Governo italiano à procura de culpados para tragédia da ponte de Génova

Vice-primeiro-ministro Matteo Salvini acusa a Europa de forçar constrangimentos orçamentais que impedem investimento público. Ponte em Génova que colapsou nesta terça-feira, fazendo pelo menos 39 mortos, era de 1967.

A garantia foi deixada cedo pelo vice-primeiro-ministro e ministro do Interior italiano Matteo Salvini. "Uma promessa: vamos até ao fim para apurar a responsabilidade deste desastre inaceitável", escreveu no Facebook o líder da Liga, partido de extrema-direita que, desde junho, governa Itália coligado com os eurocéticos do Movimento 5 Estrelas.

Tinham passado poucas horas desde que colapsara uma parte da ponte Morandi, viaduto na Autoestrada 10, em Génova. A tragédia, que fez pelo menos 39 mortos e 15 feridos, aconteceu na véspera do Ferragosto, Festa da Assunção de Maria, assinalada a 15 de agosto e altura de partida para férias de muitas pessoas em Itália.

"Quanto mais penso nos mortos de Génova mais me irrito. Os responsáveis por este desastre, com nomes e apelidos, vão ter de pagar, pagar por isto tudo, muito caro", acrescentou, a meio desta tarde de terça-feira, Salvini, no Facebook.

Citado pela Ansa, o ministro, conhecido por criticar as falhas da política migratória da UE, voltou a apontar o dedo à Europa. "Se não houvesse constrangimentos externos que nos impedem de gastar mais em estradas seguras, escolas... então realmente devemos questionar se vale a pena seguir estas regras. Não pode haver negociação que ligue regras fiscais à segurança dos italianos", afirmou Salvini, cujo governo quer excluir certos investimentos dos cálculos do défice.

O colapso, que jogou no vazio 20 automóveis e três camiões que se encontravam sobre aqueles cem metros do viaduto, ocorreu por volta do meio-dia, cerca de 11.00 em Lisboa, numa altura em que caíam chuvas torrenciais em Génova, capital da região da Ligúria e noroeste de Itália.

Cerca de 300 bombeiros estiveram envolvidos nas operações de resgate de vítimas dos escombros. Vários líderes europeus, entre os quais a alemã Angela Merkel, o francês Emmanuel Macron e o espanhol Pedro Sánchez manifestaram o seu pesar e expressaram disponibilidade para ajudar os italianos com o que for preciso. O mesmo pesar expressaram os líderes da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker e do Parlamento Europeu Antonio Tajani.

"Nestes 60 dias de governo enviámos imediatamente uma ordem para trabalhar na manutenção e segurança dos viadutos e sua monitorização através de sensores. A maioria deles, construída nos anos 50 ou 70, precisa de manutenção. Este governo entrará com dinheiro se preciso for para evitar que este tipo de tragédia volte a acontecer. Como cidadão italiano, lamento que tal manutenção não tenha sido feita nestas infraestruturas e estes acontecimentos provam isso mesmo", declarou ao TG1 o ministro das Infraestruturas e dos Transportes de Itália, Danilo Toninelli, saído do Movimento 5 Estrelas.

Na mesma linha de Salvini, Toninelli exigiu responsabilidades, para poder apontar culpados. "Quem for responsável por isto deverá pagar até às últimas consequências. Não pode ser possível ver imagens destas num país como Itália."

Também ao TG1, telejornal da Rai1, o vice-ministro das Infraestruturas e dos Transportes, Edoardo Rixi, da Liga Norte, disse: "Alguns dizem que esta é uma tragédia já anunciada. Certamente foi uma ponte que teve muito trabalho de manutenção nos últimos anos e foi pensada para aguentar. A Ligúria, neste momento, está dividida em duas. Neste país as pontes não caem por causa de raios e de tempestades. Esta ponte subestimou o passar dos anos. Precisamos pensar sobre por que não podemos viver num país com edifícios dos anos 1950 e 1960 e o nosso ministério tentará encontrar soluções."

Rixi esteve ontem no terreno a acompanhar as operações de resgate com Giuseppe Conte, o primeiro-ministro italiano, líder da improvável e controversa coligação que governa o país desde junho. Esta é, disse o vice-ministro, "a maior tragédia a envolver uma ponte desta importância na Europa nas últimas décadas".

O acidente com o maior número de vítimas mortais na Europa, até ao momento, aconteceu a 5 de março de 2001, às 21.15, quando 59 pessoas morreram na queda da ponte Hintze Ribeiro, que ligava Entre-os-Rios e Castelo de Paiva, no rio Douro, no Norte de Portugal. A ponte fora inaugurada em 1887. E projetada pelo engenheiro António de Araújo Silva.

"Este acontecimento trágico lembra porque é que os investimentos públicos são precisos e estão lá para todos. Pontes, estradas, aquedutos. Anos de possível manutenção adiada e reservada porque não havia dinheiro. A segurança dos italianos está em primeiro lugar", escreveu, no Twitter, o deputado e porta-voz para os Assuntos Económicos da Liga Claudio Borghi.

"Neste momento, todo o país deve estar com eles [vítimas e famílias], deixando de lado controvérsias e oposições de qualquer tipo", declarou numa nota enviada à comunicação social o ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. Líder da Força Itália, Berlusconi era o aliado da Liga de Salvini até este decidir formar uma coligação de governo com o 5 Estrelas.

O presidente da Câmara de Génova é Marco Bucci, desde junho do ano passado, quando venceu as autárquicas como candidato de uma aliança de direita que incluía, entre outros, precisamente a Força Itália e a Liga. O presidente da região da Ligúria é, desde junho de 2015, Giovanni Toti, da Força Itália de Berlusconi.

A empresa Autostrade per l'Italia emitiu nesta terça-feira um comunicado que informava que estavam atualmente a ser realizados "trabalhos de consolidação no tabuleiro do viaduto" e que, por causa desse projeto, "foi instalada uma grua para permitir levar a cabo as atividades de manutenção".

O viaduto que colapsou atravessa centros comerciais, fábricas, algumas casas, a linha ferroviária Génova-Milão e o rio Polcevera. Tem 1182 metros de comprimento e 90 metros de altura. Une a autoestrada A10, que vem de França, à A7, que permite seguir em direção a Milão. Apesar disso, citado pelo Corriere della Sera e Reuters, o diretor da empresa, Stefano Marigliani, afirmou que o colapso de cem metros de tabuleiro foi "inesperado e imprevisível".

Segundo o jornal de economia espanhol Cinco Dias, a Autostrade tem previsto trabalhos de ampliação da A10, em Génova, que estão autorizados desde o ano passado pela Comissão Europeia e o governo italiano. O custo dessa intervenção está previsto em 4,2 mil milhões de euros, inclui 61 quilómetros de nova autoestrada, mas, dada a complexidade do terreno, as novas estradas serão construídas debaixo de terra. Assim, a obra inclui a construção de 23 túneis em 50 quilómetros, 81% do trajeto.

O viaduto, que liga os municípios de Sampierdarena e Cornigliano, é conhecido como ponte Morandi devido ao nome do engenheiro civil que a projetou, Riccardo Morandi, reconhecido pelo uso que fez do betão armado e falecido em 1989. Inaugurada em 1967, a ponte Morandi chegou a ser apelidada por alguns de Brooklyn Bridge de Génova.

Segundo uma avaliação feita em 2016 pelo engenheiro Antonio Brencich, também professor da Universidade de Génova, a ponte Morandi apresentava vários problemas e há muito tempo. "O viaduto apresentou desde o início diversos aspetos problemáticos, além de ter ficado acima do custo inicialmente estimado. Ainda no início dos anos 1980 quem percorria a ponte era obrigado a um percurso irritante de altos e baixos provocados supostamente pelas mudanças na estrutura, que não estavam previstas inicialmente. Só as repetidas correções de elevação permitiram ter o atual aspeto [em julho de 2016] semi-horizontal", apontou ainda Antonio Brencich, que noutra entrevista sublinhou: "[A ponte é] um erro da engenharia e deve ser reconstruída em breve porque os custos de manutenção serão exorbitantes e superarão os da construção."

Três anos antes da inauguração desta ponte Morandi em Génova, uma outra do mesmo engenheiro, na Venezuela, também colapsou. Eram consideradas pontes gémeas. A venezuelana chamava-se ponte General Rafael Urdaneta. Situada no Lago de Maracaibo, no oeste da Venezuela, a ponte em homenagem ao herói da guerra da independência do país colapsou parcialmente quando, a 6 de abril de 1964, pelas 22.45, um petroleiro com 262 mil barris de crude a bordo sofreu uma falha na sala de máquinas e embateu nos pilares da ponte. Destruiu 259 metros da estrutura. E fez sete mortos. Passageiros de três automóveis e um camião que caíram no vazio. A reparação demorou oito meses.

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