão distintos precursores, o ensemble em estúdio passou a restante hora e meia a deliciar o público com estonteantes proezas de improvisação. Fátima Campos Ferreira forneceu, com a competência habitual, uma sólida base rítmica: "Afinal o que é que nós somos? Como vivemos? O que nos fez ficar assim? O que gostávamos de ser? O que nos falta ser?"

A partir daqui, os solistas tinham total liberdade para procurar a modulação inspirada. Uma frase podia começar na tonalidade de Dó maior ("eu não queria estar a ser demagogo, mas") e ao terceiro compasso variar para um Fá maior ("houve uma altura em que navegar era descobrir outros mundos, hoje navegar é ficarmos no sofá aburguesados nos ecrãs"). O solista seguinte podia então adoptar a clássica cadência 2-5-1, com a devastadora sequência Subdominante ("as elites estão separadas das massas") - Dominante ("os jovens não se sentem motivados") - Tónica ("eu fico um bocadinho arrepiado porque me lembro logo de Pessoa").

Os rasgos individuais sucederam-se: duelos em furtivo contraponto, pontuados por breves mas evocativos silêncios. "Vivemos em crise permanente", "é uma questão fundamental", "o paradigma novo que aí está", "o passado é muitas vezes o catalisador do futuro". Ouviu-se um derradeiro lamento pungente, uma única nota solta a ressoar no auditório: "Se calhar as pessoas não sabem ler!" Pausa dinâmica. "As generalizações são perigosas." De súbito, um acorde apaziguador ("nós, portugueses") inicia a rearmonização: "Os portugueses têm características maravilhosas", "os portugueses têm o hábito", "isto também é um bocadinho português". Espontaneamente reconciliados, os solistas procuram o conforto dos seus ecos e fundem-se numa harmonia fraterna: "Pegando no que disse o António", "acho que o Afonso tem razão quando diz", "eu estou de acordo com o Jacinto", "concordo totalmente com a Luísa!". O recital terminou com a série de batimentos ritmados que costumam indicar aplausos, mas que aqui era apenas o som de um país devidamente problematizado a dar palmadinhas exaustas nas suas próprias costas.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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