Encontro marcado com a Índia

O primeiro-ministro António Costa escreve sobre as relações Portugal-Índia no dia em que se cumprem 71 anos da independência daquele país.

Cumprem-se hoje 71 anos sobre o nascimento da Índia independente, a 15 de agosto de 1947. Num discurso cheio de sentido e de emoção, momentos antes da meia-noite da independência, o então recém-nomeado chefe do governo da Índia, Jawaharlal Nehru, recordou aos seus compatriotas o "encontro com o destino" que haviam marcado anos antes, em 1929, no início de um longo e inspirador movimento de não violência protagonizado por Mahatma Ghandi. Nehru proclamou a independência do país com solenidade e esperança, como se de um verdadeiro renascer se tratasse: "Ao bater da meia-noite, enquanto o mundo dorme, a Índia acorda para a vida e para a liberdade."

Nascido de pai goês, e, portanto, enquanto pessoa de origem Indiana, o dia 15 de agosto reveste-se para mim de um simbolismo especial.

A minha visita oficial à Índia, em janeiro de 2017, constituiu por isso um reencontro com as minhas origens. Mas foi também uma oportunidade para conhecer uma Índia com encontro marcado com o mundo e com a modernidade. Um imenso país que reúne um quinto da população mundial, na sua maioria jovem. Um país que regista a maior taxa de crescimento entre as grandes economias mundiais, que se deverá manter e consolidar nos próximos anos, resultado das reformas em curso para relançar a atividade económica, promover o investimento e criar emprego. Um país aberto ao mundo e com uma influência crescente, mercê também da sua importante diáspora, espalhada pelos cinco continentes.

Portugal e a Índia são duas economias que querem percorrer o século XXI juntas. As relações bilaterais entre Portugal e a Índia são antigas e fundadas sobre fortes laços históricos e humanos, que tanto se têm reforçado nos últimos anos, fruto de trocas e de contactos cada vez mais diversos e intensos, sedimentados pela minha visita, pela do primeiro-ministro Narendra Modi a Lisboa, seis meses mais tarde, e pelos novos trilhos de cooperação que lançámos em conjunto.

Assinámos acordos nos setores da ciência e da tecnologia, com ênfase também nos recursos marinhos, da defesa, do turismo, da cultura, da modernização administrativa, do comércio e do investimento, e das energias renováveis. Além da cooperação entre os nossos Estados, as nossas administrações e as nossas universidades, o verdadeiro sucesso destes acordos medir-se-á pela intensificação das relações económicas entre os dois países.

Essa intensificação está já a acontecer. Em 2017, as exportações portuguesas para a Índia cresceram 50% e as exportações indianas para Portugal 25%, bem mais do que os 8% do aumento das nossas importações e exportações de e para o resto do mundo. Este crescimento permitiu que em 2017 tivéssemos mais 140 empresas a exportar para a Índia do que tínhamos em 2013.

Mas podemos ir mais longe, permitindo que as nossas empresas não só participem como alavanquem o forte crescimento que se tem registado nos dois países. Em Portugal, as empresas indianas poderão encontrar um porto seguro e um terreno fértil para o seu investimento. Disse-o em Londres, em abril passado, às mais de 800 empresas que têm no Reino Unido a sua base de operações europeia, e cujos rendimentos representam mais de um quarto do nosso PIB, que podem ter o 2-em-1 do brexit no Reino Unido e, a partir de Portugal, continuar a operar no mercado interno europeu. E na Índia, onde ambos os países estão empenhados em que as empresas portuguesas participem nos grandes projetos de investimento da Índia. Foi esse, aliás, o tema de uma reunião que promovi em fevereiro entre o governo indiano e o nosso setor da construção, e é já uma realidade efetiva, com a biometria do aeroporto de Bangalore, o terceiro maior da Índia, a ser fornecida pela VisionBox, num contrato que iremos assinalar publicamente em Lisboa no início de setembro. Também o Grupo Águas de Portugal (AdP) assinou em dezembro um protocolo de desenvolvimento de negócios com a WAPCOS, empresa pública que lidera projetos neste setor na Índia e no continente africano e asiático, graças ao qual se estão a gerar sinergias e valiosas oportunidades internacionais de negócio para a AdP.

" Em Portugal, as empresas indianas poderão encontrar um porto seguro e um terreno fértil para o seu investimento"

Para o aprofundamento destas relações contamos agora também com o apoio do Portugal-India Business Hub, uma plataforma que visa promover negócios entre empresários em Portugal e na Índia, mas também em países terceiros com forte presença das nossas diásporas, e cujo trabalho quero reconhecer e incentivar.

Se há cinco séculos foi a rota marítima que juntou Portugal e a Índia, hoje será certamente a rota do digital e da inovação que nos juntará para o futuro. Por isso, lançámos o Programa Startup Visa, que anunciei na minha visita à Índia, e que conta já com várias candidaturas em curso de empreendedores indianos, e o India-Portugal Startup Hub, que anunciámos aquando da visita do primeiro-ministro Modi a Portugal, e que abriu no passado dia 7 agosto um programa de acolhimento de startups indianas em Portugal, em parceria com a Startup Lisboa, a Startup Braga e a Scaleup Porto. Os resultados destas iniciativas serão anunciados durante a Web Summit deste ano.

"Se há cinco séculos foi a rota marítima que juntou Portugal e a Índia, hoje será certamente a rota do digital e da inovação que nos juntará para o futuro"

Ao cinema e ao turismo cabem igualmente um papel fundamental nesta aproximação entre os nossos países. Portugal insere-se hoje na rota de Bollywood enquanto destino de filmagens para a importante indústria cinematográfica indiana, com o apoio do Fundo Turismo e Cinema, que criámos para promover a captação de filmagens internacionais no nosso país. Produções emblemáticas de Bollywood como My Story e Jab Harry Met Sejal foram realizadas em Portugal nos últimos anos e a cidade do Porto acolherá, a partir de outubro, as gravações do próximo grande filme indiano.

O protocolo que assinámos com o VM Salgaocar Institute de Goa tem, por seu turno, permitido promover a troca de experiências e de competências na área do turismo, através do intercâmbio de alunos de escolas de hotelaria e turismo.

Todas estas iniciativas têm-se revelado determinantes para colocar Portugal no mapa dos turistas indianos, cujo número aumentou 46% entre 2015 e 2017, e já regista neste ano um aumento de 32%.

Foi também com profunda emoção que aceitei o convite do primeiro-ministro Modi para integrar a comissão para as comemorações dos 150 anos do nascimento de Mahatma Gandhi, que terão lugar em 2019.

Há 71 anos, na madrugada de 15 de agosto, os indianos viveram o seu encontro com o destino. Hoje, durante todo o dia, portugueses e indianos têm também encontro marcado, no Jardim Vasco da Gama, em Belém. Ali poderão desfrutar de um festival que marca com os sons, as cores e os aromas da Índia o culminar de um ano de festejos do 70.º aniversário da sua independência.

A todos os indianos espalhados pelo mundo, e em especial aos membros da comunidade indiana em Portugal, desejo um feliz e auspicioso Dia da Independência.

António Costa

Primeiro-ministro

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

Premium

Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Premium

Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.