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"O nacionalismo nunca desapareceu. Foi apenas abafado"

No seu novo livro, A Era dos Muros, o jornalista britânico Tim Marshall fala sobre as divisões que crescem um pouco por todo o mundo. Trabalhou em mais de 40 países, foi editor de diplomacia da Sky News e passou também pela BBC. Entrevista exclusiva ao DN.

Neste ano o mundo vai celebrar o 30.º aniversário da queda do Muro de Berlim. Trinta anos depois, em vez de uma mentalidade "é preciso quebrar os muros" temos uma "mentalidade fortaleza". Em vez de uma Europa unida temos uma Europa desunida. Como é que se chegou a isto?
1989 marcou, de facto, o fim de uma era e o início dos anos do pós-comunismo. Porém, a queda do Muro coincidiu com - e contribuiu para - uma aceleração da globalização e da tecnologia. Estávamos deslumbrados com a nova unidade da nossa casa comum europeia. Na América, um académico proclamou "o fim da história". Mas a história tinha outros planos. O nacionalismo nunca desapareceu. Foi apenas abafado. Então, quando surgiu a crise financeira, em 2008, o sistema deixou de funcionar para cada vez mais pessoas, em simultâneo, numa altura em que a crescente globalização acelerada estava a transferir empregos para os países em desenvolvimento. Isso coincidiu com o despertar de tecnologias que, pela primeira vez na história, permitiram aos pobres ver como as outras pessoas viviam e tentar chegar lá mais depressa do que antes acontecia. Com os níveis de vida a cair em vários países europeus, por causa da austeridade, houve uma entrada de pessoas dos países em desenvolvimento. Isso causou um choque nacionalista entre as pessoas que receavam perder os seus empregos, os seus benefícios sociais e a sua cultura. Numa atmosfera de "todos contra todos" o canto da sereia dos populistas é amplificado. À medida que se vai ouvindo mais alto, os líderes nacionais começam a cantar a mesma canção e sentem-se forçados a abordagens menos internacionalistas. Na UE vimos isso com o Brexit, na Polónia, na Hungria e a recusa de muitos Estados em aceitar as quotas de refugiados que a senhora [Angela] Merkel disse que eles tinham de aceitar.

Metade das barreiras erguidas desde a II Guerra Mundial foram erguidas nos últimos 18 anos. Que padrões estão a ser repetidos? Que lições não aprenderam os europeus?
Em 1945 a Europa aprendeu as lições não só da II Guerra Mundial, mas também dos últimos mil anos. A resposta foi a UE. Porém, há um limite para a memória e a memória da guerra desvanece-se, é cada vez mais difícil defender a necessidade de "uma União cada vez mais estreita". A somar a isso, como referi, quando os eleitorados e os Estados se sentem ansiosos constroem muros. As vedações na Europa são temporárias e respostas parcialmente bem-sucedidas aos movimentos de pessoas - vedações na fronteira entre a Grécia e a Turquia, a erguida à volta da Hungria, da Bulgária e outras. Até as erguidas em Calais para evitar a entrada no túnel e nos ferries. Quanto aos padrões, o verdadeiro padrão é o da história da humanidade ela própria - quando suspeitamos de algo, estamos ansiosos ou a competir por recursos, primeiro construímos a diferença "entre nós e eles" na nossa mente e, a partir daí, surgem as barreiras físicas.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.