Premium Consumo ajuda crescimento da economia, mas há dúvidas no investimento

Zona euro abranda para 2,2% arrastada por Alemanha, Itália, França e Espanha, mostra o Eurostat. Portugal acelera ligeiramente, de 2,1% para 2,3%, diz o INE.

A economia portuguesa acelerou de 2,1% nos primeiros três meses deste ano para 2,3% no segundo trimestre (variações homólogas,em relação a iguais períodos de 2017), revelou ontem o Instituto Nacional de Estatística (INE). O consumo privado ajudou, a procura externa não e há dúvidas quanto à força do investimento.

Os dados já disponíveis para o terceiro trimestre compilados pelos ministérios das Finanças e da Economia apontam nesse sentido: em julho, as vendas de veículos ligeiros, que são um indicador avançado do consumo, voltaram a disparar (quase 14%). O crédito ao consumo e outros fins também está a evoluir bem (mais 7% em junho e a ganhar força), mas a confiança dos consumidores abrandou.

No capítulo do investimento, há sinais díspares. As vendas de comerciais ligeiros voltaram ao vermelho (-1,8% em julho) e as de camiões afundaram 25%. Os empresários e gestores da construção estão um pouco mais pessimistas, mas em compensação as vendas de cimento (um indicador avançado muito relevante para o investimento) subiram mais de 11% no mês passado, refletindo a retoma da construção. Chegaram a cair no primeiro trimestre por causa das chuvas intensas que assolaram o país.

Os níveis de confiança nos restantes setores da economia (indústria, comércio e serviços) também baixaram em julho.

Assim, com tantos sinais diversos, alguns economistas acreditam que o crescimento da economia em 2018 irá ficar em linha com o que espera o governo (2,2% no Orçamento, 2,3% no Programa de Estabilidade).

A não ser, claro, que aconteçam "flutuações externas" inesperadas, considerou ontem o gabinete do ministro Mário Centeno, numa reação à estimativa rápida da evolução do produto interno bruto (PIB). Boa parte desse receio está centrada na dinâmica das exportações.

Por exemplo, segundo também informou ontem o Eurostat, Portugal voltou a crescer mais do que a média da zona euro (2,2%), mas isto porque as grandes economias (Alemanha, França, Itália, Espanha) começaram a desacelerar. Problema: estes países são os maiores clientes das vendas nacionais, o que pode condicionar, a prazo, as exportações portuguesas.

Mas, para já, o cenário central é de que não haverá grandes desvios. "Nos trimestres seguintes, antecipa-se que o ritmo de crescimento em cadeia permaneça semelhante ao do segundo trimestre de 2018, refletindo expectativas positivas para a evolução da atividade exportadora e para o consumo privado, dado o bom momento registado no mercado de trabalho", diz Teresa Gil Pinheiro, economista do BPI, num comentário aos dados do INE.

O gabinete de estudos do banco mantém a projeção de expansão do PIB para o ano como um todo. "Os dados agora publicados estão em linha com as previsões do BPI Research para o crescimento em 2018 (2,3%), considerando-se equilibrados os riscos associados ao cenário", diz a economista.

Consumo melhor, investimento nem tanto

Sobre o período em análise (abril a junho), o INE refere que "a procura interna registou um contributo mais positivo, em resultado da aceleração do consumo privado, enquanto o investimento apresentou um crescimento menos acentuado, determinado em larga medida pela diminuição da formação bruta de capital fixo em material transporte".

Isto aconteceu porque há um ano as vendas de veículos (comerciais ligeiros e camiões) estavam com uma expansão assinalável. Essa rubrica do investimento disparou mais de 35%, levando o investimento fixo total a subir 11,4%, o melhor registo em quase 19 anos.

Ainda sem divulgar valores para os agregados do PIB, o INE assinala que "a procura externa líquida [exportações menos importações] apresentou um contributo negativo idêntico ao observado no trimestre anterior". Faltou força às exportações, ou as importações ganharam músculo (o que também pode ser um sinal de mais investimento já que Portugal compra muita tecnologia e maquinaria de marcas estrangeiras).

Centeno quer resistência a flutuações

O gabinete de Mário Centeno considera que "esta estimativa está alinhada com as expectativas traçadas pelo governo no Orçamento do Estado para 2018" e realça "os contributos importantes do investimento e das exportações (10,5%)".

"Este é o décimo sétimo trimestre consecutivo de crescimento", que ocorre "num contexto de equilíbrio das contas externas e de gestão orçamental responsável". Esta mudança estrutural, apoiada por condições de financiamento mais estáveis, é o melhor garante de resiliência face a eventuais flutuações externas bem como da provisão sustentável de serviços públicos", dizem as Finanças.

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