O modo de vida europeu e os seus inimigos

O nome da pasta das Migrações na nova Comissão Europeia criou uma justa indignação. Aproveitemo-la para fazer o debate que interessa: o que é a Europa? O que queremos que seja? E que temos de fazer para isso?

Imaginemos assim: no novo governo aparecia um ministério intitulado "Para proteger o modo de vida português". Ficávamos um bocado perplexos, no mínimo. Que raio é o modo de vida português, perguntaríamos. Chegar atrasado, levar horas a almoçar, falar da vida dos outros e ser obcecado por futebol? Ser nostálgico e fatalista, gostar do mar, peixe grelhado e enchidos? E que áreas iria um ministério com esse nome tutelar, a das tascas, do fado, da gastronomia, das praias e do tintol?

Difícil sequer imaginar um entendimento não derrisório de tal declaração de intenções: temo-nos em pouca conta e estamos sempre prontos a achar que o modo de vida "lá fora" é superior.

Teríamos se calhar a mesma reação caso o título fosse usado num departamento governamental do Burkina Faso: rebentávamos a rir. Porque mesmo não sabendo rigorosamente nada do Burkina Faso partiríamos do princípio (preconceituoso) de que não tem um modo de vida que mereça ser protegido, desde logo porque achamos que não há de ser invejável, e muito menos estará ameaçado - por quê e por quem?

Já se aparecesse nos EUA um departamento governamental assim denominado acharíamos de um chauvinismo insuportável, uma "americanice" saloia mas preocupante, de pendor racista e imperialista. Igual para a França ou o Reino Unido. Comentaríamos: lá estão estes armados em superiores, a achar que o modo de vida lá deles é o melhor do mundo e arredores e que toda a gente o inveja e quer estragar. Por quem se toma esta gente?

Dar um nome assim a uma pasta que migrações e segurança só tem uma leitura: a de que a Comissão assumiu a linguagem da extrema-direita nacionalista, que é também a linguagem dos terroristas supremacistas brancos de extrema-direita como Anders Breivik e a dos terroristas do Daesh.

Na verdade, este tipo de ministério parece saído das páginas de uma ficção distópica como 1984, Admirável Mundo Novo ou Diário de uma Serva. Ou dos quotidianos distópicos de uma Coreia do Norte ou uma URSS ou uma China maoista, a rimar com aqueles cartazes de operários e agricultores radiantes rodeados de vacas, porcos e mulas também empenhadíssimos nos amanhãs cantarolantes. Mas, como se sabe, foi na Europa dos nossos dias que a ideia apareceu e terá parecido tão fantástica a várias pessoas altamente colocadas, a começar pela presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, que acabou a crismar uma das pastas do seu governo.

O interessante é que se a pasta em causa fosse a da Igualdade, Direitos Humanos, Integração, Qualificação e Mercado de Trabalho seria possível achar o nome arrevesado mas ainda assim uma boa notícia: significaria que a nova liderança da comissão considerava que o modo europeu de vida é indissociável dos direitos fundamentais e dos direitos dos trabalhadores - e veríamos esta denominação como um aviso aos países da UE que andam a pisar o risco nessas matérias, ou até já o passaram para o lado de lá, como a Hungria de Orbán e a Polónia, ou prospetivos membros como a Ucrânia, assim como um claro "não nos renderemos" endereçado aos nacionalistas da extrema-direita e aos ultraliberais económicos que sonham terraplanar o que resta do Estado social.

Deu-se porém o caso contrário, porque a pasta é a do mercado de trabalho, qualificação e educação, mas também da segurança e migrações. E dar um nome assim a uma pasta que inclui estas duas últimas áreas só tem uma leitura: a de que a Comissão assumiu a linguagem da extrema-direita nacionalista, a linguagem dos que consideram que a Europa/Ocidente estão em perigo devido aos imigrantes e ao risco de invasão por "outras culturas" e que é necessário protegê-los disso. Que é também, claro, a linguagem dos terroristas supremacistas brancos de extrema-direita como o norueguês Anders Breivik e a dos terroristas do Daesh - uns a proclamarem a "guerra santa" contra a "invasão" que os outros, em igual proclamação de "guerra santa", dizem protagonizar.

Bem pode Von der Leyen partilhar na sua conta de Twitter o artigo 2.º do Tratado de Lisboa, como fez quinta-feira, para tentar justificar a escolha daquela denominação, de resto com eco noutra pasta, a da "Democracia e Demografia". "A União funda-se nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos do Homem, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias. Estes valores são comuns aos Estados-Membros, numa sociedade caracterizada pelo pluralismo, a não discriminação, a tolerância, a justiça, a solidariedade e a igualdade entre homens e mulheres", lê-se no tuíte da presidente, que visa com ele elucidar os críticos sobre o que ela, como o dito tratado, considera os valores europeus e portanto a base do tal "modo de vida europeu".

Muito lindo. Mas é quando diz que o "modo de vida europeu é construído com base na solidariedade, na paz de espírito e na segurança", e que "temos de enfrentar e aliviar receios e preocupações legítimas suscitados pelo impacto de migrações ilegais na nossa economia e sociedade" que Von der Leyen assume ao que vem.

Como escreve no The Guardian o articulista Daniel Trilling, as chocantes escolhas semânticas da Comissão Von der Leyen -- já atacadas publicamente pelo presidente cessante, Jean-Claude Juncker, que considera deverem ser substituídas - são mais um exemplo de uma tendência que se tem vindo a verificar nos políticos do centro, a de adotarem a linguagem e os temas nacionalistas dos seus opositores de extrema-direita numa tentativa de os neutralizar (ou, como temos constatado em Portugal com o PSD e o CDS, também no desespero de pescar algum eleitorado extremista).

Apontar as migrações e a demografia como principais perigos num momento em que o populismo e autoritarismo xenófobos - e homofóbicos e machistas - ganham tração no Ocidente, em que voltam a ouvir-se cânticos de "terra e sangue", é entregar aos inimigos a chave da cidade.

Mas, adverte Trilling no citado artigo, "a longa história das ideias sobre a superioridade europeia e a lógica racista que lhes subjaz não pode ser ignorada. Todos sabemos que "europeu" é frequentemente usado como sinónimo de "branco". E quando Von der Leyen se gabou do facto de os seus novos comissários terem "a diversidade da Europa", chamando a atenção para a paridade de género e o leque de nacionalidades, parece não ter reparado que são todos brancos.

Se calhar é de recordar que a União Europeia nasceu da ressaca da Segunda Guerra Mundial e que esta se deveu ao sonho imperialista supremacista branco de um povo que se considerava "escolhido" e que se proclamava "über alles", ou "acima de todos". Foi contra isso, e para que nunca mais, que se construiu a nova Europa. É desse modo de vida europeu, o da democracia e do Estado social e respeito pelos direitos humanos, o da liberdade e da igualdade e também o dos países que assumem o seu passado de colonizadores e a sua história imperialista e por ela se retratam que devemos ter orgulho.

É isso que a Europa construiu de inovador e admirável e precioso, e é isso que temos de defender, se necessário com unhas e dentes. Apontar as migrações e a demografia como principais perigos num momento em que o populismo e autoritarismo xenófobos - e homofóbicos e machistas - ganham tração no Ocidente, em que voltam a ouvir-se cânticos de "terra e sangue", em que se renegam os crimes do colonialismo e imperialismo e se erguem saudações nazis e suásticas nos EUA e na própria UE é entregar aos inimigos a chave da cidade. A grandeza da Europa será a de saber interpretar a sua história. Ou não será.

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