Premium Gedson mostra-se ao mundo e Benfica continua na rota dos milhões

Benfica empatou em Istambul, confirmando ser mais equipa do que o Fenerbahçe. Para a história fica o enorme jogo de um jovem. Segue-se o PAOK de Vieirinha, os 40 milhões de euros estão à distância de 180 minutos.

O Benfica está no playoff que antecede a fase de grupos da Liga dos Campeões, fase que vai discutir com o PAOK de Salónica, onde atua o internacional português Vieirinha. Os encarnados empataram nesta terça-feira em Istambul, a um golo, colocando o Fenerbahçe fora da elite do futebol europeu. Com justiça a formação portuguesa segue em frente.

A equipa de Rui Vitória entrou em campo assobiada por 50 mil adeptos mas rapidamente inverteu esse panorama, pois mostrou ser muito mais equipa do que o Fenerbahçe. Bastou uma entrada corajosa, arrojada e com um jovem a brilhar a grande altura - Gedson, pois claro - para desnortear a formação turca. Ainda assim os locais tentavam, mas era um tentar incapaz, próprio de quem tem falta de capacidade para disputar uma eliminatória com o Benfica, que soube lidar bem com o jogo e também com a eliminatória em quase todos os momentos do jogo.

O Fenerbahçe tentava, mas era um tentar incapaz, próprio de quem tem falta de capacidade para disputar uma eliminatória com uma equipa com os argumentos do Benfica, que soube lidar bem com o jogo e também com a eliminatória em quase todos os momentos.

Rui Vitória, que já não tinha Jonas, optou por Castillo deixando Ferreyra no banco. E em boa hora o fez, pois o chileno foi essencial no golo do Benfica, ao fazer uma combinação perfeita com atrevido Gedson, que depois teve mérito na forma como se antecipou a Demirel, demasiado lento a sair da baliza. Logo a seguir o chileno lesionou-se e Ferreyra entrou. Mas o argentino parece em contraciclo, pois é uma peça que não encaixa neste puzzle chamado Benfica. Teve uma soberana oportunidade nos pés ao ser isolado pelo compatriota Salvio, ainda ladeou Demirel mas atirou às redes laterais. No minuto quase a seguir o Fenerbahçe empatou numa jogada em que Potuk mostrou todas as debilidades de Grimaldo a defender.

Nos primeiros 45 minutos houve dois jogadores, para lá de Gedson, que mereciam um destaque: Elmas, um jovem médio macedónio de apenas 18 anos e que se revelou o cérebro deste Fenerbahçe, e Vlachodimos, que susteve com classe um remate do próprio Elmas e transmitiu segurança aos seus colegas - o que já não é pouco.

A boa decisão de Rui Vitória

O início do segundo tempo foi doloroso para o Benfica, com o Fenerbahçe, ainda empertigado com o empate nos descontos da primeira parte, a tentar chegar ao segundo golo com rapidez para depois aspirar ao tento que lhe permitisse a qualificação. Mas com calma o Benfica assentou o seu jogo, muito por culpa de Gedson, que não era só o pulmão, era também o talento e a coragem de levar a equipa para a frente. O Benfica tem mais um enorme intérprete nas suas fileiras.

Aos 65 minutos, Cocu, treinador holandês do Fenerbahçe, fez o que lhe competia, fazendo entrar o extremo Baris e o avançado Soldado dispondo a sua equipa num arrojado 4x2x4. E a verdade é que o Benfica sofreu, teve alguns minutos em que não conseguiu sair para o meio-campo contrário, muito por falta de critério no passe. Rui Vitória assustou-se com um remate perigoso de Baris, que fez brilhar novamente Vlachodimos e tomou a sua decisão; retirou Salvio, meteu Alfa Semedo em campo para jogar ao lado de Fejsa, libertou Gedson e atirou Pizzi para o flanco direito. E, pronto, o Fenerbahçe foi perdendo gás, muito gás. Verdade que é daquelas substituições que podiam transmitir medo à equipa, mas por vezes é necessário fazê-las.

Até final confirmou-se a ideia inicial: o Benfica teve sempre a eliminatória controlada, é mais equipa do que o Fenerbahçe e tem uma ideia de jogo mais trabalhada, mesmo que nalguns momentos tenha tido alguns momentos de desequilíbrio emocional. Mas o importante, para o próprio Benfica mas também para o futebol português, é que continua na perseguição aos mais de 40 milhões que estão garantidos caso entre na fase de grupos.

Figura

Gedson Fernandes. Tem apenas 19 anos mas não tem medo de tomar decisões, mesmo que sejam erradas. Costuma-se dizer que na vida pior do que uma má decisão é uma não decisão. Mas Gedson também sabe tomar boas decisões. Foi isso que valeu o golo do Benfica no estádio do Fenerbahçe após uma bela combinação com Castillo. Tem um talento impressionante que, aliado à sua robustez física, ameaça ser um caso sério. Para já, e isto não é coisa de somenos, é titular sem contestação do Benfica e desde esta terça-feira deve ter o seu nome bem sublinhado nalguns cadernos de olheiros dos principais clubes europeus. E atenção à próxima convocatória de Fernando Santos...



Ficha de jogo

Jogo realizado no Estádio Sükrü Saraçoglu, em Istambul.

Fenerbahçe-Benfica, 1-1.

Ao intervalo: 1-1.

Marcadores:

0-1, Gedson, 26 minutos

1-1, Alper Potuk, 45+1

Equipas:

Fenerbahçe: Volkan Demirel, Isla (Ozbayrakli, 79), Neustadter, Skrtel, Hasan Ali Kaldirim, Mehmet Topal (Baris Alici, 65), Elmas, Giuliano, Valbuena (Soldado, 65), Alper Potuk e André Ayew.

(suplentes: Kameni, Dirar, Soldado, Mehmet Ekici, Ozbayrakli, Baris Alici e Guveli).

Treinador: Philip Cocu.

Benfica: Vlachodimos, André Almeida, Rúben Dias, Jardel, Grimaldo, Fejsa, Gedson, Pizzi, Salvio (Alfa Semedo, 72), Castillo (Ferreyra, 34) e Cervi.

(suplentes: Svilar, Conti, Alfa Semedo, Zivkovic, Samaris, Rafa e Ferreyra).

Treinador: Rui Vitória.

Árbitro: Slavko Vincic (Eslovénia).

Ação disciplinar: cartão amarelo para Elmas (22), Vlachodimos (52), Salvio (56), Rúben Dias (62) e Pizzi (83).

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