Da G3 aos Alouette: ainda há material da Guerra Colonial em serviço

Espingardas automáticas G3 do Exército são as mais conhecidas, mas Marinha e Força Aérea também operam ainda com algum material usado na guerra de África.

Manuel Carlos Freire
General António de Spínola e um soldado armado com uma G3 na Guiné. | foto Global Imagens
Navio reabastecedor "Bérrio", num exercício recente ao largo de Setúbal. | foto RUI MINDERICO/LUSA
Militares armados com G3 em 1975 | foto Arquivo Global Imagens
Helicóptero Alouette III, da Força Aérea, no teatro de operações da Guiné. | foto Global Imagens
Corveta da classe João Coutinho ao largo do cabo Espichel. | foto Steven Governo/Global Imagens
Canhão sem recuo M40A1 de 106 mm no teatro de operações africano. | foto Exército
Um Chipmunk MK 20, que a Força Aérea utiliza para rebocar planadores.  | foto EMFA

As Forças Armadas já operam com pouco material utilizado na Guerra Colonial mas, enquanto no Exército ainda tem um peso operacional importante, ele é mínimo na Marinha e residual na Força Aérea.

Em termos metafóricos, ouvidos pelo DN nos corredores do Exército, é que no ramo terrestre nada se afunda, como é o caso dos navios da Marinha, ou cai, como sucede com as aeronaves da Força Aérea. Por isso, assinala um oficial de Artilharia, nas forças terrestres é sempre possível desenrascar. Ou esperar - se possível "com uma cerveja", observa com humor, por reforços e peças da retaguarda.

Miguel Machado, tenente-coronel paraquedista na reforma e fundador do site Operacional (dedicado a temas militares), explica essa realidade com questões financeiras. "É naturalmente sinal das grandes dificuldades que as Forças Armadas têm sentido em obter recursos financeiros para a sua modernização."

"O caso paradigmático é o da arma ligeira (e as pistolas e as metralhadoras ligeiras), prometida ano após ano por sucessivos governos e... nada", lamenta aquele oficial ao DN. "A G3 de calibre 7,62 mm, que ainda continuamos a usar em combate na República Centro-Africana, ou no Afeganistão e no Iraque, tem servido sem dramas."

Na Marinha, esse material está limitado às três corvetas e a dois patrulhas costeiros. Note-se que o navio reabastecedor Bérrio, embora ao serviço desde 1970, só pertence à frota portuguesa desde os anos 1990.

A Força Aérea apenas tem, na área operacional, meia dezena de helicópteros Alouette III e a poucos meses do fim da sua vida útil (prevista para março de 2019).

As famosas e fiáveis mas antiquadas espingardas automáticas G3 continuam a ser o mais importante armamento individual dos soldados do Exército.

Agora, alerta Miguel Machado, a ausência dos referidos dramas - ou o fim da proteção divina, como é comum ouvir-se - será "até um dia", o qual ainda não ocorreu "apenas e só porque o inimigo que enfrentamos tem uma arma semelhante ou pouco melhor".

"O que devia acontecer era nós termos uma arma claramente superior aos grupos armados que os nossos soldados enfrentam", como é o caso na República Centro-Africana (RCA), argumenta o oficial paraquedista, que integrou os primeiros grupos de militares do Exército enviados para a Bósnia e Herzegovina no início de 1996.

Quanto ao restante material oriundo da Guerra Colonial (1961-1974) no Exército, é quase só armamento. Consultada a lista disponível na página digital do ramo, encontram-se as pistolas Walther P38 de 9 mm), as metralhadoras HK21 e MG42, as pistolas metralhadoras FBP (para fins honoríficos) e Uzi (9mm), além do canhão sem recuo M40A1 de 106mm - com um alcance de pouco mais de 3000 metros e que era "utilizado na defesa de aquartelamentos" em África, lembra Miguel Machado.

Há ainda a metralhadora pesada Browning 12,7mm, mais antiga do que a G3 mas cuja qualidade e eficácia - ao contrário da espingarda automática - continua a não ter rival nos teatros de operações atuais, garante o fundador do Operacional.

Sem ser armamento, o Exército tem ainda três ou quatro Chaimites aquarteladas no Regimento de Cavalaria 6, em Braga. Estas exceções no parque de viaturas, sejam táticas ou blindadas de rodas e lagartas, foram modernizadas nos anos 1980 e transformadas numa versão porta-morteiros de 81 mm (inexistente nas modernas Pandur de oito rodas).

"Trata-se naturalmente de uma viatura obsoleta para os dias de hoje, com valor militar muito discutível", refere Miguel Machado.

A modernização do ramo naval das Forças Armadas já atingiu as várias esquadrilhas combatentes da Marinha. No conjunto da esquadra, a exceção são as corvetas e parte dos patrulhas costeiros.

As três corvetas, duas da classe João Coutinho e uma da classe Baptista de Andrade, têm menores capacidades oceânicas e armamento inferior ao das fragatas. As duas primeiras são a Jacinto Cândido (ao serviço desde 1970) e a António Enes (1971), enquanto a terceira é a João Roby (já de 1975).

Estes são navios qualificados como não combatentes, vocacionados para as missões de apoio às autoridades civis com poder de autoridade marítima.

Os patrulhas costeiros, com 200 a 400 toneladas e comprimento inferior a 45 metros, formam uma esquadrilha que começou a ser modernizada em meados desta década com a aquisição, à Dinamarca, de quatro navios (classe Tejo) construídos no início dos anos 1990.

Esses navios vieram substituir os da classe Cacine, de que ainda estão a navegar o Zaire (1971) e o Cuanza (1970) - o primeiro dos quais está atualmente em missão no arquipélago de São Tomé e Príncipe.

Quanto ao reabastecedor Bérrio, a cuja substituição o chefe do Estado-Maior, almirante Mendes Calado, atribuiu elevada prioridade, trata-se de um navio lançado ao mar em 1969 e que entrou ao serviço da Marinha britânica no ano seguinte. A sua integração na esquadra portuguesa deu-se em 1993, substituindo o São Gabriel.

Este é o ramo onde, da Guerra Colonial, restam uns quatro Alouette III. Estes helicópteros ligeiros, que podiam ser equipados com um canhão lateral de 20 mm e um sistema de lança-foguetes capaz de transportar 12 unidades, são ainda usados na formação de pilotos e em missões de busca e salvamento junto à costa.

O seu fim de vida útil estava previsto para este verão, mas o ramo conseguiu estender esse período até ao primeiro trimestre de 2019, quando entram ao serviço os primeiros dois dos cinco novos Koala - a versão militar dos AW119 fabricados pela italiana Leonardo.

Os Koala, "quer pelas suas características quer pelo reduzido número adquirido, não terão uma influência tão relevante nas nossas Forças Armadas mas certamente poderão cumprir bem melhor algumas das missões que o Alouette III ainda cumpre", regista o tenente-coronel Miguel Machado.

"Continuaremos, no entanto, a não dispor de helicópteros de ataque", adianta o fundador do Operacional. A verdade é que a versão militar dos Koala está preparada para receber armamento, o que dependerá da existência de verbas - e o ramo, provavelmente, dará prioridade à compra de mais aparelhos antes de os equipar com armas.

Na Força Aérea existem ainda os Chipmunk MK20, tão ou mais antigos do que os Alouette, mas que eram utilizados apenas na instrução elementar de pilotagem - logo, sem valor operacional - e agora funcionam como reboque de planadores.