Notas do Japão (III)

Últimos desejos para os últimos dias em Tóquio é visitar essas duas marcantes instituições nipónicas do período pós-Showa: a Bershka e o Starbucks. A Bershka porque já se sabe que não tem o mesmo que lá em Portugal, oh pai menos, oh pai nem venhas, oh pai o que é que tu sabes disso, nunca deves ter entrado numa Bershka. Claro que também não foram sensíveis ao argumento de estarmos em Tóquio, de o poder de compra aqui ser diferente, a valorização do iene face ao euro, tudo isto é irrelevante, não por as minhas princesas serem insensíveis às grandes dinâmicas do comércio internacional, que até são, mas porque a ida à Bershka não é para comprar, é só para ver. Claro que é só para ver, incluindo ver em braille, mas nunca é só para ver. Porque vamos lá chegar e vai haver aquelas calças - e eu não tenho calças - e aquele top - e eu já não tenho tops nenhuns -, coisas que só há nesta Bershka, do outro lado do mundo, na cidade mais cara do mundo. Mas o que é isso a comparar com a desgraça de não ter calças e as aulas estarem a começar.

A outra instituição que temos mesmo de visitar é o Starbucks, porque lá só há um e é uma grande porcaria e é pequeno e estes são muito mais fixes. E nós precisamos.

Eu percebo o trauma. Desde que a mãe se juntou a nós para o final das férias a coisa tem sido mais ramen e templos. Eu até fiz a piada de que temos perdido imenso templo, mas elas não gostaram da piada, uma dad joke, apesar de eu achar que elas não conhecem o conceito, mas também não vou ser eu a levantar o tema.

E missa no domingo nem pensem, mas há aqui. Missa?! Elas fiadas que aquilo do Silêncio tinha sido de vez e que aqui estavam a salvo e que ninguém ousaria dizer o nome do Senhor e manter a cabeça em cima dos ombros. Eisshhh, oh pai, fogo, mais valia a mãe não ter vindo. Já não bastava os templos.

E as regras. Aqui as selvagens estão um bocado incomodadas com as regras e o silêncio. Tudo tem um lado certo da rua, uma ordem certa das coisas, e tudo fala muito baixo ou não fala. Ora, isto para estas três preciosidades não é muito, digamos, intuitivo. E quando tudo parece estar certo, a andar pelo lado esquerdo da estrada, em fila, olhando para o lado certo nos cruzamentos, a falar baixo, aparece um carro amarelo e desata tudo aos berros e às palmadas, carro amarelo, carro amarelo, fui eu que vi primeiro, não, não eu disse primeiro, e não é amarelo, tem preto, mas todos os carros têm preto, assim não vale, contigo não jogo. Os outros transeuntes olham discretamente, apavorados, confirmando, não sem tristeza, a superioridade civilizacional do japonês perante o português, que para eles deve ser um tipo de espanhol ou americano (perguntam-nos muito se somos americanos). Claro que eu podia dizer.

Eu não sele amelicano sele poltuguês, mas eles não iam perceber, nem elas, e tinha de explicar o que era o Duarte e Companhia e depois uma discussão sobre como era possível achar piada ao Duarte e Companhia, que elas nunca viram mas que sabem que não tem piada, e não achar piada a Friends. A F3 já me obrigou a ver três episódios de Friends (coisa que eu tinha dito que nunca ia fazer por ter gargalhadas) e até tem piada e assim aproveitamos os templos livres. Mas muito tempo com as minhas filhas dá um bom espelho de mim próprio. Agora decidiram decorar todas as frases em que eu digo que nunca na vida farei isto ou aquilo. A lista vai em: bungee jumping; usar Paez; tirar um siso incluso; fazer implantes no cabelo e fazer depilação. Naturalmente que há um enfoque em temas capilares nesta lista, mas isso decorre de viajando com três adolescente haver em si mesmo e organicamente um enfoque comunicacional na temática capilar, ou pode ser que seja desta sororidade em particular, não sei, não tenho muita experiência.

Quem também não está a ter uma experiência muito boa é o casal da série japonesa My Husband's Penis won't Fit, que se pode ver na Netflix, pelo menos na daqui. O título diz tudo, mas é sobretudo uma metáfora das várias camadas coexistentes de compatibilidade e de incompatibilidades nas relações (ou nos relacionamentos, que me juram ser a mesma coisa que relações mas eu ia jurar que não). E agora tenho de terminar, é tempo dos templos, que tal como as Bershkas são todos diferentes uns dos outros.

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