Depois dos 60

Ancião no Brasil tem o privilégio de andar de graça nos autocarros e pagar o dobro do preço no plano de seguro-saúde

A voz no aeroporto anunciou: "Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência no embarque." Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, muito menos gestante e nem mesmo portador do dito cartão, só me restava ser de "melhor idade" - o que, segundo fui informado no balcão da companhia aérea, significava algo entre os 60 anos e a morte.

Para os que ainda não chegaram a ela e não sabem como é, a "melhor idade" é quando você deixa cair um lápis no chão e, antes de se abaixar para pegá-lo, pensa duas vezes a respeito e, se ninguém estiver olhando, empurra-o discretamente com o pé para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa de pedestres, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal vermelho abriu e agora você terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no cadarço do pé do sapato passa a equivaler, segundo um amigo meu, a uma modalidade olímpica.

Mas para que não se diga que a "melhor idade" não tem seus privilégios, aqui vão alguns: ressecamento da pele, osteoporose, placas de gordura no coração, pressão arterial equivalente a um placar de basquete americano, falência dos neurónios, baixas de visão e audição, falta de ar, queda de cabelo, tendência à obesidade e disfunções sexuais. Ou seja, nós, da "melhor idade", estamos com tudo, e os mais jovens podem ir lamber sabão.

Outra característica da "melhor idade" é o dinheiro e a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar.
Há dias, bem cedo de manhã, um jovem casal passou por mim aqui no Leblon e me reconheceu. Talvez vendo em mim - não sem alguma razão - uma espécie de pterodáctilo, sobrevivente de milhares de noites de esbórnia no Rio dos anos 1980, o rapaz perguntou:
"Voltando da farra, Ruy?"
Respondi, eufórico:
"Que nada! Estou voltando da farmácia!"
E esta é, de facto, a grande vantagem da "melhor idade": você extrai prazer do facto de ainda conseguir ir a qualquer lugar.

Eu já devia ter imaginado que, um dia, isso iria me acontecer. No remotíssimo ano de 1970, quando eu próprio ainda estava com 22 anos, trabalhei numa revista com o histórico caricaturista Álvaro Cotrim, o Alvarus, grande nome da imprensa brasileira do passado. Certo dia, ele entrou furioso na redação. Acabara de passar por uma banca de jornais e lera casualmente a manchete: "Ancião é mordido no nariz por seu papagaio." E seguia-se a notícia: "Fulano de Tal, 65 anos..."

É verdade que, em plena era beatle, Alvarus parecia um egresso da belle époque. Era de uma elegância que, já naquele tempo, não se usava: ostentava bastos bigodes brancos retorcidos, usava gravata-laço de bolinhas, o peito de sua camisa era irrepreensível e ele cheirava a talco francês. Mas sua indignação era justa. O homem cujo nariz fora mordido pelo papagaio tinha 65 anos e fora chamado de ancião. Alvarus também tinha 65 anos, gozava de ótima saúde e ainda vivia de olho nas raparigas. "Quer dizer que, apesar de nunca ter tido o nariz mordido por um papagaio, também sou ancião?", esbravejou.

Hoje, as normas do politicamente correto impediriam que se usasse a palavra ancião. Mas a que escolheram para substituí-la também não é muito melhor: idoso. E ela está o tempo todo nos jornais e na televisão: "Idoso assaltado sobrevive quatro dias, nu, em matagal no entorno de Brasília" - esta saiu há pouco num jornal aqui. Só que este idoso tinha não 65 anos mas 63, o que significa que, de manchete em manchete, o critério de idade para definir os idosos está encolhendo galopantemente.

Tive a prova disso nos dias seguintes. "Polícia Federal prende idoso com vídeos de pedofilia no Paraná" - o idoso tinha 62 anos. Ou: "Idoso engasga-se com asa de frango na Bahia e morre" - 61 anos. Ou: "Bombeiros resgatam idoso que subiu em árvore no Rio e não conseguiu descer" - 60 anos.

Não se pode negar que, tanto quanto os homens de meia-idade, os chamados idosos também vivem se metendo em encrencas pelo Brasil. Mas não se veem manchetes como "Homem de meia-idade é flagrado assaltando carrinho de pipocas em São Paulo" ou nem mesmo "Homem de meia-idade jura inocência no caso do assédio sexual contra a bisavó de seu amigo."

Mas não tem jeito. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que tem poder de lei sobre essas questões no Brasil, quem passa dos 60 anos é idoso. Ou, como se diz carinhosamente, um cidadão da "melhor idade". Com direito a andar de graça nos autocarros, pagar meia entrada no teatro e o dobro do preço no plano de seguro de saúde.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Carnaval no Fogo - Crônica de Uma Cidade Excitante demais, sobre o Rio de Janeiro (Tinta-da-China)

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