Quatro mil buracos em Blackburn Lancashire. E Freda Jackson

Estou desolada com o que aconteceu à octogenária Freda Jackson, de Blackburn, Lancashire. Poupou dinheiro da pensão e foi com uma amiga passar umas férias de pesadelo a Benidorm. Quer que a agência de viagens lhe devolva o dinheiro: havia demasiados espanhóis.

Podia ter-se queixado de outras coisas. Por exemplo, a minha razão de queixa, eu que nunca fui de férias para Benidorm mas já vi fotografias: demasiados turistas. Podia ter achado que a comida tinha muitos pimentos e muito alho, mas deve ter-se ficado pelos ovos mexidos em pó do hotel. Podia não ter gostado da música do elevador ou assim. Mas Freda é uma educadora do povo. Não percebe por que não foram os espanhóis passar férias para outro lado.

Por acaso eu, que nada tenho contra os espanhóis e não ligo à inimizade que me impingiram desde a escola, gosto de ir a Espanha. Só que quando penso em Espanha não imagino Benidorm, nem Ibiza, nem Marbella, eu é mais Salamanca, ou Mérida, ou Barcelona, ou Madrid, ou Vigo, para começar. Mas ainda me lembro do que se dizia: do lado de lá nem bom vento nem bom casamento.

Nisso do casamento não estou de acordo e a coisa toca-me pessoalmente. Foi em Badajoz que os meus pais se casaram. Os jovens militares não podiam casar-se enquanto não fossem tenentes e, portanto, atravessavam a fronteira e pronto. O que sei sobre isso está na fotografia, a minha mãe de noiva, com vestido branco, véu e flores, o meu pai fardado a rigor, botas altas e esporas. Só três anos e três filhos mais tarde oficializaram o casamento em Portugal. Bem sei que eram casamentos entre portugueses e os convidados devem ter ido todos deste lado, mas certamente havia gente nas ruas a hablar castellano, mas sem queixas de maior na família.

Adiante. Freda cheia de problemas e eu a divagar. Pelo que li na imprensa britânica e, enfim, por todo o lado, que isto agora não há notícia que não dê em fartura, ela até gostou das férias que passou em Portugal, na Grécia, na Turquia e em Tenerife, onde, por supuesto, havia menos espanhóis. Em Benidorm a coisa correu mal: escolheu um hotel que é um prédio ameaçador cheio de varandas, mas ficou mal alojada: para chegar à piscina havia 42 degraus. Quarenta e dois. E os autóctones galgavam as escadas em voo e nem pediam desculpa quando davam encontrões.

Tenho uma coisa para dizer a Freda. Não venha para o Algarve, que nós, portugueses, nestas coisas somos parecidos com os do lado de lá e temos a mania de passar férias por cá, e para aí metade da malta ruma ao mar quente e sossegado do sul. A não ser que escolha bem, muito bem, e vá decididamente para Albufeira, onde há 158 turistas por metro quadrado. Não sei como fazem estas contas, mas vem num estudo que encontrei na net que também diz que nessa terra abençoada há 39 forasteiros por cada albufeirense. Ali é que se está bem. Gente educada que fala inglês. Não sei se haverá espanhóis, que são o seu problema, mas talvez os que atravessem a fronteira fiquem pelo Sotavento.

Ou então, Freda, venha até Alfama. Diz que até há larguinhos onde os nouveaux residents não aceitam arraiais em junho, querem viver num lugar très typique mas sem povo nem tradições, um cenário, em suma.

E eu se um dia for à sua terra, Freda, hei de procurar os quatro mil buracos da estrada que os Beatles cantaram em A Day in Life. "Four thousand holes in Blackburn Lancashire." Deve haver muito mais coisas para ver em Blackburn, incluindo os 140 mil habitantes entre uns poucos espanhóis. Mas até hoje só ouvi falar dos quatro mil buracos. E de Freda Jackson.

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