É tudo uma questão de formigas e física quântica

Está a partir desta semana nas salas portuguesas. Homem-Formiga e a Vespa, de Peyton Reed, é a segunda aventura de Paul Rudd na pele do super-herói do tamanho de um inseto. Uma notável produção da Marvel.

Já tínhamos o Homem-Formiga, agora juntou-se-lhe a Vespa. A população de super-heróis não cessa de crescer no grande ecrã, de ano para ano, seja em novas sagas individuais ou respetivas continuações. Mas é também verdade que dentro desse crescimento populacional se procura manter alguns contrastes no panorama. E aqui não será menos justo afirmar que a referida dupla se orienta por esse saudável princípio da diversidade. O filme que nos ocupa trata-se, afinal, de uma sequela - à luz do anterior Homem-Formiga (2015) - destinada a todos aqueles que apreciam o semblante menos carregado do universo dos super-heróis; isto é, a sua linha mais humorística. E, neste caso, fica a evidência de que a Marvel continua a somar pontos na inovação face à concorrente DC Comics.

Não é que a rivalidade entre as duas marcas/estúdios seja necessariamente um tópico de avaliação global, mas através da renovada frescura deste último Homem-Formiga e a Vespa é possível confirmar o gosto da Marvel por exceções à regra, como o são Os Guardiões da Galáxia, Deadpool ou a fantasia mística de Doutor Estranho. Todos eles exemplos, e boas surpresas, que quebraram a tendência para o cinzentismo e a obscuridade vã da maior parte das fitas de super-heróis que invadem as salas. Por essa razão, somos levados a crer que a esperança está numa certa atitude comummente designada por "não se levar demasiado a sério". Isso reflete-se, na maioria dos casos, em inteligência narrativa. Algo que vai escasseando... Eis então a postura desempoeirada assumida por Paul Rudd, o ator que volta a vestir o traje do Homem-Formiga, e também a colaborar no argumento. Este aspeto não é de somenos: Rudd já tinha dado o seu cunho pessoal na escrita do filme anterior, traduzindo-o no estofo genuíno de uma personagem que é bem mais do que um nome simbólico no vasto catálogo das criações Marvel.

O homem por detrás do herói

Como ficámos a saber no filme de 2015, igualmente assinado por Peyton Reed, o homem por detrás do herói é um pai divorciado e disposto a tudo para se mostrar digno de um lugar especial na vida da sua filha pequena. E esse lugar que reconquistou depois da primeira missão - envergando o fato "mágico" inventado pelo cientista que Michael Douglas interpreta - é agora de novo posto à prova num trabalho cientificamente mais elaborado, que envolve física quântica e outros laços familiares que não os seus. Acontece que Douglas, o criador do equipamento que reduz qualquer corpo para o tamanho de um inseto, descobre uma possibilidade de trazer a sua própria mulher (Michelle Pfeiffer), desaparecida, de volta ao nosso mundo. Enfim, não se trata de ressuscitá-la - neste ponto não podemos fazer outra coisa senão reservar as explicações rocambolescas para o filme... E desta vez a filha deles (Evangeline Lilly), vestindo o fato da Vespa, entra em ação ao lado do Homem-Formiga, numa aventura que acaba por tocar a dimensão mais deslumbrante do imaginário da ficção científica.

Agregado ao trio surgem também, em situações hilariantes, os já conhecidos amigos desajeitados do Homem-Formiga, e mais uns quantos empatas, que chocam com os planos do novo vilão, Ghost - este, ao contrário da personagem original da banda desenhada, é aqui interpretado por uma mulher (Hannah John-Kamen). Como se percebe, há muita gente ao barulho. Mas esse lado barroco da ação e da dinâmica das personagens aguenta-se com agilidade do princípio ao fim, sem perder de vista o fio condutor íntimo que precede os aparatos técnico, científico e burlesco.

Veja aqui o trailer:

De facto, Peyton Reed consegue manter em Homem-Formiga e a Vespa a mesma franqueza emocional e humana aliada à diversão hábil que caracterizava o filme anterior. E muitas vezes, a dita inteligência narrativa que suporta uma produção de grande calibre de entretenimento como esta manifesta-se pura e simplesmente no jogo de escala visual: imagine-se uma cena de perseguição com recurso àqueles carros em miniatura que fazem a delícia das crianças, ou então o Homem-Formiga de repente transformado em Gulliver. Digamos que os nossos olhos também apreciam a brincadeira...

*** (Bom)

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Henrique Burnay

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