Carne processada e leite achocolatado fora das escolas, querem PAN e PEV

PAN e PEV levam quarta-feira à Assembleia propostas para mudar a alimentação nas escolas. Às portas de Lisboa, há um jardim de infância que já o fez, há mais de três décadas.

Os projetos de lei do PAN e do Partido Ecologista os Verdes (PEV) para acabar com o leite achocolatado e as carnes processadas nas refeições das cantinas escolares, e impedir os produtos prejudiciais à saúde nas máquinas de venda automática nos estabelecimentos de ensino estão à discussão esta quarta-feira, na Assembleia da República. Ao todo são 14 os projetos de lei sobre cantinas e alimentação nas escolas que vão estar em discussão no parlamento.

PEV, BE e PCP defendem também o regresso às cantinas públicas, ponto fim à gestão privada.

O partido liderado por Catarina Martins considera que a "política de concessão dos refeitórios escolares à iniciativa privada tem-se revelado desastrosa". "Não só a qualidade da alimentação fornecida aos estudantes baixou de forma dramática como o controlo sobre a quantidade e a qualidade dos alimentos se revelou muito difícil se não mesmo impossível de concretizar de forma continuada", lê-se no projeto lei do BE. Nesse sentido defende que "é necessário pôr termo" ao "processo de privatização do serviço de refeições nas escolas públicas". "A presente lei procede à recuperação para a gestão pública das cantinas escolares dos estabelecimentos de educação e ensino públicos e à criação de mecanismos de contratação do pessoal especializado para o efeito", sugere o partido no projeto de lei que se refere às cantinas das escolas públicas do 2º e 3º ciclos do ensino básico, do ensino secundário e do ensino profissional.

O projeto de lei do PCP propõe "que o Governo crie um procedimento para reversão da concessão das cantinas escolares para a gestão pública e que simultaneamente assegure os meios humanos e materiais necessários ao bom funcionamento das cantinas escolares e à qualidade das refeições fornecidas". Na proposta do PEV é recomendado ao Governo que "elabore um plano que contemple medidas para se assumir, de modo progressivo, a gestão direta das cantinas escolares nos agrupamentos e nas escolas não agrupadas, cuja responsabilidade é da Administração Central" e que "garanta que é impedida a renovação de contratos de concessão de cantinas escolares quando são identificados casos de falta de qualidade das refeições escolares, por violação dos respetivos cadernos de encargos".

O PEV apresenta também uma proposta que pretende uma alternativa de bebida vegetal ao leite. É a alimentação escolar de novo em debate, quando a obesidade infantil, consequência da alimentação desequilibrada e de estilos de vida sedentários, parece longe de debelada - em Portugal, uma cada três crianças até aos 10 anos tem excesso de peso.

Por isso, diz Mário Silva, presidente da APCOI, a Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil, "o debate é bem-vindo e medidas para travar o problema também". Mas não pode ser tudo proibido.

"Não basta proibir"

"Estamos cem por cento de acordo que se retire o leite achocolatado das escolas", diz Mário Silva. "Não faz bem à saúde, tem açúcar a mais, e contribui para a obesidade infantil."

O princípio é o mesmo para as carnes processadas, "mas é preciso ver se há alternativas no caso do fiambre, porque se não houver, não basta proibir. Não é mais saudável comer um bolo ou um pão com manteiga, em vez de um pão com fiambre", alerta. Quanto à bebida vegetal alternativa, "se tiver açúcar adicionado, não é mais saudável do que o leite de vaca".

Já a retirada dos produtos prejudiciais à saúde nas máquinas de venda nas escolas é ideal. "Em vez de bolos, chocolates e bolachas, deve haver fruta, saladas e outras opções saudáveis, isso já é assim noutros países e é importante que se se faça o mesmo Portugal", conclui Mário Silva.

A escola onde tudo já acontece

Sopa, claro, e uma salada russa toda às cores - o verde das ervilhas, o branco e o amarelo das batatas e do ovo, as cenouras, tudo cortado aos cubinhos, com umas folhas de alface. Depois a fruta, que pode ser ameixa, ou cerejas, morangos, melancia, maçã ou melão. E uma vela acesa de propósito para a ocasião, no centro da enorme mesa retangular. A toda a volta sentam-se os 20 meninos dos quatro aos seis anos do Jardim de Infância São Jorge, em Alfragide, e as educadoras que os acompanham na refeição. A vela, explica a diretora, Paula Martinez, "cria um ambiente bonito, de harmonia". O almoço, diz, "também é um momento importante de sociabilidade e de partilha".

Este seria, mais ou menos, o cenário ideal das escolas todas, se fossem aprovados os projetos de lei que o PAN e o PEV vão levar ao Parlamento esta semana. Este jardim escola leva as coisas mais à letra. Os alimentos são aqui obrigatoriamente de origem biológica: os cereais e os legumes, o grão, o feijão e as lentilhas, a fruta, "que é muito variada", o tofu, e também os ovos e o leite, que se servem aqui com menos frequência.

Neste jardim de infância às portas de Lisboa, há 35 anos que a alimentação é assim: saudável, a pensar "no todo harmonioso da criança em formação", mas nem por isso menos saborosa e aromática. "As crianças comem-na muito bem e com muito gosto", garante satisfeita Paula Martinez.

A Júlia, de seis anos, acerca-se, curiosa. E ela gosta do almoço na escola? Júlia acena que sim. "É muito bom", diz sem hesitações. E até tem um prato preferido. "É a massinha com molho de tomate, gosto muito, muito, muito", diz cheia de entusiasmo. Margarida, da mesma idade, concorda. Já o feijão... Júlia faz uma careta.

Ovolactovegetariana, esta alimentação, assim pensada e cuidada, é um dos pilares em que assenta a visão pedagógica da escola Waldorf, que é a deste jardim de infância. O menu está estabelecido para cada dia da semana, sempre a começar com a sopa "de legumes tradicional", explica a diretora. Depois, à segunda-feira há tofu, à terça são as leguminosas, como o feijão, o grão ou as lentilhas, à quarta come-se massinha integral com molho de tomate e queijo, um dos pratos mais populares entre as crianças, como já viu; quinta é dia tarte, "feita com farinha integral", e à sexta-feira, a refeição pode variar entre a salada russa ou outras saladas de verão. A finalizar, como a meio da manhã, a fruta é obrigatória.

Fico supertranquila por saber que as minhas filhas têm este privilégio de uma alimentação saudável

Aqui não entram carne nem fiambres, salsichas com batatas fritas, ou leite achocolatado e refrigerantes, nem mesmo leites vegetais que tenham açúcar adicionado. Tudo isso é processado e contém aditivos, açúcares e sal a mais, e conservantes de vários tipos - tudo nos antípodas da alimentação biológica que há muito é a escolha desta escola.

As crianças são habituadas desde pequenas - o jardim-de-infância de São Jorge recebe a partir do ano e meio - a este tipo de alimentos e de paladares, e isso "tem muitos benefícios para a saúde a longo prazo", sublinha Paula Martinez. "Promove a consciência sobre as escolhas alimentares e, mesmo que, depois, na adolescência os miúdos passem por uma fase de menor critério, voltam mais tarde a comer de forma mais saudável".

Para muitos pais, esta foi, aliás, uma questão decisiva na escolha. Ana Conceição, que tem ali as duas filhas, Violeta, de quatro anos, e Concha, de dois, não podia estar mais satisfeita. "É uma questão decisiva e eu fico supertranquila por saber que as minhas filhas têm este privilégio de uma alimentação saudável", diz. Por causa disso, Ana até já mudou muito a forma como a família come em casa. Faz mais pratos vegetarianos, embora às vezes as filhas se queixem "de que na escola é melhor", como diz a sorrir. Decisiva é a questão da saúde. "O meu pai tem diabetes tipo 2, por causa da alimentação, e isso revolta-me". Ana preferiu esta escolha, e acredita nela.

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