Hells Angels: autoridades temeram atropelamentos em massa e tiroteios

Como as secretas e a Polícia Judiciária trabalharam para dar a "machadada" em Portugal ao maior gangue de motards do mundo.

Valentina Marcelino
© REUTERS/Kai Pfaffenbach/File Photo

Portugal despertou para o fenómeno dos gangues rivais de extrema-direita, motoqueiros e perigosos, em março deste ano, no ataque a um restaurante no Prior Velho dos Hell"s Angels sobre os Bandidos, encabeçado por Mário Machado. Mas a PJ já os conhecia há uns anos. Estavam debaixo de vigilância, e o que aconteceu no Prior Velho foi fulcral para identificar os envolvidos.

Este trabalho de identificação já tinha sido feito quando, há cerca de uma semana, o SIS veio alertar para o elevado risco da habitual concentração de motards em Faro - que está prevista para os próximos dias 19 a 22 - se transformar num banho de sangue. Em causa estava a previsível retaliação dos Bandidos contra os Hells Angels pela humilhação sofrida no ataque de março no Prior Velho.

O Diretor Nacional na PJ, Luís Neves, ouviu com atenção o que Neiva da Cruz, o Diretor do Serviço de Informações de Segurança (SIS) lhe confidencio, reforçando a preocupação que os seus inspetores já lhe tinham antes transmitido sobre a ameaça em relação a esse encontro. Os espiões tinham relatos de movimentações de elementos dos Bandidos na cidade de Faro - possivelmente estariam a reunir e a esconder antecipadamente armas, para que não fossem detetadas pelas autoridades nas habituais operações stop que antecedem o evento motard.

As secretas admitiam ainda a possibilidade de os Bandidos entrarem no recinto do encontro motard em carrinhas pick up, que alugariam em Espanha, para atropelar membros dos Hells Angels - um pouco à semelhança de outros ataques terroristas internacionais. Com milhares de pessoas no terreno - estes encontros costumam reunir milhares de participantes -, as vítimas colaterais seriam inevitáveis.

Toda esta operação seria executada por uma unidade musculada dos Bandidos, composta essencialmente por elementos alemães, que se deslocariam propositadamente a Portugal . São designados pelos TCB: "Taking Care of Bussiness". Cerca de uma centena estaria junto à fronteira espanhola, prontos para serem chamados.

O SIS insistiu para o perigo iminente, insistiu nos riscos de conflitos sangrentos e apelou a que fossem tomadas medidas para proteger os outros motards e famílias sem quaisquer ligações a estes grupos com atividades criminosas que estariam em Faro, e em risco. Para as secretas a ameaça era real. Para a PJ também não havia mais tempo a perder.

A imagem de um tiroteio entre Bandidos e Hells Angels num contexto com elevado número de pessoas era aterrador. Luís Neves decidiu então avançar para o terreno e em força, com mais de 400 inspetores, no que acabou por ser a grande operação de ataque a este gangue em Portugal, com conhecidas ligações à extrema-direita, na passada quarta-feira. Foi dada a "machadada" na organização, como reconheceu a coordenadora da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ, Manuela Santos, responsável pela operação.

"É uma questão de liberdade", declarou Luís Neves, logo na abertura da conferência de imprensa no dia da megaoperação. "A Polícia Judiciária nunca permitirá que a liberdade não seja um acento tónico em qualquer ponto do território nacional". Salientou que os Hells Angels estavam a adquirir, pela violência, supremacia entre os grupos motards "coagindo-os" a criar "um clima de terror e medo".

Nesse sentido, assinalou, "foi restituída a liberdade a todos os grupos que se estavam a sentir condicionados para que possam continuar a participar livremente e sem medos os seus convívios". também não deixou margem para dúvidas sobre o timing da operação: "Não seria bom haver esta oportunidade para mais conflitos", disse Manuela Santos, na mesma conferência de imprensa.

Mas, claro que não é apenas a segurança dos motards de Faro que estava em causa. No Relatório Anual de Segurança Interna sobre o ano de 2017, os serviços de informações revelaram pela primeira vez que estes gangues representavam uma ameaça à segurança nacional, destacando-se nas atividades de segurança em estabelecimentos de diversão noturna. Neste momento, uma empresa que, segundo fontes do setor, tem fortes ligações aos Hells Angels, já domina 70% do mercado de diversão noturna em Lisboa e no Algarve.

O relatório dizia que "um dos principais grupos identificados com agentes de ameaça neste setor são os denominados biker 1%, sobretudo, porque não hesitam em recorrer ao uso da força para se imporem no meio e para extorquir os proprietários dos estabelecimentos". Por outro lado, acrescentavam os serviços de informações, "os clubes bikers Motorcycle Club 1% constituem ainda uma preocupação securitária acrescida pelas outras atividades criminosas que praticam".

Desde que os Hells Angels abriram o seu primeiro núcleo em Portugal, a que chamam charter, em 2002, os Hells Angels Motor Club Lisbon, que a PJ lhes segue o rasto. Na investigação aberta ao caso do Prior Velho foram incorporados outros dois inquéritos mais antigos a envolver suspeitos coincidentes. Um deles estava sujeito a medidas de coação, por ter sido apanhado em flagrante na posse de várias armas, entre as quais uma pistola metralhadora. Foi este que entrou no restaurante do Prior Velho, onde os Hells Angels atacaram os Bandidos, à cabeça do grupo, com a cara destapada, numa atitude de declarado desafio às autoridades.

Os Bandidos são históricos rivais dos Hells Angels, no mundo, e tanto a PJ como o SIS sabiam de antemão que qualquer movimentação para se instalarem e concorrerem com os HA resultaria em problemas. Em 2015 já tinha havido uma tentativa dos Bandidos criarem um núcleo em território nacional. Deslocou-se a Portugal um dos líderes alemães que ainda conversou com cinco motards. Passados alguns dias estes foram espancados por Hell Angels e desistiram da ideia.

No caso do Prior Velho, diversas câmaras de videovigilância próximas e em vários pontos por onde passaram - incluindo no aeroporto onde foram buscar alguns "irmãos" que vieram do estrangeiro para este ataque aos rivais - facilitaram a sua identificação, bem como a de outros cerca de quatro dezenas que participaram diretamente.

À medida que iam avançando na investigação - que durou menos de quatro meses - os inspetores da UNCT construíram e consolidaram a ideia de que aquela ação tinha sido planeada com antecipação, ao pormenor, quer na sua logística, quer nos elementos recrutados em Portugal e no estrangeiro. Foram inclusivamente detetados seguimentos e vigilâncias a Mário Machado, o principal alvo.

O que os inspetores viram nas imagens recolhidas do local mostrava uma organização paramilitar, que se dividiu entre os que entraram no restaurante, os que se mantiveram ao volante das viaturas, prontos a fugir, os que ficaram a vigiar na rua, os que fizeram o perímetro de segurança.

Entre o momento em que entraram no restaurante, com bastões, facas, correntes, martelos e paus, e a sua retirada, passaram pouco mais de dois minutos. A chegada rápida da PSP acabou por evitar uma tragédia maior. Seis dos 15 homens que estavam com Mário Machado no restaurante ficaram feridos, três deles com muita gravidade, tendo sido sujeitos a intervenções cirúrgicas. Os outros sete, entre os quais o próprio Machado, conseguiram fechar-se numa arrecadação e escapar.

A próxima missão das autoridades será impedir que outro gangue ocupe o espaço vazio deixado pelos Hells Angels.