O homem que não gostava de orgias

Calvino incluiu na sua definição de "clássico" a ideia de obras que não se podem "ler", apenas "reler" - não como medida da sua complexidade, mas pelo modo como nos chegam quase sempre em segunda mão. A maioria dos clássicos são textos sociais, no sentido em que muitos dos seus elementos já foram colectivamente absorvidos e distribuídos antes de lermos uma palavra. Mesmo a "segunda mão" já transmite uma ideia redutora do processo: uma cena "famosa" de Robinson Crusoe, digamos, pode ser encontrada na forma de um meme na internet, por sua vez inspirado num sketch do Family Guy, que por sua vez satirizava aquilo que já era uma modernização (o filme Cast Away) "inspirada" pelo clássico em questão.

Na impossibilidade de forjar uma relação individual com o clássico, a calibração da surpresa na primeira leitura é sempre distorcida: nenhum leitor fica surpreendido ao encontrar os moinhos no Quixote; por outro lado, é possível que alguns sintam um choque genuíno ao descobrirem que Orgulho e Preconceito, por exemplo, é um repositório de clichés da comédia romântica (clichés que fixou antes de o serem). E inúmeras pessoas que nunca leram Kafka ou Orwell transportam consigo um significado provisório dos adjectivos kafkiano e orwelliano, mesmo que esses significados se refiram apenas a filas na repartição de finanças ou câmaras de vigilância no posto dos CTT.

As duas distopias literárias centrais do séc. XX - 1984 e Admirável Mundo Novo - são vítimas especiais desta semidebilidade cultural, não apenas porque influenciaram, consciente e inconscientemente, o tom e o aspecto de quase todas as distopias cinemáticas ou televisivas que existem, mas porque também influenciaram hábitos discursivos simplificados para enquadrar e debater a nossa irritação mais recente, sejam espasmos consumistas ou iniciativas governamentais.

É uma debilidade de que Brave New World, a mais recente adaptação da obra de Huxley (os nove episódios estão disponíveis na HBO Portugal) se mostra impotentemente consciente. A dada altura, uma das personagens, cuja actividade no mundo da série é produzir curtas-metragens sensacionalistas, queixa-se de dificuldades para imaginar a sequela do seu último êxito, "A Bomba de Prazer". "Eles querem mais!", lamenta, falando sobre o público. "E eu não sei mais!" Num episódio posterior, outra personagem elabora o dilema: "Eles querem uma novidade, porque cada novidade pode ser a melhor de todas. Portanto, nós damos-lhes a novidade. Maior, mais ruidosa, mais exuberante. Porque se não o fizermos, corremos o risco de eles perceberem que a novidade afinal não é novidade: é apenas o antigo, em maior quantidade. E se é antigo, é aborrecido, e se for aborrecido, eles desligam." É um desabafo interessantíssimo para enfiar na quinta hora de uma série de televisão que não apresenta uma única novidade, mas sim várias antiguidades - maiores, mais ruidosas e mais exuberantes. Novidade há uma, aliás: a corajosa decisão de transformar a sátira de Huxley na história comovente de um homem que comparece a sucessivas orgias e sente tristeza com o que vê.

O enredo, apesar de tudo, preserva os rudimentos do livro. Um mundo no futuro distante onde uma noção limitada mas real de "felicidade" é prevalente. Contratempos do passado como a doença, a pobreza, a fome e a ansiedade foram banidos (bem como as suas causas: nomeadamente a procriação ex vitro, e as chatices da vida familiar). A sociedade, tal como no livro, aplica os princípios da mecanização e produção em massa à biologia e à psicologia: há uma hierarquia de cinco castas, todas elas condicionadas desde a infância a aceitarem as suas funções específicas: desde os Alphas e Betas, que se encarregam das tarefas intelectuais e administrativas, aos Epsilon, que basicamente andam de esfregona na mão a limpar o que está sujo. A única anomalia neste novo mundo é uma reserva natural conhecida como "Terra Selvagem", uma Comporta que as castas superiores podem visitar como um parque temático, e onde os habitantes primitivos encenam algumas tradições distorcidas do séc. XX, como a cerimónia de casamento e a corrida aos saldos.

A série nunca percebe muito bem o que fazer com este material e depressa se reduz a variações pedestres sobre o apelo do fruto proibido, dramatizando as condições necessárias para as personagens principais descobrirem os impulsos que suprimiram. Num mundo onde a promiscuidade é a norma, a monogamia adquiriu uma aura de transgressão, e uma cena no segundo episódio (quando o espectador, tal como um dos protagonistas, já assistiu à segunda de meia dúzia de longas orgias) mostra um casal improvisado a interromper subitamente um enrolanço: "E se... e se esperarmos? Podia ser... podia ser como uma... noite de núpcias!"

Ao contrário do livro, composto quase exclusivamente de diálogo e exposição, a série arranja espaço para alguns tiroteios, perseguições de carro, e até para uma fugaz aparição de Demi Moore, que, entre camisas de noite e frascos de bagaço, desenrasca uma homenagem inadvertida ao papel de Elizabeth Taylor em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? O terceiro episódio traz um dos "selvagens" para o novo mundo, onde começa por introduzir uma promissora nota de dissidência, mas rapidamente se transforma noutro homem francamente repugnado pela ideia de orgias. O selvagem do livro aprendeu tudo o que sabe nas obras completas de Shakespeare; o da série tem um walkman com uma cassete de Neil Young. Quanto à ideia central de Huxley - a de que o admirável mundo novo se autoperpetua sem líderes ou vilões - é aqui reduzida à influência despótica de um computador mau, que na sua forma humana ganha o hábito de sobressaltar personagens em corredores escuros. A escolha entre prazer e autenticidade perde grande parte do significado se o papão estiver ao virar da esquina, pronto a punir a escolha errada.

"1984 ou Admirável Mundo Novo?" é um exercício intelectual jogado com frequência pelo menos desde os anos 80. Qual a distopia mais plausível, qual a mais relevante? (Na verdade, o jogo começou muito mais cedo, na correspondência privada entre Huxley e Orwell, na qual cada um defendia a superioridade profética da sua própria obra). Como muitos desses exercícios, a escolha é uma espécie de teste de Rorschach invertido, em que deixamos a distopia seleccionada dar nome e forma às vagas silhuetas das nossas ansiedades particulares. Ambos os livros são sobre o terror do conformismo forçado; a diferença crucial é não apenas a intensidade da coerção, mas aquilo que os conformados são obrigados a aceitar. É inteiramente compreensível que um mundo sem fome nem doença e com orgias diárias não pareça um pesadelo intolerável, comparado com guerra incessante, polícias secretas e jantares de couve cozida. Mas qualquer distopia é menos sobre o medo da mudança do que sobre o medo que a mudança deixe de ser possível: de que a mudança deixe de acontecer no momento errado, consolidando algumas patologias específicas do presente e deixando-nos paralisados numa ordem imutável.

No longo diálogo que termina o livro, o momento central não é quando o Selvagem reclama sentimentalmente "o direito a ser infeliz" ("a envelhecer, a ficar feio e impotente, a sofrer sífilis e cancro, a não ter o suficiente para comer, o direito a viver num constante estado de alarme por não saber o que vai acontecer amanhã"), mas o momento em que pergunta a um dos Controladores do Novo Mundo qual a necessidade de uma hierarquia estratificada, uma vez que a tecnologia existente permitiria poupar toda a gente a tarefas físicas extenuantes. Porque não um mundo inteiro de Alphas? A explicação do Controlador é um perfeito silogismo de rabo na boca: o condicionamento das classes inferiores (que lhes é imposto) não lhes permite desfrutar do tempo livre, nem das múltiplas orgias que esse calendário alargado iria possibilitar, portanto seria cruel impor-lhes o privilégio. A desconcertante benevolência do raciocínio é um dos aspectos mais plausíveis do livro inteiro.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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